Os impactos da segunda onda da pandemia na economia

Os impactos da segunda onda da pandemia na economia

Luis Otávio Leal*

10 de fevereiro de 2021 | 08h30

Luis Otávio Leal. FOTO: DIVULGAÇÃO

Como não poderia deixar de ser, o colapso do sistema de saúde no Amazonas e o início da vacinação no Brasil estiveram em pauta na primeira reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central do Brasil (BCB) em 2021, realizada em janeiro. Os temas são fundamentais para o entendimento dos possíveis impactos da segunda onda da pandemia. Com o aumento dos números de casos e de óbitos pelo país, cresce a pressão para uma nova rodada de ajuda governamental, o que poderá colocar em risco a solvência fiscal e a recuperação da economia brasileira. Portanto, quanto mais rápido tivermos um programa de vacinação consistente, menor será a chance de que cada evento desses, isoladamente, venha a ocorrer e, conjuntamente, afete a economia.

Uma sequência de novos colapsos na estrutura de atendimento médico em outras cidades importantes do Brasil certamente levaria a um aumento da pressão pela renovação das medidas de auxílio governamentais que vimos durante a primeira onda da pandemia, notadamente o auxílio emergencial. Como estas não cabem dentro do teto dos gastos de modo contínuo, a chance de que este seja flexibilizado aumenta exponencialmente nesse cenário. Portanto, as dúvidas estão na mesa. A segunda onda da pandemia vai gerar um aumento do isolamento social a ponto de afetar a economia brasileira no primeiro trimestre? Vai levar a uma pressão para a extensão das medidas de auxílio do governo, podendo pôr em risco a manutenção do teto dos gastos? E as vacinas, no meio disso tudo? As dúvidas não são exclusividade nossa.

A reunião do Copom manteve os juros em 2,00% a.a., como esperado, igualmente a retirada do forward guidance. Entretanto, de forma geral, o tom do comunicado foi mais conservador do que se esperava, e um dos motivos para isso foi exatamente a dúvida com relação ao cenário futuro da parte fiscal, o que fica claro no trecho em que diz: “Por outro lado, um prolongamento das políticas fiscais de resposta à pandemia que piore a trajetória fiscal do país ou frustrações em relação à continuidade das reformas podem elevar os prêmios de risco. O risco fiscal elevado segue criando uma assimetria altista no balanço de riscos, ou seja, com trajetórias para a inflação acima do projetado no horizonte relevante para a política monetária”.

Além disso, o BCB mostra-se preocupado com o aumento da inflação no curto prazo, apesar de continuar a considerar que os fatores de pressão são pontuais: “o Comitê mantém o diagnóstico de que os choques atuais são temporários, ainda que tenham se revelado mais persistentes do que o esperado. (…) As diversas medidas de inflação subjacente apresentam-se em níveis acima do intervalo compatível com o cumprimento da meta para a inflação”. Do mesmo modo, o impacto econômico da segunda onda da pandemia também entrou no radar: “Prospectivamente, a incerteza sobre o ritmo de crescimento da economia permanece acima da usual, sobretudo para o primeiro trimestre deste ano”.

Colocando tudo isso na balança, a primeira alta de agosto deve ser antecipada para maio e a taxa de fim de ano, de 3,00% a.a. para 3,50% a.a. Em relação ao PIB, a projeção para o crescimento no primeiro trimestre, que antes era de alta de 0,50%, deve se manter estável (0,00%), com viés de baixa, enquanto a previsão anual passa de 4,2% para o crescimento de 3,50%.

Parafraseando o BCB, a incerteza em todas as frentes está acima do usual. Temos dúvidas com relação ao ritmo de contaminação da segunda onda da Covid-19, à capacidade de a rede hospitalar brasileira suportar o aumento das internações, se teremos vacina ou não no curto prazo, se serão necessárias novas medidas de isolamento social, se tudo isso terá impacto sobre a economia, se esses impactos vão demandar novas medidas de auxílios emergenciais e se essas medidas vão respeitar o teto de gastos ou não. Tantas dúvidas que, talvez, o nosso menor problema no curto prazo seja saber se os juros vão começar a subir no primeiro ou no segundo semestre.

*Luis Otávio Leal, economista-chefe do Banco Alfa

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