Os desafios para o setor de saúde

*Bernardo Sebastião e Kai Grass

27 Dezembro 2017 | 08h02

Os sistemas de saúde vão enfrentar transformações importantes em todo o mundo até o fim desta década, mudando drasticamente o seu perfil. Os gastos públicos crescem anualmente – em alguns países representam 15% do PIB –, ao mesmo tempo em que a dívida pública alcança níveis críticos.

Esse cenário provocará um aumento por soluções competitivas e de menor custo tanto por países emergentes quanto pelas nações desenvolvidas.

O Brasil não foge a essa realidade. Os gastos com saúde cresceram mais de 13% entre 2010 e 2015 e representam 10% do PIB. Parte desse aumento se deve à evolução do custo médico.

Segundo dados da ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar), entre 2012 e 2015, ele passou de R$ 1.651 para R$ 2.410, puxado principalmente pela inflação e pelo aumento da frequência.

A análise desses dados indica que procedimentos como internação, consultas e realização de exames tiveram peso semelhante na evolução do indicador.

Como o País tem uma infraestrutura que está longe de se assemelhar à de países desenvolvidos, atender a essa crescente demanda da população é uma grande oportunidade para o setor empresarial.

O Brasil é um dos maiores sistemas privados de saúde do mundo e dos R$ 500 bilhões gastos com saúde em 2013, R$ 260 bilhões vieram de despesas particulares, tanto não reembolsáveis quanto de planos de saúde.

Para competir nesse mercado, os players do setor devem se concentrar em três aspectos: aumentar o acesso da população aos tratamentos, entender a preocupação com saúde nas classes média e alta e atender à demanda por mais qualidade nos serviços. Essas tendências virão acompanhadas por uma forte pressão de custos.

Uma das primeiras medidas a serem tomadas em busca de aumento de eficiência é a implementação de um atendimento primário para selecionar a demanda dos pacientes, evitando procedimentos desnecessários.

Entre 2008 e 2011, a proporção de consultas emergenciais cresceu de 65% para 78%. Enquanto isso, a quantidade de internações a partir desse atendimento decresceu 3%. É um forte indicativo de que algumas práticas de saúde no Brasil precisam ser revistas.

Também é preciso implementar modelos que configurem uma relação entre resultado e pagamento.

Nos Estados Unidos e Europa, por exemplo, sistemas como o Diagnosis Related Groups (DRGs) criam um patamar de custos comparáveis para cada evento, garantindo o controle de custo dentro do limite estabelecido.

No Brasil, o uso de protocolos conhecidos já é o primeiro passo nesse sentido. Ao estabelecer preços determinados para alguns procedimentos, como parto cesáreo ou tratamento de cálculo renal, os prestadores reduzem a variação no custo e podem melhorar sua gestão e eficiência.

Num mundo cada vez mais digital, a tecnologia se firmará também como uma aliada, viabilizando a redução das distâncias e dos custos de atendimento. Pacientes que antes tinham de se deslocar a grandes centros para serem atendidos agora são diagnosticados remotamente. Já os especialistas conseguem aumentar os seus níveis de produtividade.

Outro aspecto primordial é oferecer um serviço de qualidade. De acordo com uma pesquisa da Bain & Company, realizada em parceria com a Associação Nacional de Hospitais Privados (Anahp), em 18 desses estabelecimentos o bom atendimento é o principal quesito valorizado pelos clientes. Investir nele vale a pena.

Ao comparar ‘promotores’ e ‘detratores’, o estudo identifica que o primeiro grupo está 200% mais disposto a voltar ao hospital de sua preferência, mesmo que precise gastar o dobro de tempo para isso.

Ao lado da busca da excelência no atendimento, os prestadores devem ter em igual nível de prioridade a eficiência operacional. Medidas como fechamento de unidades, formação de centros de excelência especializados, monitoramento de processos e rotina dos pacientes nas instituições devem ser aplicadas como forma de reduzir a necessidade de investimentos.

Os planos de saúde já começaram a fazer essa lição: para lidar com as pressões de custo dos benefícios, buscam formas de reduzir gastos por meio de programas e iniciativas, como compras conjuntas de insumos de alto custo, maior gestão de doentes crônicos, foco em prevenção e programas de segunda opinião.

Para ajudar a controlar custos, uma tendência de atendimento que deve aumentar nos próximos anos é o home care, responsável por movimentar R$ 3 bilhões em 2014, com 310 mil pacientes em internação domiciliar e outros 630 mil assistidos em casa com consultas médicas.

Ainda assim, a solução mais completa, que garanta um atendimento eficiente aos pacientes sem prejudicar a rentabilidade dos agentes privados, é a medicina preventiva.

Ao proporcionar serviços integrados que vão além do episódio agudo, os prestadores e planos podem aumentar o portfólio de serviços oferecidos em unidades com infraestrutura mais simples, a fim de rentabilizar o investimento.

No longo prazo, apenas os modelos de negócio transformadores serão capazes de capitalizar as novas ondas de crescimento da indústria de saúde e, ao mesmo tempo, garantir a sustentabilidade em custos. O futuro do setor certamente passará por uma maior colaboração entre governo, prestadores de serviços e pacientes.

*Bernardo Sebastião e Kai Grass são, respectivamente, Sócio e Principal da consultoria Bain & Company