Os desafios de um 2021 viável

Os desafios de um 2021 viável

Wesley Vaz*

01 de janeiro de 2021 | 05h30

Wesley Vaz. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

Além de ansiosos, a pandemia nos deixou com pressa. O relevante é agora, o futuro é hoje e as promessas, mesmo as que possuem prazo, irritam facilmente. O medo e a ansiedade ressignificaram o senso de urgência, de sobrevivência e de felicidade. Por causa da pandemia, o século XXI vai ter que lidar com uma nova lista de desejos da humanidade.

Mesmo antes da pandemia, já era possível observar os efeitos negativos de vida em ambientes com excesso de informação, onde o medo de “estar por fora” é algo relevante. Nessa realidade, a saúde e o poder se concentram naqueles que conseguem consumir a melhor informação possível, a mais confiável e relevante para os seus interesses.

Com a Covid-19, e o mundo se deparou com um excesso de problemas para além dos que já existiam. O poder e a saúde agora estarão com aqueles que tiverem a capacidade de resolver rápido aquilo que é o mais urgente, importante e a causa dos demais. Poucos momentos da história são mais didáticos do que este para exemplificar “prioridade” em nível global.

Como disse o ganhador do prêmio Nobel de Economia Robert Shiller, a pandemia gerou uma crise econômica global inédita, diferente da crise de confiança dos mercados ocorrida em 1929. A razão: a de hoje é real, com impactos no mundo físico e na existência das pessoas. “We have to fight this virus. If there’s any kind of fiscal policy that should be entertained, it should focus first on what we can do to hit this epidemic.”

Práticas de gestão e o uso da tecnologia combinadas com agilidade e senso de urgência continuam sendo fundamentos para a solução de problemas complexos e críticos. Essa tem sido receita da sobrevivência das organizações que estão conseguindo e para as que pretendem seguir ativas no cenário pós pandemia. Não há melhor momento para tornar concretos os efeitos da transformação – digital, estratégica, de mentalidade ou qualquer outra – que possam endereçar os problemas estruturais gerados ou expostos pela pandemia.

Problemas que se refletem em números impressionantes. O pagamento de auxílio emergencial superou a arrecadação em 79% dos municípios brasileiros, que tiveram sua economia impactada com recursos oriundos de um orçamento excepcional. Somente em nível federal, foram R$ 300 bilhões distribuídos a 68 milhões de brasileiros, que ao que tudo indica se interrompem em 2021. Os alunos da rede pública perderam um ano na prática, e nem a inclusão digital, se fosse um problema resolvido, seria suficiente para minimizar de maneira relevante a educação remota eficaz em 2020. A economia segue em queda, o desemprego aponta para níveis alarmantes e o aumento déficit fiscal é a alternativa viável para o Estado lidar com a guerra.

Três faces ilustram bem a complexidade de 2020 para além da saúde. De um lado, a necessária manutenção de uma rede de proteção social para os milhões de brasileiros que de fato necessitam. Do outro, o obrigatório [re]posicionamento do país e dos ambientes de negócios na economia global alterada. E no centro, a urgente imunização massiva da população para que a retomada seja a mais rápida e segura possível.

Para os três desafios as soluções serão inéditas, e exigirão estratégias baseadas na adaptabilidade aos cenários de mudança e não na estabilidade de instituições com pensamentos “tradicionais”. Será fundamental aumentar a capacidade do Estado em lidar com o desconhecido, de resolver problemas sistêmicos e complexos com o uso intensivo de gestão e tecnologia e, com a mesma energia, promover a transparência e o respeito aos direitos individuais e coletivos.

O conceito do que será relevante e útil para após 2020 deverá ser outro. A urgência sanitária e a crise global exigiram decisões rápidas de quem pudesse mudar a vida das pessoas. A capacidade de resolver de maneira ágil problemas com impacto direto na vida das pessoas deverá passar a ser mais valorizada e exigida, para além dos planos e as intenções. Pois a crise também mostrou que é necessário fazer o impensável mesmo quando o impensável está ocorrendo.

Infelizmente, os piores e mais difíceis anos tendem a ser os inesquecíveis. Talvez como mecanismo genético de preparação da humanidade para futuros mais complicados. O ano da praga de 2020 gerou sequelas e cicatrizes, entre elas sociedades que se dividiram entre certezas absolutas e críticas enérgicas. E vice-versa, a depender do ângulo.

A partir do convívio maduro com a nova realidade que a Covid-19 já nos impõe, que possamos sofrer menos no futuro com os traumas de 2021, o primeiro ano do novo século.

*Wesley Vaz, secretário de Gestão de Informações para o Controle Externo do TCU, profissional certificado em estratégia e inovação pelo MIT e mestre em Ciência da Computação pela Unicamp. Coautor do livro A descomplicada contratação de TI na administração pública

As opiniões contidas no texto são pessoais e não expressam o posicionamento institucional do Tribunal de Contas da União

Tudo o que sabemos sobre:

Artigo

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.