Os desafios da sustentabilidade corporativa após a pandemia

Os desafios da sustentabilidade corporativa após a pandemia

Pablo Carpejani*

12 de junho de 2020 | 07h00

Pablo Carpejani. FOTO: DIVULGAÇÃO

Não importa se você é a favor da liberação imediata das atividades comerciais e industriais. Ou, ainda, se defende o cenário oposto e é totalmente favorável ao isolamento social, quarentena, lockdown e afins. O que é inevitável em ambas as situações é que o cenário da sustentabilidade dentro das empresas nunca mais será o mesmo após a estabilização da covid-19.

A situação não poderia ser diferente. A sustentabilidade corporativa, enfim, está à prova de fogo e chegou o momento de separar o “joio do trigo”. Será preciso acompanhar as práticas das organizações no período pós-pandemia para detectar se o discurso sustentável possui alinhamento com a estratégia organizacional e, principalmente, com as ações realizadas. Se isso não ocorrer, veremos a proliferação ainda mais acelerada das empresas que usam sustentabilidade como marketing — ou melhor, uma disfunção do marketing — para vender mais.

Não há problema algum ter benefícios e até mesmo lucro com ações oriundas da sustentabilidade, desde que a empresa realmente pratique a essência do termo. Não é pecado lucrar, até mesmo uma ONG precisa de recursos financeiros para se sustentar. O grande problema é que muitas pessoas não conhecem o verdadeiro sentido do termo “sustentabilidade empresarial”. Muitas pensam que se trata apenas da realização de práticas sociais ou ambientais. Ocorre que sustentabilidade é isso e muito mais. É, também, a consideração da parte econômico-financeira da empresa. Ou seja, sustentabilidade também é negócio e ponto final.

John Elkington, autor do livro “Canibais com Garfo e Faca”, foi um dos grandes responsáveis por trazer o conceito de desenvolvimento sustentável ao mundo empresarial. Antes, tudo era muito subjetivo, afastado da ideia corporativa. Elkington resume que a sustentabilidade empresarial é a sincronia entre as perspectivas sociais (pessoas), ambientais (planeta) e econômicas (lucro).

Ocorre que, nos últimos anos, muito se falou, mas pouco se fez sobre a sustentabilidade corporativa. Frente a esse gap, surgiram várias iniciativas. Entre elas está o Sistema B (B Corp) que, resumidamente, certifica empresas verdadeiramente sustentáveis por meio do seu desempenho em função de vários critérios. Trata-se de um autêntico “ganha-ganha”. A empresa ganha pela melhoria contínua em tópicos que envolvem sustentabilidade, ganha na reputação e na ajuda ao planeta. No outro lado, o consumidor também ganha, por apoiar práticas sustentáveis. Além disso, não é porque um produto é de uma empresa que possui práticas sustentáveis que ele deverá custar mais caro, pelo contrário, sustentabilidade também é sinônimo de gestão de riscos e eficiência operacional. Diga “olá” ao real significado de sustentabilidade empresarial.

E agora? O que vai acontecer quando a pandemia do coronavírus passar? Haverá um distanciamento muito grande de quem vai largar na frente — ou já largou — na condução do tema. Ficará claro quais são empresas que usam a sustentabilidade apenas como uma bandeira “bonitinha” e quais são as companhias que realmente causam um impacto positivo.

Com a atual conjuntura, é inevitável a redução dos orçamentos para os próximos anos. Resta saber que ênfase as empresas vão dar na aplicabilidade dos recursos para os setores que gerenciam a sustentabilidade corporativa. Mais do que isso, precisamos saber como as empresas vão realizar práticas de governança corporativa ligadas à sustentabilidade. Qual será a importância do tema para os gestores, diretores e presidência? Como será o comprometimento público da empresa quanto aos stakeholders sobre o tema? Qual será o impacto positivo gerado? Como minimizar os impactos negativos? Como proporcionar valor compartilhado com toda a cadeia? Como inserir a sustentabilidade na cultura e no DNA empresarial?

Vai chegar a hora de dissociar quem faz de quem fala que faz. Assim, verificaremos se nessas empresas a prática de ações sustentáveis será suprassumo ou utopia. Os efeitos da pandemia vão deixar as coisas mais claras.

*Pablo Carpejani é especialista em Sustentabilidade Corporativa e professor da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) nos cursos de Engenharia de Produção e Negócios

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