‘Os homens ainda param no meio da rua para fazer xixi, imagina uma mulher fazendo isso’

‘Os homens ainda param no meio da rua para fazer xixi, imagina uma mulher fazendo isso’

Deputada Paulinha, estadual de Santa Catarina, alvo de hostilidades e blasfêmias nas redes desde que tomou posse vestida em um macacão vermelho generosamente decotado, reage e diz que 'sempre que uma deputada tem uma pauta e fala um pouco mais é porque ela é chata, é prolixa ou louca'

Marina Dayrell

07 de fevereiro de 2019 | 05h30

 

Foto: Acervo Pessoal/Reprodução/ Facebook

Assim que tomou posse na Assembleia Legislativa de Santa Catarina, Ana Paula da Silva, a deputada Paulinha (PDT), se viu alvo de uma sucessão de hostilidades e blasfêmias nas redes sociais. Sem tempo de mandato para receber críticas pela atuação na Assembleia Legislativa, o seu primeiro desafio foi enfrentar a ira de internautas com a roupa escolhida para a solenidade, um macacão vermelho decotado.

Quinta deputada mais votada no Estado, com mais de 51 mil votos, Paulinha, de 43 anos, já havia sido eleita prefeita da cidade de Bombinhas, no litoral catarinense, em 2012, cargo que ocupou até o ano passado, após dois mandatos.

Com anos de experiência na vida pública, ela afirma que, apesar de nunca ter sido criticada pela roupa que estava usando no trabalho, a política ainda é um ambiente machista para a mulher.

“A mulher precisa provar todos os dias que ela é competente”, diz Paulinha. “Sempre que uma deputada tem uma pauta e fala um pouco mais é porque ela é chata, é prolixa ou louca. A gente sempre tem um adjetivo para as mulheres políticas. Um senão para pontuar a sua conduta quando ela é guerreira. No meu caso, nesse momento, foi a roupa.”

Mãe de duas filhas, uma de 20 e outra de 18 anos, e defensora das pautas de saúde pública e educação básica, Paulinha afirma que não irá mudar a sua conduta, nem sua vestimenta, após os ataques.

“Agora eu não posso mesmo arredar pé. Como que eu vou ser uma representante digna das mulheres se agora, depois de tudo isso, de tanto apanhar, eu mudar?”.

Reprodução/Facebook

Leia a seguir os principais trechos da entrevista de Paulinha:

ESTADÃO: Qual foi a sua reação com a repercussão do macacão nas redes sociais?

DEPUTADA PAULINHA: Eu fiquei surpresa. Eu não me dei conta do que estava acontecendo até à noite, quando eu cheguei em casa. Em um primeiro momento eu não estava acreditando que aquilo era verdade, que eu estava lendo as coisas que eu lia, eu entrei em pânico. Aquela sensação que se tu pudesse, tu voltava para o útero da tua mãe. Vontade de não olhar ninguém na rua. Mas no dia seguinte eu comecei a receber mensagens de apoio e solidariedade e isso foi me deixando de cabeça erguida novamente. Mas foi assustador e inesperado, eu visto desse jeito, eu não sou uma pessoa maliciosa ou que fica tramando, não é do meu feitio. Eu não sou extravagante, eu sou uma mulher como outra qualquer que é vaidosa, que gosta de se vestir, de se arrumar. Eu venho de uma cidade de praia e a gente é muito tolerante na praia com roupas, com vestimentas.

ESTADÃO: Imaginou que fosse sofrer alguma reação negativa por causa da roupa vermelha?

PAULINHA: Eu escolhi vermelho porque uma amiga disse que é uma cor de proteção, alegre e que combina comigo. Eu gosto do vermelho. Me passou pela cabeça que talvez por ser uma cor muita atribuída a essa coisa do ‘esquerdismo’ aqui dentro do nosso ambiente alguém pudesse comentar, mas jamais em uma proporção nacional como tomou.

ESTADÃO: Em algum momento se arrependeu da escolha da roupa?

PAULINHA: Uma parte de mim diz que eu não usaria a roupa se passasse pela minha cabeça que haveria essa repercussão porque ninguém quer se autoflagelar dessa forma e se ver violentada e agredida. Mas uma outra parte, a da Paulinha mulher, diz que usaria sim porque não é justo conosco. Eu acho que além da violência que é patrocinada a nós mulheres e o julgamento por conta de roupa, existe essa autopunição no dia a dia. O que eu te digo é que eu encontrei em mim, há alguns anos, o empoderamento nesse sentido do vestir. De eu não deixar de usar uma roupa porque alguém vai achar que é própria ou imprópria porque os homens não precisam passar por isso nunca. Eles abrem o guarda roupa e pegam o que querem. Ninguém vai falar da roupa deles de modo ofensivo. Eu penso que a gente não precisa se obrigar a nos impor determinados padrões, até mesmo de roupas, para sermos aceitas. E eu não vivi isso. Eu fui prefeita por seis anos, eu sempre me vesti assim. Esse decote aí não é nada perto do que eu já usei para trabalhar.

Reprodução/Facebook

ESTADÃO: A sra pretende mudar o estilo de se vestir daqui para frente?

PAULINHA: Com certeza não. Agora que eu não posso mesmo arredar o pé. Como eu vou ser uma representante digna das mulheres se agora, depois de tudo isso, de tanto apanhar, eu mudar?. E tanto receber apoio! É importante que se diga que a crítica tem que ser aceita e bem-vinda. A pessoa que vai para a vida pública tem que ter o discernimento que vai ser avaliada e julgada. Isso é palatável. Eu não me importo com as pessoas que disseram que a roupa é inapropriada ou que não usariam. Mas elas não poderiam ter me atacado moralmente, nem me agredido com violência por isso. O cenário de violência veio de muitas mulheres também. Acho que isso me deixou mais constrangida.

ESTADÃO: Ficou com medo das redes sociais depois disso?

PAULINHA: Eu não fiquei com traumas. Toda mulher já se sentiu agredida ou recebeu uma cantada indesejada, mesmo estando com uma roupa mais composta. Muitas coisas que eu achei que eu tivesse curado parece que vieram à tona quando eu vi a repercussão. Mas hoje eu já estou bem de novo, muito por causa da rede de solidariedade. Todo mundo aqui na Assembleia me acolheu de uma forma tão significativa que eu não me permito me sentir coagida pelas redes. Evidentemente vou ter um pouco mais de atenção, mas não vou mudar a minha forma de ser por conta disso.

ESTADÃO: Como foi o apoio recebido na Assembleia Legislativa de Santa Catarina?

PAULINHA: Foi esplêndido. Os olhares e os abraços da equipe da limpeza, dos servidores, dos funcionários de outros gabinetes, dos deputados e das deputadas mais ainda. Todos se colocaram à disposição para fazer uma carta. O presidente da Casa fez questão de vir me visitar no gabinete. Foi muito gentil. Ele disse que a Assembleia não vai patrocinar esses atos misóginos e que eu tenho o direito de me portar como desejar na Casa.

ESTADÃO: Pretende tomar alguma medida jurídica contra quem fez os comentários?

PAULINHA: Sim. Os advogados têm se reunido porque o volume é muito grande. Todos os comentários, ainda que sejam reduzidos a uma opinião mais ácida, eu não vou representar, mas a violência explícita sim. Os adjetivos que foram atribuídos ao meu caráter e tudo mais. Só que dá um trabalhão porque você tem que identificar as pessoas e montar esses processos, mas a nossa equipe está trabalhando nisso. E vamos fazer porque violência não se tolera.

ESTADÃO: Acredita que os ataques estão relacionados a você ser mulher?

PAULINHA: Eu tenho certeza que é machismo e é um machismo que está intrínseco na forma que a gente cria homens e mulheres. Os homens podem tudo e as mulheres não podem nada. A gente vive em uma sociedade na qual os homens ainda param no meio da rua para fazer xixi. Imagina uma mulher fazendo isso. Não existe. A gente tolera tudo para os homens. Tem gente que diz ‘por que você não usou em uma festa? Não foi apropriado porque é o local de trabalho’. Era uma solenidade de posse. Eu não fui trabalhar, é uma solenidade qualquer. Era permitido. O traje que estava no convite de posse era ‘passeio completo’. Eu não transgredi a regra da casa em nenhum momento.

ESTADÃO: Acha que o momento atual do Brasil faz com que as pessoas tenham opiniões retrógradas?

PAULINHA: Sim. Não se trata de esquerda e direita, se trata de um conservadorismo desnecessário que está chegando por intermédio das redes sociais a uma parcela da população e que em nada acrescenta. Estimula a violência contra os diferentes. E não é só contra a mulher, vai contra a pessoa que tem uma orientação sexual diferente, por exemplo. A violência está vindo em uma escala muito generosa. O poder judiciário brasileiro precisa endurecer nas punições. Eu tenho duas filhas, eu tenho uma mãe de 79 anos. Ninguém gosta de ver quem ama ofendido e xingado desse jeito. Eu estou sendo xingada apenas porque eu usei uma roupa que as pessoas não acharam apropriada.

A nossa participação é tão minúscula no ambiente político que muitas mulheres, com o tempo, para serem aceitas, para não criarem polêmica, vão se vestindo cada vez mais tampadas, mais comportadas, de acordo com o que a sociedade espera delas e a gente vai se auto violentando.

Eu acho que o Presidente Jair Bolsonaro tem que ter o apoio de toda a sociedade e de todos os partidos já que ele foi consagrado pelas urnas. Mas o governo, no geral, tem que construir uma habilidade para lidar com pautas sociais, o que ele não tem. Para que ele retome esse respeito com as diferenças e que seja pautado dentro de limites de responsabilidade.

ESTADÃO: Na política, as mulheres precisam ter um desempenho acima da média para se desvencilhar das situações de machismo?

PAULINHA: Não é só na política, mas na política mais. A mulher precisa provar todos os dias que ela é competente. Sempre que uma deputada tem uma pauta e fala um pouco mais é porque ela é chata, é prolixa ou louca. A gente sempre tem um adjetivo para as mulheres políticas. Um senão para pontuar a sua conduta quando ela é guerreira. No meu caso, nesse momento, foi a roupa.

ESTADÃO: O que a senhora tem a dizer para as pessoas que colocaram a sua capacidade como deputada em xeque?

PAULINHA: Que elas tenham a generosidade e a grandeza de esperar um pouco e me dar um tempo para que eu comece o exercício do meu trabalho para que elas possam me julgar por isso. Depois que a gente começa a construir o nosso desempenho profissional essas coisas desaparecem.

ESTADÃO: Qual a sua plataforma política?

PAULINHA: A pauta mais emergente que o Estado precisa absorver é a questão da saúde pública. Hoje, a gente tem mais de 800 mil pessoas aguardando algum tipo de procedimento médico ou cirúrgico no Estado porque uma série de decisões precisam ser tomadas e o Estado não as vem estruturando. Em 2007, a gente viveu um momento de despactuação de alguns serviços nas unidades. A gente tem feito um investimento muito aquém daquele que necessitaria. A lei obriga que os municípios apliquem 15% da sua receita em saúde. Não existe município em Santa Catarina que aplique menos de 22%. A aplicação mínima não pode ser vista como a máxima quando as demandas são tão urgentes.

Na nossa região do vale do Itajaí, se, hoje, uma pessoa tem câncer e ela precisa fazer uma biópsia, para algumas especialidades, por exemplo, não tem referência. Não tem nenhum hospital, nem município, nem órgão do Estado que esteja habilitado para receber aquele tipo de doente.

A Educação também é uma das pautas mais apaixonantes para mim. É nela que a gente vai edificar uma sociedade no futuro distante dessa que está posta. O que a gente oferece hoje nas escolas públicas do País, salvo raras exceções, é um ensino medíocre, desconexo com os novos tempos.

No meu mandato na prefeitura de Bombinhas, a gente construiu a maior escola de educação integral do Brasil financiada com recursos públicos. Vai ser inaugurada no início do ano letivo em março deste ano e será trilíngue. As crianças vão aprender os ensinamentos em três idiomas e ela está totalmente voltada para o desenvolvimento de competências que foram definidas no Fórum de Davos de 2015. Aquele documento é norteador para o futuro e a nossa educação vive alheia a isso tudo. Esse é um modelo que a gente gostaria de ver implementado em outros ambientes.