Os Estados Unidos na mira de sequestradores digitais, um novo mercado

Os Estados Unidos na mira de sequestradores digitais, um novo mercado

Leonardo Freitas*

28 de julho de 2021 | 10h45

Leonardo Freitas. FOTO: DIVULGAÇÃO

Desde a Guerra Fria em 1947 o mundo não teve um minuto de sossego quanto à prática de espionagem em diversos níveis da sociedade. Foram 44 anos de intensa disputa global desde sanções econômicas, formações de blocos econômicos, até a fatídica corrida espacial. Podemos dizer que este foi o marco para que todos ficassem vulneráveis e que, por sua vez, criminosos pudessem se aproveitar deste momento para práticas delituosas. Afinal de contas, monitorar uma pessoa terceira ou um país sem autorização é ilegal?

Ironia do destino, os Estados Unidos eram a nação que liderava a espionagem no mundo antes da chegada da internet. Tal prática era executada pela força aérea americana por meio dos aviões Lockheed SR-71 Blackbird. Foram três décadas de liderança e domínio das informações captadas por estes caças; que coletavam informações por onde sobrevoavam inclusive com velocidades maiores que a de um míssel. A alta velocidade era a chave de sucesso deste tipo de rastreamento, pois com isso não haveria nenhum outro jato que alcançasse estas máquinas para abatê-las.

Eles identificavam com fidelidade computadores secretos em bunkers e ogivas nucleares que ficavam escondidos em territórios inimigos. Essa era a espionagem feita na década de 50. Depois, os EUA criaram a internet e por aí surgiram então os problemas atuais.

Este é um tema infinito que gera discussões éticas sobre até que ponto este tipo de ação é benéfico ou doentio para aqueles que usam deste expediente não tão ortodoxo.

Atualmente, a maior potência mundial vive momentos delicados quanto à segurança das redes digitais em todo o país. Neste mês, o presidente Joe Biden, preocupado com as crescentes ações de invasões de computadores nos Estados Unidos, fez uma ligação ao presidente russo Vladimir Putin para tratar especificamente deste assunto. O fato é que a espionagem ultrapassou os limites da criminalidade, que ironicamente assim podemos dizer. Não basta tão somente espionar um terceiro, mas raptar dados, sequestrar, fazer refém e cobrar resgate tornaram-se praxe.

Uma das ações que provocaram incômodo na Casa Branca foi a mais recente invasão aos computadores da polícia da cidade de Washington DC; praticamente no quintal do novo presidente americano. O apagão em todo sistema foi identificado como sendo da região do Leste Europeu, berço do comunismo que se aperfeiçoou neste tipo de ação criminosa pós-internet. Após uma séria conversa de Biden com o quase eterno Putin, curiosamente os ataques cessaram. Um comportamento que reforçou ainda mais a suspeita de que este tipo de ‘sequestro digital’ pode ter uma motivação política desta região do planeta conjugada com relações mais do que públicas com a China.

Mas, nada disso ainda está provado e teremos que viver, por enquanto, neste universo de especulação que, no meu ponto de vista, tem muito fundamento. Por isso, eu alerto à importância dos governos estarem preparados para este novo momento em que o mundo vive. O problema não está tão somente no vírus da Covid-19, e sim num vírus totalmente invisível que dificilmente é detectável por microscópios e nem mesmo satélites.

Durante a minha vida trabalhando para proteger o governo americano destas questões de segurança, pude ter acesso a uma série de estudos de proteção nacional com alcance internacional. Inclusive em momentos críticos durante a Guerra do Golfo, onde atuei fortemente na inteligência de mapeamento feito por satélites sobre o Iraque. Era preciso cruzar dados de terra, ar e espaço para identificar movimentos em todo território da antiga mesopotâmia.

Passadas poucas décadas, vemos que os ataques digitais se modernizaram, o que faz com que a iniciativa privada se prepare para tempos sombrios. A nossa recomendação é que jamais dependam plenamente das ferramentas governamentais de segurança cibernética, mas que busquem ferozmente meios próprios de proteção. Está aí um excelente mercado para se investir no presente.

Especialistas apontam que os ataques digitais serão a base principal da tão aguardada ‘Terceira Guerra Mundial’ e que o coronavírus serviu apenas para mascarar o avanço e mobilização deste exército paralelo que já tomou bilhões e bilhões dólares de empresas privadas, sequestrando estruturas e dados robustos. A brasileira JBS nos EUA que o diga, mais de 11 milhões de dólares foram pagos pela empresa por um resgate de dados onde os criminosos nunca foram identificados, nem mesmo com o rastreamento do dinheiro do crime.

Hoje, nesta guerra, quem ganha a batalha não é mais o país que tem o poderio econômico e sim aquele que esbanja inteligência. Os ataques como “ransomware” são apenas o começo desta emocionante e triste história, se preparem.

*Leonardo Freitas, CEO da HAYMAN-WOODWARD, consultoria especializada em mobilidade global

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