Os esgotos abertos do Brasil

Os esgotos abertos do Brasil

Fernando Goldsztein*

24 de junho de 2020 | 09h15

Fernando Goldsztein. FOTO: DIVULGAÇÃO

Escrevo  estas linhas para abordar uma chaga que assola o Brasil desde os seus primórdios. Trata-se da falta de saneamento básico. Provavelmente você, assim como eu, desvia o olhar ao passar pelas sub-habitações que cercam, ou melhor, permeiam as cidades brasileiras. Ver crianças brincando no meio do esgoto, nas chamadas valas negras junto à porta das suas casas, é terrível. Mais de 100 milhões de brasileiros, sim 100 milhões, não dispõem sequer de coleta de esgoto nas suas moradias. Mais de 35 milhões não tem água encanada. Inacreditável, não?

Verdade que houve evolução recente em muitas áreas de infraestrutura no país. Ter telefone fixo, há 30 anos, era um investimento e também  sinal de status, tamanha a dificuldade de se obter um. O aporte de capital privado feito na telefonia, no sistema elétrico, nos  aeroportos, entre outros, tem contribuído muito para melhorar a qualidade de vida dos brasileiros nas últimas décadas.

Porém, o saneamento ficou pra trás. Os romanos, já no ano 312 a.c., desenvolveram um sofisticado sistema de saneamento. Já sabiam da importância de afastar os esgotos das pessoas para evitar doenças. Portanto, estamos um tanto atrasados. O Brasil ocupa hoje o 123.º lugar no ranking mundial do saneamento básico  sendo a nona economia no mundo. Uma vergonha!

Crescimento desordenado das cidades, corrupção, falta de recursos, descaso histórico dos governantes  enfim, os motivos são muitos. A dita “universalização” do saneamento não pode mais esperar. A crise do coronavírus escancara ainda mais o problema. Como lavar as mãos se temos 35 milhões de pessoas sem água nas suas casas?

Temos falado muito no coronavírus, mas e a esquistossomose, a febre tifóide, a cólera, a leptospirose e a disenteria? Além, é claro, do agravamento de epidemias como dengue, chikungunha e zika. Estas doenças solapam a vida de dezenas de milhares de pessoas, a maioria crianças, ano após ano. Isso sem falar no meio ambiente, pois a precariedade do sistema de esgoto no Brasil  torna nossos rios e costa marítima cada vez mais poluídos.

A solução deste grave problema passa por vultosos investimentos e, infelizmente, o governo tem muitas outras prioridades na gestão dos escassos recursos públicos.

A criação do marco legal do saneamento, que está em tramitação no Senado Federal através de projeto de lei, tem o condão de criar um importante arcabouço jurídico e de estímulos para que investimentos privados ingressem com força e segurança neste segmento.

Não há mais espaço para dogmas e preconceitos especialmente com a brutal recessão que se avizinha. Criaremos centenas de milhares de empregos diretos, daremos dignidade e qualidade de vida para muitos milhões de brasileiros, reduziremos fortemente os custos da saúde pública (para cada dólar gasto em saneamento, poupa-se quatro  dólares em saúde), melhoraremos o nosso baixíssimo nível da educação com crianças mais saudáveis e  menor absenteísmo nas escolas e, por último mas não menos importante, preservaremos o meio ambiente.

Não podemos mais tapar o sol com a peneira. A retomada da economia e o crescimento pós- pandemia vai passar, obrigatoriamente, por reformas e privatizações. O Brasil precisa avançar!  Precisamos, de uma vez por todas, deixar de ser o eterno país do futuro.

*Fernando Goldsztein, empresário

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