Os elos do operador de Bendine com campanhas em Portugal

Os elos do operador de Bendine com campanhas em Portugal

O publicitário André Gustavo, um dos donos da Arcos Propaganda, que teria recebido R$ 3 milhões de propinas da Odebrecht para ex-presidente da Petrobrás fez campanhas em 2011 e 2015 de Pedro Passos Coelho

Ricardo Brandt e Julia Affonso

09 Agosto 2017 | 05h00

Aldemir Bendine é levado em carro da PF. Foto: Geraldo Bubniak

A Operação Lava Jato aprendeu nas buscas que fez em endereços dos publicitários André Gustavo e Antonio Carlos Vieira da Silva Júnior, donos da Arcos Propaganda, de Recife (PE), documentos relacionados às campanhas feitas em Portugal, em 2011 e 2015, para o primeiro-ministro Pedro Passos Coelho, presidente do PSD (Partido Social Democrata).

André Gustavo e Antonio Carlos são irmãos, filhos do fundador da Arcos, Antonio Carlos Vieira. Os dois foram presos no dia 27 de julho, na 42ª fase da Lava Jato, batizada de Operação Cobra, como supostos intermediários dos R$ 3 milhões de propinas pagos ao ex-presidente da Petrobrás e do Banco do Brasil Aldemir Bendine, pela Odebrecht.

André Gustavo e Bendine tinham passagens para deixar o Brasil rumo a Portugal, quando foram presos pela Polícia Federal.

Relatório da Lava Jato aponta que André Gustavo, que foi o responsável pelas duas campanhas em Portugal, “possui um único registro de empresa unipessoal que constituiu em outubro de 2013, em Lisboa, cujo objeto social é a compra, venda e arrendamento de imóveis”.

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André Gustavo foi marqueteiro do senador Humberto Costa (PT-PE), na campanha a prefeito de Recife, em 2012.

O delator Fernando Reis, ex-presidente da Odebrecht Ambiental, confessou ter sido cobrado por André Gustavo para que ele pagasse propinas para Bendine e detalhou os encontros e conversas realizados em São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília.

“Fontes abertas corroboram os dizeres de Fernando Reis e confirmam a participação de André Gustavo em campanha de Humberto Costa e indicam que ele também foi o marqueteiro responsável por dirigir a campanha política que elegeu Pedro Passos Coelho primeiro ministro de Portugal em 2011, bem como sua campanha de 2015”, afirma o Ministério Público Federal, no pedido de prisão da Operação Cobra.

O ex-presidente da Odebrecht Ambiental afirmou que André Gustavo solicitou “o valor de 1% (R$ 17 milhões) do empréstimo requerido pela Odebrecht Agroindustrial e que, ao fim das contas, acabou por receber somente os R$ 3 milhões, por meio das entregas em espécie”.

“De acordo com Fernando Reis, já neste primeiro encontro, André Gustavo, após dizer que falava em nome do então presidente do Banco do Brasil, Aldemir Bendine, relatou que o Grupo Odebrecht possuía uma agenda com o Banco do Brasil e demonstrou, de fato, conhecer detalhes, pois narrou três processos de crédito que as empresas do grupo tinham junto ao banco: (1) R$ 600 milhões para o Estaleiro Enseada Paraguaçu, (2) € 150 milhões para financiar a aquisição da EGF (processo de privatização em Portugal) e (3) R$ 2,9 bilhões de crédito para a Odebrecht Industrial”, informou a força-tarefa da Lava Jato.

A PF aprendeu ainda nas buscas documento de um escritório de advocacia de Recife e de uma empresa em Portugal que teria ficado responsáveis pela abertura de uma empresa no país para os donos da Arcos.

No documento da polícia foi registrado que não se identificou se de fato elas constituíram a firma em Portugal.

Na delação, Fernando Reis cita que o publicitário falou de seu trabalho em Portugal, no último encontro que tiveram, no dia 3 de março de 2016, no restaurante do Hotel Manhattan Plaza, em Brasília.

“Na ocasião, André Gustavo teria dito que passou um período fora do Brasil cuidando de campanha política em Portugal e que havia passado o carnaval com Aldemir Bendine em Porto de Galinhas-PE, ele em sua casa particular e Bendine no Hotel Nannai.”

André Gustavo atuou na campanha petista de João Paulo Lima e Silva, à Prefeitura de Recife, em 2000.

Durante o governo Luiz Inácio Lula da Silva, a Arcos conquistou importantes contratos como o da Infraero, Furnas e do BNDES. O ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares foi seu padrinho de casamento.

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Além da Arcos, os irmãos são donos da MP Marketing, Planejamento Institucional e Sistema de Informação, empresa que foi usada para emitir notas para tentar regularizar os recebimentos de R$ 3 milhões para Bendine.

O juiz federal Sérgio Moro, da Lava Jato em Curitiba, determinou o bloqueio de até R$ 3 milhões de contas e aplicações de Aldemir Bendine, André Gustavo e de Antônio Carlos Vieira da Silva Júnior. A medida vale ainda para contas da . Ele negou bloqueio das contas de outras empresas, como ZB Empreendimentos e Arcos Propaganda, até que sejam descobertas provas que elas foram usadas para movimentar propina.

JBS. O nome do publicitário, que já havia sido alvo da Operação Xepa, 26ª fase da Lava Jato, que desmontou o departamento da propina da Odebrecht, foi citado em maio das delações dos donos da JBS.

Ricardo Saud, o lobista dos irmãos Joesley e Wesley Batista, donos do Grupo J&F, em Brasília, afirmou que na campanha de 2014 usou André Gustavo e a Arcos para repassar dinheiro de caixa 2 para políticos de Pernambuco.

Entre os beneficiários, ele citou o ministro das Cidades, Bruno Araújo (PSDB-PE) – que disputou naquele ano ao cargo de deputado federal -, ao governador de Pernambuco, Paulo Câmara (PSB), e ao senador Fernando Bezerra Coelho (PSB-PE).

 

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