Os desafios da sustentabilidade emocional no ambiente de trabalho

Os desafios da sustentabilidade emocional no ambiente de trabalho

Eduardo Tancredi*

02 de fevereiro de 2021 | 15h25

Eduardo Tancredi. FOTO: DIVULGAÇÃO

Crescer, ter sucesso, reconhecimento, elogios e admiração. Consumir, sustentar, garantir e cuidar. Em um mundo globalizado, em rápida e permanente transformação, a competitividade está sempre ameaçada. Para “sobreviver” é preciso aproveitar ao máximo as nossas capacidades cognitivas e materiais. É preciso começar a treinar na infância. Escola, aula de inglês, natação, reforço de matemática e, claro, poucas horas de sono. Provas, exames, vestibulares, faculdade, pós-graduação, MBA e, finalmente, o mercado de trabalho. Não pode haver decepção ou fracasso, muito menos é permitido desistir. Disponibilidade total, horas-extras, reuniões, conversas com o chefe no final de semana. Em um mundo 24x7x365 (24 horas, 7 dias por semana, 365 dias por ano), se não for eu, será o outro. E a vida é feita de comparações: a roupa, a casa, o carro, as redes sociais – seus “likes” e os elogios do seu chefe. Aceitamos as cobranças indevidas, as mudanças impostas, os acordos revistos e as injustiças. Relevamos todas as incongruências e, por que não, até alguma imoralidade? Afinal, se não formos nós serão os outros. Deixamos de dormir, nos alimentamos mal, não convivemos mais com a família e com os amigos e muitas vezes esquecemos de nossos propósitos. O final da história é difícil de prever. Muitos se dirão satisfeitos, mas é certo que uma grande parte vai entrar na “queima-total”, na “liquidação”, esgotamento ou, mais conhecida atualmente como a Síndrome de Burnout.

Resultado do fracasso em manejar o estresse crônico no ambiente de trabalho. Não é um problema de causa única, é um problema na relação que o trabalhador estabelece com sua atividade e ambiente profissional. Depende de um ecossistema: o ambiente “favorável” e o profissional susceptível. Não surpreende que esta síndrome tenha sido descrita inicialmente em profissionais de saúde e professores. Treinados para darem conta de tudo, esses profissionais precisam lidar continuamente com o sentimento de impotência e frustração diante dos recursos limitados, jornadas de trabalho extenuantes, privação de sono e chefes seres humanos, como eles. Trabalhadores dedicados que não deixam os problemas após baterem o ponto. Levam-nos para casa, para o jantar, para a cama… Até que chega o momento em que a conta não fecha mais, cai a chave geral, o “sistema” entra em colapso: falta de energia, fadiga/exaustão, distanciamento afetivo e sentimentos negativos em relação ao seu trabalho, temperados com a sensação de ineficácia e falta de realização.

Descrita pelo psicanalista novaiorquino Freudenberger, que percebeu o quadro nele mesmo, no início dos anos 1970, a Síndrome de Burnout já esteva ocorrendo nas empresas e entre os trabalhadores há tempos, mas somente na última revisão da Classificação Internacional de Doenças (CID 11) recebeu um código (QD 85) dentro do grupo de problemas associados ao emprego ou ao desemprego. Em contraste, 8.324 artigos científicos sobre o tema escritos nos últimos 10 anos estão disponíveis na base de dados Pubmed – quase a totalidade deles relacionando a síndrome a trabalhadores da saúde. Só nestes últimos 12 meses de pandemia, 257 artigos relacionando Burnout e Covid-19 já foram publicados. Não causará surpresa o aumento de artigos científicos descrevendo a síndrome com as novas relações de trabalho pós-covid. Somente o home-office (o próprio nome reconhece a frágil limitação entre o trabalho e o lar) e, a já tão falada Zoom Fatigue, uma síndrome relacionada ao “ruído” na comunicação profissional através da internet, já serviram de tema para vários artigos.

Afinal, onde entra a sustentabilidade nesta história? Uma adaptação simples da definição de sustentabilidade – mais familiar no contexto ambiental – é: o uso de nossos recursos para a satisfação de necessidades presentes não pode comprometer a satisfação de necessidades futuras. A sociedade não pode deixar as relações de trabalho chegarem no ponto da “queima-total”. O ecossistema precisa ser sustentável. O bem-estar emocional da sociedade depende de decisões e ações públicas, que por sua vez dependem do Estado, mas empresas têm uma oportunidade cada vez mais relevante neste ecossistema, seja porque perdem seus talentos, seja porque no final pagam as altas contas da saúde (sem falar dos futuros gastos judiciais). Apesar de o problema ser aparentemente complexo, a solução é relativamente simples. Um bom sistema de gestão de saúde emocional que dê suporte ao trabalhador, para que ajuste seus padrões automáticos, e à empresa, para que adeque o ambiente, trabalhando preventivamente, custa bem menos do que as consequências.

*Eduardo Tancredi, médico psiquiatra, diretor-médico da eCare Group e membro do Comitê Técnico da ASAP

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