Os efeitos em cascata da pandemia dificultam o diagnóstico precoce de outras doenças na população brasileira

Os efeitos em cascata da pandemia dificultam o diagnóstico precoce de outras doenças na população brasileira

Geraldo Faria*

09 de junho de 2021 | 13h00

Geraldo Faria. FOTO: DIVULGAÇÃO

Vivemos um dos piores momentos da saúde no Brasil. Além da crise do covid-19, com seus inúmeros desdobramentos sociais, econômicos e políticos, a diminuição na identificação de possíveis e novos casos de pacientes diagnosticados com tumores de próstata, rim e bexiga, vem preocupando a comunidade médica urológica. Viramos o epicentro da pandemia com o colapso do sistema público e privado e, consequentes, respingam reflexos na saúde como um todo. Levantamento estatístico realizado pela Sociedade Brasileira de Urologia de São Paulo, no início desse ano, em parceria com instituições de saúde com atuação no Estado de São Paulo, responsáveis pelo atendimento de pacientes do SUS – Sistema Único de Saúde, mostraram que a pandemia gerou uma redução média, e grave, de 26% no número de novos casos, englobando os tumores de rim, próstata e bexiga.

Os dados compararam a identificação de novos casos de câncer gênito-urinário nos anos de 2019 e 2020. As informações foram fornecidas pelo Hospital Amaral de Carvalho, de Jaú, Instituto do Câncer da Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto, Hospital AC Camargo Câncer Center, de São Paulo, Hospital das Clínicas da UNICAMP, de Campinas e Hospital São Paulo da Escola Paulista de Medicina – UNIFESP, de São Paulo.

O Hospital das Clínicas da UNICAMP, por exemplo, observou uma queda de 52% no diagnóstico de novos casos de câncer de bexiga e 63%nos de rim. Já o Hospital AC Camargo Câncer Center, a redução foi de 24% para os tumores da bexiga e 29% para os de rim. Os dados para o câncer de rim do Hospital São Paulo – UNIFESP, mostraram redução de novos casos de 35%– 40 casos em 2019, contra 26 casos em 2020.

Na análise dos diagnósticos de novos casos de câncer de próstata, – tumor urológico de maior prevalência na população masculina, perdendo somente para o câncer de pele não melanoma e sendo a segunda maior causa de óbito no homem -, a redução média entre todas as instituições foi de 33%. Em duas instituições a queda do diagnóstico foi expressiva. O Hospital AC Camargo Câncer Center apresentou redução de 48% e o Hospital das Clínicas da UNICAMP de 61%. Em números absolutos, o Hospital São Paulo – UNIFESP diagnosticou 57 novos casos de câncer de próstata em 2020, contra 76 em 2019. Já o Hospital das Clínicas da Unicamp atendeu 67 novos casos em 2020, contra 172 diagnosticados em 2019.

O INCA – Instituto Nacional do Câncer estimou que haveriam cerca de 13.650 novos casos de câncer de próstata em 2020 para o Estado de São Paulo. Utilizando-se a redução média observada nas instituições pesquisadas (33,41%) podemos inferir que, no primeiro ano da pandemia, deixaram de ser realizados em nosso Estado, aproximadamente 4.560 diagnósticos de novos casos desta neoplasia maligna. Isso é muito preocupante, visto que o diagnóstico precoce do câncer de próstata é fundamental para um melhor prognóstico da doença.

A redução na oferta de atendimento nas unidades de saúde, associada ao medo das pessoas em se exporem em locais potencialmente contaminados pelo vírus, promoveu uma drástica redução na identificação de pacientes com doenças oncológicas. Outros fatores contribuíram para essa falta de diagnóstico, como hospitais que tiveram que reduzir o atendimento pela necessidade de dedicar áreas e profissionais para o atendimento de pacientes acometidos pelo Covid, e pela diminuição da mão de obra especializada como médicos acima de 60 anos que receberam a orientação de se afastarem da atenção direta aos pacientes.

O rastreamento sistemático e o diagnóstico precoce dos cânceres urológicos são fundamentais, pois o quanto antes o tumor for identificado e tratado, melhor será o resultado e a possibilidade de cura. Os dados estatísticos levantados pela pesquisa nos deixam preocupados com o retardamento na identificação dos tumores malignos no último ano. Se em 2020 não tivéssemos tido a pandemia, teríamos que ter o mesmo número de diagnósticos ou mais do que tivemos em 2019, e o que justamente aconteceu foi uma redução.

A recomendação da comunidade científica é que os pacientes não deixem de fazer suas consultas de rotina e, quando estão em tratamento não abandonem a terapia. Esse alerta serve para autoridades, governo e população em geral. Enquanto isso vamos apagando o incêndio e torcendo por dias melhores nesse mar ainda repleto de incertezas.

*Geraldo Faria, é presidente da Sociedade Brasileira de Urologia de São Paulo. Membro Titular da Sociedade Brasileira de Urologia, Membro Internacional da AUA – American Urological Association e da EAU – European Association of Urology

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