Os guizos falsos da alegria

Os guizos falsos da alegria

José Renato Nalini*

29 de junho de 2020 | 08h00

José Renato Nalini. FOTO: DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO

Quando a José Saramago se indagava se era pessimista, costumava responder: “Não sou pessimista. O mundo é que anda péssimo!”.

Ele teria razões de confirmar tal sensação estivesse conosco neste 2020 estupefaciente.

É óbvio que o mundo precisa se nutrir de sonho e de esperança. Mas é impossível negar que os motivos que nos levam a encarar os fatos com angústia e tristeza sufocam a tentativa de reduzir a dimensão da desgraça.

O Brasil vinha cambaleando por inúmeras razões. A corrupção entranhada no Estado esfacelou a frágil crença na Democracia Representativa. A economia mergulhara em recessão e o clima geral era de pouca aposta no porvir.

Isso de certa forma explica a busca de um líder que prometia distanciar-se das práticas nefastas da velha política. O entusiasmo se intensificou quando foi escolhido para o Ministério da Justiça o ícone da Lava-Jato. Confesso que nunca recebi a aceitação com o fervor da maioria. Experimentara o gosto amargo de deixar o território blindado da Magistratura e ingressar na areia movediça da política partidária.

Antecipara o final infeliz da aventura. Algo que evidencia o quão fanatizada está uma parcela da população. Revê os critérios de confiança e apoio antes proclamados e com facilidade passa a hostilizar quem deixa o barco do poder.

A pandemia escancarou a fragilidade do esquema. Negacionismo, vinculado ao razoável receio de que a economia pudesse frustrar o projeto de reeleição. Descontrole na coordenação dos esforços para minimizar o efeito nefasto de contaminação aos milhões e mortes aos milhares.

Resulta disso que hoje ainda se registram mais de mil mortes a cada vinte e quatro horas. Escancarou-se a falência do sistema de saúde, justamente nos Estados mais pobres. Acrescente-se o crime de lesa-pátria de incentivar a destruição da Amazônia, do Cerrado, do Pantanal e até da Mata Atlântica, biomas protegidos por uma Constituição que, nesse aspecto, não é para valer.

Manifestações as mais surreais por parte de autoridades. A miséria mostrando sua face terrível. Parece até sarcasmo ordenar “fique em casa” para quem não usufrui do direito à moradia, que é fundamental e tem assento na Carta Cidadã. Ou mandar “lavar as mãos” para cidadãos desprovidos de água.

Então o Brasil não tem salvação?

Temos de acreditar que tem. Não subtraia ao ser humano a possibilidade de sonhar. O sonho é que o país que sobreviver reveja a estrutura de sua Democracia. Que se enxugue o malefício de Brasília, com reforço de um Federalismo viciado, defeituoso e falso. União deve ser uma coordenação de esforços, enxuta e não centralizadora. Mero símbolo, que estaria melhor servida num Parlamentarismo. Desde que este resultasse de um novo pacto político. Eleição distrital, sem fundo eleitoral, sem fundo partidário. Com permissão para candidaturas avulsas, para incentivar os partidos a serem algo que mereça respeito.

Os Estados Unidos podem servir uma vez mais de exemplo. O desastre de uma eleição de alguém despreparado não produziu a tragédia     que os mais lúcidos temiam, por força de duas circunstâncias aqui também presentes. Um Judiciário que impeça os arroubos insensatos de quem se considera detentor de mandato divino e a liderança regional. Não há espaço vazio. O vácuo de consistência federal é preenchido por governadores e por prefeitos que estão mais próximos ao seu povo e tomam as providências que nunca virão do Planalto.

Os brasileiros lúcidos têm o compromisso com a educação integral, não apenas com a escolarização, ainda envolta em paradigmas superados e a acreditar que aulas prelecionais de informações desatualizadas seduzam as gerações impulsionadas pela Quarta Revolução Industrial.

Educação, compromisso de todas as pessoas que devem continuar a ser educadoras e aprendizes ao mesmo tempo. Educar não para obter diplomas, cujas fragilidades evidenciam a desvalia do excessivo formalismo. Educação para o equilíbrio, para o convívio, para a empatia, para intensificar o sentido de pertencimento e a noção inafastável de que somos seres finitos. Nossa missão é tornar o menos miserável esta peregrinação pelo planeta, etapa efêmera e sujeita a tantas vicissitudes, próprias à nossa fragilidade.

Mais juízo, mais sensatez, menos ilusão à sonoridade artificial dos guizos falsos de uma alegria hoje impossível.

*José Renato Nalini, reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2019-2020

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