Os economistas sobreviverão a mais uma crise?

Os economistas sobreviverão a mais uma crise?

Daniel Schnaider*

03 de julho de 2020 | 05h10

Daniel Schnaider. Foto: Divulgação

Economia não é algo simples. A verdade é que, com o tempo, ela vem se complicando ainda mais. Ironicamente, grandes empresas usam, muitas vezes, físicos na criação de modelos para previsões econômicas, e não economistas. Essas empresas entendem que a dificuldade que enfrentam os estudantes de Física, como também o nível avançado de matemática exigido para sobreviver ao bacharelado, mestrado ou doutorado, são mais próximos da realidade do que as ferramentas disponíveis para os economistas por formação.

No entanto, existe uma grande e significativa diferença entre Economia e Física que apenas pode ser desconfigurada em filmes, como exemplo no clássico De Volta para o Futuro, quando o personagem Marty McFly volta 30 anos no passado, à procura do Dr. Emmet Brown, criador do carro que viaja no tempo. O protagonista precisava da ajuda do cientista para consertar a máquina e, assim, voltar para o ‘futuro’. Acontece que, antes mesmo da viagem no tempo, o Dr. Brown tinha sido assassinado. Ao voltar para o passado, o jovem queria contar-lhe o que iria acontecer, mas ele não aceitou ouvir, pois isso poderia mudar tudo.

Esse conceito é conhecido em ficção como o Butterfly Effect. Na teoria do caos, o efeito borboleta, conforme definido por seu criador Edward Norton Lorenz, é a dependência sensível às condições iniciais, em que uma pequena mudança em um estado de um sistema não-linear determinista pode resultar em grandes diferenças de um estado mais tarde.

Eu sei, o último parágrafo foi complicado, eu sei. Mas calma, não precisa desistir de ler! O que basicamente eu quis dizer é que as leis de Física não mudam simplesmente porque as pessoas tomam conhecimento dela. Já em Economia é o contrário. Quando um modelo econômico é desenvolvido, e certos players do mercado acreditam nele, tudo muda. Inclusive, se ele inicialmente era incorreto, pode virar correto, e vice-versa. Trata-se de um enorme contraste, por exemplo, à lei da gravidade, que não sofreu mudanças desde que Isaac Netwon a conceituou no século XVII.

O grande Albert Einstein mencionava há um século as ondas gravitacionais, que se confirmaram como existentes, abrindo a janela do tempo ao evento cosmológico que aconteceu em nosso universo há bilhões de anos atrás. Mas na Economia, não queremos olhar para trás para compreender os fenômenos, e sim para a frente, o que se revela uma missão bem complexa.

Os eventos que vão definir o PIB, a inflação, o desemprego no futuro ainda estão para acontecer. Outros, já estão bastante vívidos. No entanto, podemos apenas estimar a probabilidade de certos eventos e quais seriam seus impactos em outras variáveis. Porém, existe a possibilidade de que eles não aconteçam, ou pelo menos que não se apresentem com toda a magnitude prevista. Podem ser centenas de variáveis interligadas, cada uma como sua gama de possibilidades e probabilidades. Para agravar o cenário, diferentes eventos puxam os indicadores em direções opostas. Então, fica a pergunta sobre quem irá puxar mais forte.

E como se não bastasse, existe na Economia os tais efeitos paradoxais. Por exemplo, a laffer curve, onde ao aumentar a carga tributária, existe a chance de queda na arrecadação. Da mesma forma, há cientistas prevendo que o aquecimento global irá congelar o mundo. Claro que existem explicações para cada um desses paradoxos, mas o ponto de equilíbrio, ou o tipping point, em que o aumento da carga tributária deixa de exercer sua função do aumento de arrecadação para a redução do mesmo, não é nada óbvio de definir.

Muitas vezes, lendas da Economia como Adam Smith são mal interpretados ou propositalmente mal interpretados por razões políticas (quem quiser se aprofundar, recomendo a leitura do link). Outras vezes não lemos, entendemos ou consideramos as premissas do estudo (link). Modelos científicos que falam em separar variáveis e realizar testes empíricos não têm como ser realizados porque o contexto da Economia é a linha do tempo. Isso significa que um evento, naquelas específicas circunstâncias, pode ser que nunca aconteça novamente, afinal, o tempo já passou. Comparando com um conceito físico como a luz, por exemplo, olhem só a diferença: ela tem a mesma velocidade agora, em um segundo, ou um ano atrás.

A Economia é uma ciência que, como as outras, tem um processo de auto ajuste. Quando a maior parte dos economistas presumia que o ‘homem é um ser racional’, vieram os pioneiros da Economia Comportamental (como Daniel Khaneman, Richard Thaler e outros) que comprovaram o contrário, abrindo um novo horizonte para a nova geração de estudiosos.

Ainda assim, parece que, por definição, a crítica inerente a economistas e seus trabalhos sempre existiram, independente do que venha acontecer. Lembrem-se de Michael Burry (recomendo o filme A Grande Aposta, de 2015), fundador da Scion Capital, entre os primeiros (se não o primeiro) hedge funds a reconhecer a severidade da crise econômica que iria acontecer em 2008. Ele se posicionou contra o mercado financeiro americano e, como outros, foi mais tarde criticado, como se fosse um dos culpados por criar a crise. Causa e efeito sempre será algo muito difícil na economia, como a resposta do que veio antes: o ovo ou a galinha?

Mas acredito que as críticas são como olhar a metade vazia do copo. Enquanto países, estados, grupos (sociedade, empresas, família etc) e indivíduos tiverem a necessidade de entender a melhor forma de como devem utilizar recursos escassos e distribuí-los entre as pessoas, a Economia será uma ciência fundamental e necessária.

*Daniel Schnaider é CEO da Pointer Brasil

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