Os desafios da advocacia pós-pandemia

Os desafios da advocacia pós-pandemia

Bruno Pedro Bom*

16 de junho de 2021 | 14h35

Bruno Pedro Bom. FOTO: DIVULGAÇÃO

Como a pandemia afetou o modo de operar o Direito e quais os pilares para o advogado ser relevante no novo contexto.

Atravessamos um momento ímpar na economia mundial e o mercado jurídico, consequentemente, acompanha esse momento. A pandemia congelou muitas atividades, especialmente no segmento de prestação de serviços.

Esse cenário é gravado pela instabilidade que identificamos no Legislativo e nos atos governamentais, por conta das mudanças intempestivas que acabam gerando uma insegurança jurídica generalizada para as empresas e os trabalhadores.

No entanto, apesar do contexto desafiador, são observadas novas perspectivas e oportunidades que se avistam em larga escala e merecem atenção, despontando, por exemplo, um volume massivo de acordos trabalhistas, contratos de aluguel, dívidas tributárias que poderão ser reavaliadas. Sem contar as empresas que atuam no ramo de recuperação judicial, que agora terão trabalho exponencialmente ampliado pelo contexto macroeconômico. Segundo Winston Churchill: “O pessimista vê dificuldade em cada oportunidade; o otimista vê oportunidade em cada dificuldade.”

Certamente, o “desmonte” econômico acabará inexoravelmente precisando da gestão jurídica nas suas várias vertentes – trabalhista, tributária, empresarial etc. Deste modo, a atividade advocatícia será auferida por grande crescimento, dependendo obviamente, da capacidade dos operadores do Direito observarem de forma rápida a leitura das oportunidades e se posicionarem diante às mudanças. Complementando a passagem de Darwin, em sua teoria da evolução, não é o mais forte que sobrevive, nem o mais inteligente, nem o que se adapta às mudanças, mas sim, o que apresenta raciocínio rápido de planejamento dinâmico e aprendizado constante.

A nova conjuntura abre um imenso rol de oportunidades de negócios para os operadores do direito, desde que eles consigam identificá-las e, de maneira rápida e cirúrgica, adaptarem o modelo de negócio a essas novas demandas. Todas essas situações oportunas exigem que os profissionais do Direito dediquem uma atenção especial na edificação de novas habilidades, afinal, novos tempos demandam novas competências. Essa conscientização, que deve ser inerente da rotina empresarial do advogado, deverá ficar ainda mais latente, de forma a efetivamente converter as oportunidades vislumbradas em resultados.

E quais os pilares para o advogado ser relevante no cenários pós-pandemia?

A lista proposta não esgota nem se restringe a essas sugestões. Analisando o papel do novo profissional do Direito na sociedade, apontamos alguns pilares fundamentais na edificação e manutenção da relevância jurídica contemporânea.

Digitalização: a sociedade e a comunicação global mudaram, assim como a forma que as pessoas buscam e absorvem conteúdo para se sentirem seguras em sua tomada de decisão. Notam-se ainda profundas mudanças no modo como nos relacionamos com outras pessoas, como aprendemos, como trabalhamos e até como gerimos problemas.

O modo como se opera o Direito também mudou e o mercado exige um novo perfil de profissional jurídico, atribuído de novas funções em meio a tantas transformações impulsionadas pelo desenvolvimento de novos negócios, novas tecnologias e novos formatos de consumo de informação provenientes da digitalização acelerada na era pandêmica.

Para os operadores do Direito serem relevantes é fundamental a migração coercitiva para o cenário digital. Para os mais conservadores, pode parecer desconfortável e desafiador, mas vital para o exercício pleno da profissão nivelada com as transformações sociais e corporativas vigentes.

Segundo Sêneca: “O destino conduz o disposto e arrasta o relutante.”

Escritórios tecnológicos: Entrega de maior produtividade e estratégia. A tecnologia demandará readequação da atividade profissional. Softwares de gestão processual, armazenamento e automação de documentos, por exemplo, elevam o desempenho e integração das equipes.

A inovação no modelo de trabalho das empresas sugere a adoção do formato híbrido, gerando diferencial competitivo aos escritórios que utilizam tecnologias que facilitam e operacionalização do trabalho remoto, como sistemas baseados em nuvem, aplicativos de gestão de desempenho das equipes e videoconferências.

Mentalidade ágil: Estamos atravessando a revolução digital. Aqueles que não se adaptarem serão profissionais a caminho da extinção. É preciso capacidade adaptativa, mentalidade ágil de planejamento dinâmico, aprendizado contínuo e principalmente, humildade intelectual, para reconhecer e agir frente as agressivas mudanças.  Quanto mais rápido adotarmos em nossos processos essa irrefreável realidade, menor será o dano e mais rápido a mudança de estratégia.

Segundo o escritor e futurista Alvim Tofler: “o analfabeto do século XXI não será aquele que não consegue ler e escrever, mas aquele que não consegue aprender, desaprender e reaprender”

Interdisciplinaridade: O advogado tem sido exigido, cada vez mais, para ser uma pessoa envolvida no negócio, muito além de um know-how jurídico, um aliado estratégico de gestão empresarial. Por isso, suas novas e mais complexas funções têm exigido uma gama multidisciplinar de conhecimentos de outras áreas para a operação do próprio Direito.

Competências naturalmente presentes em outras profissões, como marketing, gestão financeiras, práticas de negociação, tecnologia da informação, empreendedorismo etc. Assumem outro papel e fundamentam-se como essenciais para viabilizar o exercício do próprio Direito. Segundo o prestigioso Professor José Renato Nalini: “o Direito é um universo complexo, capaz de seduzir os vocacionados. Mas para surtir os desejáveis efeitos para os quais ele se preordena, precisa dialogar com outras ciências.”

Relacionamentos perenes: As habilidades sociais estão entre as competências que todo advogado deve desenvolver. A comunicação humanizada e a gestão colaborativa substituem o individualismo e a competitividade. A edificação de relacionamentos perenes aplica-se tanto com o público interno como ao externo.

Mais do que nunca, é imperativo cuidar e desenvolver pessoas. Sem elas, não será possível dar nem mais um passo, nem mesmo com a tecnologia. Temos que empoderar quem está conosco. Segundo Nelson Wilians: “Devemos valorizar as relações pessoais de forma ainda mais intensa do que antes, pois nelas está o futuro. Não podemos nos restringir na letra fria da lei ou no tecnicismo, precisamos dar vida e rostos às causas dos clientes.”

Simon Sinek em brilhante passagem cita: “100% dos clientes são pessoas. 100% dos funcionários são pessoas. Se você não entende de pessoas, você não entende de negócios.”

*Bruno Pedro Bom, advogado e publicitário, fundador da BBDE Marketing Jurídico, Diretor de Marketing do IBDP. Autor da obra Marketing Jurídico na Prática publicado pela editora Revista dos Tribunais

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