Os idosos primeiro, o vintém depois

Os idosos primeiro, o vintém depois

Marcelo Reis*

30 de março de 2020 | 12h15

Marcelo Reis. FOTO: DIVULGAÇÃO

Não sou sociólogo, trabalho com comunicação, comportamento humano e consumo, mas dá para perceber que as pessoas venceram. Dobraram o sistema vigente. É a primeira pandemia de solidariedade, compaixão e coletividade da história do planeta digitalizado.

Por livre e espontânea decisão conjunta, após influência de notícias alarmantes internacionais, as pessoas sugeriram e/ou cobraram dos seus e suas líderes, chefes, gestores e CEOs que era hora de todo mundo se recolher e passar o dia e a noite dentro de casa durante algumas semanas.

Não foi o prefeito, não foi o governador, o ministro da Saúde, muito menos presidente. Este, por sinal, tresloucadamente está recomendando o oposto, mas isso não faz a menor diferença, pois a decisão já está tomada pela maioria das pessoas sensatas, sãs, saudáveis e economicamente ativas.

Foi para se salvar? Não. Foi para salvar a minoria mais frágil, os idosos, os doentes crônicos, os mais vulneráveis, que, provavelmente, são os que menos giram o mercado e acumulam riqueza. As pessoas venceram o capital para poderem vencer o coronavírus. Mas não pense que estamos fazendo isso por prazer, diversão ou sadomasoquismo global. Estamos fazendo por respeito, estamos fazendo pelo outro, estamos fazendo porque é o certo.

Sabemos que, no caso do Brasil, uma imensa parcela da população não tem onde se isolar e nem como parar de trabalhar. Mas se a parcela mais abastada e formadora de opinião puder se retirar das ruas, já ajuda bastante a quem é carente, vai precisar de leito no SUS e pode não achar devido à demanda acelerada. Estamos em casa angustiados, trabalhando incessantemente em busca do placebo financeiro para a economia, que será acachapada por essa pausa coletiva, imaginando a paralisia da atividade social e do consumo e os impactos que a retração terá no futuro de cada ser humano de todos os países.

Colapso estrutural, prejuízo, corte de custo, crise, estagnação, demissão e até fome serão fatalmente os frios resultados. Estatisticamente, sabemos que, com raras exceções, trabalhadores dos 16 aos 59 anos não morrerão disso ou esperamos que não.

Diante disso, olhamos pela janela e pensamos: eu posso ir ali, eu poderia estar produzindo, preciso labutar, parece que não é o fim do mundo ou vale colher desemprego amanhã?

Mas a humanidade não se resume a nossa limitação umbilical de avaliar as consequências diretas e instantâneas em nossas vidas financeiras e de nossas empresas, pois pessoas podem falecer se a vida cotidiana voltar a se aglomerar agora.

Não importa a data de nascimento delas: são pessoas. O inimigo é invisível. Magicamente, parece que essa ficha coletiva caiu para todos nós. A pandemia não derruba a camada jovem e ativa da Terra. Derruba quem não pode se defender e é mais sensível.

Economistas, sociólogos renomados, antropólogos, terapeutas, médicos, astrólogos, místicos, religiosos de todo o globo se perguntam: que sociedade vai sair dessa epidemia? Vamos evoluir como humanos? Aprenderemos o que no fim?

Eu acredito que já aprendemos ‒ e na porta de entrada do vírus, não na de saída. Aprendemos no início, quando agimos por instinto sem ter tempo para pragmatizar, estudar, analisar, calcular, testar. E aprendemos no improviso. É no impulso, na urgência, na iminência do caos que o valor real de cada um vem à tona. E veio. Veio o olhar ao mais fraco, mais delicado, mais desprotegido.

Por isso, concluo sem pestanejar que os sexagenários venceram. Os asmáticos venceram. Os transplantados venceram. Os que têm enfisema venceram. Os diabéticos venceram. Aqueles que têm insuficiência respiratória venceram; doença autoimune: venceram; problemas cardíacos: também. Venceram e ditaram as novas regras da sociedade contemporânea cem por cento online e conectada nas mídias e nas redes sociais. Vocês venceram o sistema e os protocolos. Venceram as metas, as ações, a margem de lucro e a queda do dólar.

As pessoas, inconscientemente, se uniram e decidiram que não podiam ficar ali arriscando a vida de quem amam e de quem nem conhecem. Largaram as canetas, compassos, marretas, espátulas, talheres, menos os estetoscópios, e foram para casa. As heroínas e os heróis de branco ficaram nos hospitais, de prontidão, esperando quem precisasse somente respirar.

É, o sistema poderoso, pujante, saudável e cheio de energia vital parou. E quem simbolicamente parou esse sistema foram nossos queridos anciões e anciãs. E, se vamos vencer o vírus impiedoso, não será a colossal ‘recessãozinha” (proporcional à gripezinha), que certamente virá, que irá colocar de cama todos esses vencedores. Os brasileiros, guerreiros, darão um jeito. Até porque não existem sociedade, confiança, consumo, vintém, emprego formal, economia informal, empresas, marcas, investimentos e crescimento sem pessoas em primeiro lugar. #fiqueemcasa, por favor.

*Marcelo Reis, Co-CEO e CCO da Leo Burnett

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