Os ‘mandatários’ de Temer

Os ‘mandatários’ de Temer

Na denúncia que levou ao Supremo nesta quarta, 19, em que acusa o presidente por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, procuradora-geral da República, Raquel Dodge atribui ao ex-deputado Rocha Loures, o 'homem da mala', e também ao 'Coronel Lima' papel central em suposto esquema para favorecer empresas do setor portuário

Rafael Moraes Moura e Amanda Pupo / BRASÍLIA

20 Dezembro 2018 | 05h45

Raquel Dodge e Michel Temer. Foto: Dida Sampaio/Estadão

Na denúncia que levou ao Supremo nesta quarta, 19, em que imputa ao presidente da República os crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro, a procuradora-geral, Raquel Dodge, atribui ao ex-deputado Rodrigo Rocha Loures, o ‘homem da mala’, e ao coronel João Baptista Lima Filho, o ‘Coronel Lima’, o papel de ‘mandatários de Michel Temer’.

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Em 72 páginas, Raquel narra supostas ligações de Temer, Rocha Loures e ‘Coronel Lima’ com empresários do setor portuário supostamente favorecidos por meio do Decreto Decreto nº 9.048, de maio de 2017. Ela acusa, ainda, os empresários Ricardo Mesquita e Antonio Celso Grecco e o arquiteto Carlos Alberto Costa. A procuradora pediu a condenação de todos.

Segundo Raquel, ‘Coronel Lima’ atuava como intermediário de Temer ‘na prática destes ilícitos’.

“Michel Temer está no epicentro deste sistema criminoso, porque é o agente político com poderio suficiente para obter benefícios para os empresários do setor portuário.”

Ela destaca o papel de Rocha Loures que, em 2017, foi flagrado saltitando em uma rua de São Paulo com uma mala estufada com R$ 500 mil em dinheiro vivo recebido da JBS – quantia que seria destinada ao presidente, segundo os investigadores do Inquérito dos Portos.

“Neste delimitado contexto, Rodrigo Santos da Rocha Loures atuou na função de mandatário de Michel Temer na prática dos ilícitos imputados nesta denúncia”, assinalou a procuradora.

Segundo ela, Rocha Loures ‘mantém uma longa relação pessoal e funcional com Michel Temer’.

A denúncia cita que, em 2011, o ‘homem da mala’ foi convidado para ser o chefe de Gabinete de Temer na vice-presidência da República ‘e ali permaneceu, em mais de uma função, até assumir cargo semelhante no gabinete do Presidente da República e depois o mandato de Deputado Federal’.

Raquel assinala que, em 2014, Temer gravou um vídeo para a campanha eleitoral de Rocha Loures para a Câmara dos Deputados. Ela destacou um trecho do depoimento do presidente. “Aliás, ele (Rocha Loures), aqui [no gabinete da Vice-Presidência], operava não só auxiliando a mim no Brasil todo.”

Em janeiro de 2015, Rocha Loures tornou-se chefe de Assessoria Parlamentar de Temer na vice-presidência. Em abril de 2015, foi nomeado chefe de Gabinete da Secretaria de Relações Institucionais da Presidência.

“Todos estes vínculos funcionais revelam proximidade e estreita relação de confiança entre os dois denunciados”, crava a procuradora. “Ademais, o próprio Michel Temer reconhece Rodrigo da Rocha Loures como uma pessoa em quem confiava nas funções inerentes à sua

‘Rocha Loures atuou como interlocutor, mandatário e pessoa de confiança de Michel Temer, que, como agente político, está historicamente ligado ao setor portuário brasileiro”, segue a acusação. “As ações, contatos, encontros e ligações telefônicas frequentes e atípicas de Rocha Loures com empresários de concessionárias do setor portuário, especialmente Ricardo Mesquita e Antônio Celso Grecco, e com outros agentes públicos e políticos também com vínculos com o Porto de Santos, todos interessados na edição do novo Decreto dos Portos, são elementos que comprovam as tratativas que caracterizam o crime de corrupção, ora denunciados.”

‘Coronel Lima’, segue a denúncia, também ‘atua como mandatário de Michel Temer’.

“Apresenta-se há décadas como homem de confiança de Temer em diversas ocasiões. Tem atuado em todas as relações comerciais entre Michel Temer e empresários do setor portuário, dissimulando sua existência, natureza e efeitos. Mas atua muito além deste, pois também participa das campanhas eleitorais e políticas de Temer, representando-o nos mais variados setores e resolvendo questões pessoais”, afirma a procuradora-geral.

Segundo Raquel, o ‘Coronel Lima’ atua como ‘longa manus’ de Temer, ‘também em tratativas ilícitas’.

“A relação de Michel Temer com João Baptista Lima Filho iniciou-se em 1982, quando este assumiu a função de assessor militar de Temer na Procuradoria-Geral do Estado de São Paulo, e perdura até hoje”, diz a denúncia.

As informações do Inquérito dos Portos indicam em imagens e geolocalização que em 22 de abril de 2016 ‘Coronel Lima’ esteve no Palácio do Jaburu, residência oficial de Temer.

O empresário Gonçalo Borges Torrealba, do Grupo Libra, declarou. “João Baptista Lima de fato se apresentou como coordenador da campanha de Michel Temer, candidato a deputado federal, o qual solicitou a colaboração do declarante para doação naquelas eleições.”

A procuradora transcreve a explicação de Temer sobre sua ligação com oi militar. “O sr. João Baptista me auxiliou em campanhas eleitorais, mas nunca atuou como arrecadador de recursos.”

COM A PALAVRA, TEMER

O presidente Michel Temer nega irregularidades no caso do Decreto dos Portos e disse que provará sua inocência. “O presidente Temer provará, nos autos judiciais, que não houve nenhuma irregularidade no decreto dos Portos, nem benefício ilícito a nenhuma empresa”, informou a Secretaria de Comunicação Social da Presidência por meio de nota.

COM A PALAVRA, A RODRIMAR

A Rodrimar, por meio de sua assessoria de imprensa, informou que os executivos denunciados pela Procuradoria-Geral da República (PGR) foram afastados da empresa desde o início do ano. “O que permite a máxima isenção e transparência durante o período em que os processos em questão estiverem tramitando na Justiça”, disse a empresa por meio de nota. E completou: “Vale acrescentar ainda que a companhia continua pautando a sua gestão dentro dos mais elevados padrões de governança corporativa”.

COM A PALAVRA, CORONEL LIMA

O advogado Maurício Silva Leite, que defende João Baptista Lima Filho, informou que somente irá se manifestar apos a análise do inteiro teor da denúncia.

Os outros denunciados não foram localizados. O espaço está aberto.

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