Os dias pedem coragem

Os dias pedem coragem

José Renato Nalini*

12 de março de 2021 | 12h00

José Renato Nalini. FOTO: DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO

O desvario é tamanho, que tudo parece um pesadelo. Só que ele continua e nós não acordamos. Quando boa parte da humanidade parece ter perdido o juízo, o que resta aos racionais?

Coragem para resistir. E para tentar sobreviver à catástrofe. É preciso reagir com engenhosidade, criatividade e inovação. Não necessariamente para intensificar os negócios, embora eles também mereçam consideração. Eles permitem a sobrevivência de milhões. E são muitos milhões os que estão passando necessidade pela incúria, despreparo, descalabro ou firme determinação de conduzir o país rumo ao caos. Escolha uma das alternativas.

Mas engenhosidade no ritmo a se conferir à própria existência. Fui privado de uma série de possibilidades? Engenho e arte para encontrar outras. Que tal aquilo que eu queria um dia e que não tive oportunidade de enfrentar. Agora tenho todo o tempo do mundo. Por que não?

Criatividade para encontrar motivos para perseverar. Bolar mensagens que contradigam a crueldade veiculada pelas redes sociais, que deram a voz à massa idiota que ficava falando no balcão do botequim e agora ganhou espaço mundial. Era o que Umberto Eco temia: as redes sociais permitem que a boçalidade ganhe universalidade.

Ainda existe gente de bom gosto e gente polida neste pobre país. Essa gente é que tem de modular o tom das mensagens toscas, medíocres, pobres e sem originalidade que nos aborrecem a cada segundo.

Inovar. Já que todos marcham rumo à insensatez, que tal aceitar o desvio do bom senso? Semear serenidade, quando os tresloucados pregam a crítica maldosa, o humor chulo, as distorções e as tolices.

É hora de ser audacioso e ousado. Os medrosos permaneceram estáticos enquanto o mundo prosseguia e os destemidos à sua frente. Por que o destemor tem de ser qualidade exclusiva do parvo e do tosco? Os bons também têm o dom da fortaleza. É nos momentos plúmbeos que ela deve funcionar.

O mundo só avançou quando surgiram novas ideias. Ter ideias, não é difícil. É só abrir as janelas do sonho. Em regra, elas estão cerradas para o desiludido. Mas aquele que consegue conservar a criança que um dia foi, nos recônditos da memória, será o adulto capaz de recobrar os sonhos.

A nova ideia é às vezes desacreditada, outra vez prestigiada. Mas uma ideia como ideia, enquanto não sai da fase de cogitação, é insuscetível de mudar qualquer realidade. O mais importante é o que se pode fazer com uma boa ideia.

Joey Reiman, CEO da Brighthouse, disse – e com razão – que “para ser criativo, você precisa ser corajoso. A criatividade é o destino, a coragem é a viagem”.

Inovar no nosso comportamento pessoal. Interessar-se pelas pessoas. Sejam elas quem forem. O que você pensa a respeito dos quase duzentos e setenta mil brasileiros mortos pela Covid? Alguém próximo a você perdeu a vida pela incúria, negacionismo, incompetência, ignorância?

O que a cidadania deveria fazer num momento desses. Vive-se uma democracia ou não? Por que a Constituição é chamada “Cidadã”? Qual o efeito concreto desse bastismo?

Inovar no relacionamento com o Estado. O que é o Estado, senão instrumento para ajudar a humanidade a suportar as vicissitudes normais que acometem esta frágil e efêmera criatura chamada ser humano? O Estado não é patrão, mas servo. Na verdade, um verdadeiro escravo do cidadão, o único titular do duplo direito/dever de votar e ser votado.

Quem exerce função pública está a serviço do povo. E se não estiver, tem de deixar o lugar para quem venha com espírito de subordinação à vontade da maioria e à consecução do bem comum.

Por que admitir a permanência de anacronismos como fazer “prova de vida” mediante comparecimento físico até uma repartição? Se as tecnologias nos permitem transferir dinheiro, fazer compras, assistir e dar aulas, participar de encontros virtuais com fidelidade e precisão, por que insistir numa burocracia completamente inadmissível no século 21?

E assim, tantas outras coisas poderiam ser revistas e merecer saudável inovação. Examinar tudo aquilo que nos parece inadequado e desatualizado e exigir modificação, mediante a oferta de boas receitas, que podem advir de um trabalho verdadeiramente artístico de quem analisa ideias diferentes, consegue mesclá-las de modo que pareçam algo diferente e mais eficaz. Como salientou Matthew Kissner, ex-presidente de soluções empresariais globais da Pitney Bowes, “nada de linhas retas; nada de pensamento linear”.

O que é fácil em nossos tempos de zigue-zague, falei mas não falei, disse e não disse. A fuga à responsabilidade facilita os responsáveis a que encontrem respostas consistentes, sólidas e que podem mudar o convívio, se a cidadania vier a se convencer disso. Mas para isso, é preciso coragem. Os dias pedem, exigem, clamam por coragem. Vamos continuar a ser covardes?

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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