Os esquecidos da ‘Semana’

Os esquecidos da ‘Semana’

José Renato Nalini*

29 de março de 2022 | 12h00

José Renato Nalini. FOTO: DANIELA RAMIRO/ESTADÃO

Apesar das críticas de Ruy Castro, seguidas por Luiz Augusto Fischer, a Semana de Arte Moderna de 1922 continua a render excelentes textos. Inclusive os de seus detratores. A Academia Paulista de Letras, onde praticamente nasceu o movimento, pois à exceção de Oswald, os demais literatos eram acadêmicos, realizou em fevereiro quatro sessões dedicadas ao evento, com as conferências de Maria Adelaide Amaral, Júlio Medaglia, Denise Mattar e Betty Milan.

Como vaticinava Manuel Bandeira, quando indagado sobre a importância da Semana Paulista, a pergunta deveria ser feita cem anos depois. Exatamente em 2022. E daqui a cem anos? Em 2122? Se ainda houver o planeta, condenado à exaustão e sem recursos para sustentar sua população, com certeza ainda se falará sobre a Semana de Arte Moderna.

Mas o intuito desta conversa é lembrar alguém que foi esquecido por quase todos os comentaristas. Plínio Salgado. Hoje lembrado como o fundador do Integralismo, de infeliz conotação com o fascismo e até com o nazismo, esquecem-se do romancista de “O Estrangeiro”, cujo estilo na biografia de Jesus Cristo foi reconhecido pela crítica literária à época.

Recorro a Menotti Del Picchia, esse dínamo paulista, que em suas memórias narra interessante episódio que envolve Plínio Salgado. De início, um desencontro entre eles. Plínio publicara o livro de versos parnasianos “Tabor”. Ácido, Menotti escreveu o artigo “Tambor”, no “Correio Paulistano”. O autor de “Juca Mulato” confessa a sua ojeriza “pelo moribundo parnasianismo”. Encontrou oportunidade para nova polêmica.

Plínio Salgado, a quem Menotti ainda não conhecia, ficou furioso e respondeu com artigo ácido, publicado em jornais do interior. Os recortes chegaram até Menotti, “enviados por vários atiçadores de brigas ansiosos por botar fogo na fogueira”. Ele não pestanejou e perpetrou uma crônica perfidamente irônica “Jaguapevas do gênio”, que foi bem lida à época e depois ressurgia quando Plínio Salgado se destacou na condição de chefe político do partido criado por seu fascínio carismático e fruto de estremado nacionalismo.

Assim estavam as coisas, até que Menotti, editor do “Correio Paulistano”, quase órgão oficial do PRP – Partido Republicano Paulista, ficou sabendo que Plínio Salgado fora admitido como revisor. Foi até o diretor geral do jornal, Flamínio Ferreira e disse que Plínio tinha muito talento para ser apenas revisor. Deveria ser chamado para trabalhar na redação.

Assim se fez. Menotti chamou Plínio, a quem descreve como “um moço magro e nervoso, com o traço nítido de um bigodinho negro aparado rente no lábio pálido, mas de rebordo muito vermelho”.

Explicou a Plínio a razão de sua fúria contra o “Tabor”. Dou a palavra a Menotti: “Ele, moço tão rico de imaginação e talento, marchava na retaguarda da geração parnasiana em ocaso, recruta retardatário de um fúlgido batalhão que dera ao Brasil Francisca Júlia, Alberto de Oliveira, Emilio de Menezes, Martins Fontes…Por que, longe de ser uma trombeta feral floreando o toque de silêncio para um pelotão literário que entrava em ocaso, não seria estrídulo clarim da alvorada revolucionária que já alinhava, em segredo, as fileiras novas para a batalha da Renovação?”

Plínio Salgado ouvia embevecido. Acordava para uma nova realidade na literatura brasileira. Afinal, aquilo convergia com os seus sonhos de um Brasil grande, poderoso, confiante em seu patrimônio cultural e em sua gente. Apaixonou-se pela tese que logo mais seria defendida no palco e até nas escadarias do Teatro Municipal, apenas dez anos antes inaugurado.

Menotti Del Picchia abriu-se e contou que, “com Mário e Oswald de Andrade, já enriquecido o grupo com outros inconfidentes, preparávamos, em surdina, a batalha da revisão da mentalidade nacional. Desde esse instante, Plínio Salgado foi um dos mais dinâmicos dos meus companheiros, sagrado como um dos maiores tribunos do Brasil. Brilhou na ribalta do Teatro Municipal entre os mais intrépidos combatentes da “Semana de Arte Moderna”.

Cumpre fazer justiça a Plínio Salgado. É sempre perigoso rotular uma pessoa por uma faceta de atuação, que não pode sintetizar toda a existência, luta e obra, que não se resume ao que merece realce. Mas também se mostra adequado e urgente acordar a intelectualidade tupiniquim para uma nova e desafiadora batalha de revisão da mentalidade nacional. Mentalidade que precisa prestigiar a cultura, a educação, a ciência, a natureza. Banir a estupidez, a ignorância, o obscurantismo, o negacionismo e outras pragas que acometeram a alma nacional e que põem em risco a integridade do caráter desta Pátria. Essa causa não merece uma nova Semana?

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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