Os impactos do PIX para o sistema financeiro brasileiro

Os impactos do PIX para o sistema financeiro brasileiro

Paulo Gomes*

22 de junho de 2020 | 05h00

Paulo Gomes. FOTO: DIVULGAÇÃO

Previsto para entrar em vigor no dia 16 de novembro, o PIX, Sistema de Pagamentos Instantâneos do Banco Central já provoca mudanças no mercado financeiro. O período para as instituições financeiras aderirem ao sistema iniciou efetivamente em junho, mas ainda em maio, uma lista de cerca de 100 empresas que já realizou as adequações e testes necessários foi divulgada – atualmente mais de 900 demonstram interesse na adesão. Estas entidades – bancos tradicionais, cooperativas de crédito e fintechs – estão realizando todas as adequações necessárias para garantir que, a partir de novembro, quando entrar em vigor, o PIX possa ser disponibilizado e utilizado por seus clientes.

Sem dúvidas, o maior impacto que este sistema trará para o mercado financeiro será a digitalização de processos em larga escala. Em poucos segundos, conforme testes já realizados, uma transferência financeira será debitada de um banco ao outro, na conta do beneficiário da transação. E mais: o pagamento instantâneo independe de data ou horário. Seja fim de semana ou madrugada, qualquer transferência ou pagamento de um banco a outro deve ocorrer em tempo real.

Esta será uma grande mudança também na relação do brasileiro com suas finanças, hoje dependente de prazos que mudam de acordo com o dia da realização do processo. A burocracia se torna um entrave para a gestão de um bom fluxo de caixa. Mesmo que na teoria tenha recebido valores que possam fazer a diferença em seu negócio ou rotina de finanças pessoais, ainda depende, atualmente, de grades de horários que podem gerar atrasos e que podem custar juros e multas quando um recebimento já está vinculado ao pagamento de outros compromissos.

A digitalização também deve trazer um novo cenário para o mercado financeiro, especialmente no que diz respeito ao custo das operações de transferências bancárias. Atualmente, além da limitação de horário, transferências entre instituições diferentes custam caro para o bolso do brasileiro. Com o pagamento instantâneo, a expectativa é que haja uma significativa redução de custos, lembrando que já existe estudos do Banco Central e do Conselho Monetário Nacional para normatização da isenção de custos de transferências no ecossistema do PIX, o que pode implicar no aumento do número de brasileiros que passarão a ter acesso a serviços bancários.

Mais do que agilidade nas transações, o PIX deve colocar o sistema financeiro brasileiro em um novo patamar, voltado para a desburocratização e a inclusão de novos usuários no sistema. E, vale lembrar, há um público em potencial que é muito maior do que se imagina: ainda em 2019 uma pesquisa do Instituto Locomotiva destacou que mais de 45 milhões de brasileiros não possuem vínculo com nenhum banco – e grande parte deste número são mulheres de baixa renda. Com um sistema mais ágil, desburocratizado e barato há grandes chances de que haja oportunidades para que a população “sem-banco” se integre ao sistema financeiro e, a partir daí, tenha acesso a tantos outros serviços que podem apoiá-los na construção de uma relação mais saudável e segura em relação aos seus rendimentos.

Por fim, é importante lembrar que o PIX só é obrigatório para instituições com mais de 500 mil contas ativas, mas que isso não impede a inclusão de empresas menores, como as próprias fintechs, ao sistema. Já há, inclusive, instituições com volumes menores de usuários já homologadas porque acreditam que a desburocratização trará ganhos importantes para todos. E mesmo com a integração, seguem preservados os dados dos usuários, que graças à tecnologia terão a garantia de proteção de suas informações dentro do ciclo de entidades homologadas e a certeza de que seu dinheiro não só estará seguro, mas também acessível para poder gerir suas finanças da forma e no tempo que necessitar.

*Paulo Gomes é economista formado pela Universidade Mackenzie e especialista em finanças pela FGV. Foi head de Novos Produtos e Inovação do Banco Rendimento e atualmente é o CEO da fintech PagueVeloz

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