Os caminhos do transporte coletivo na realidade da pandemia

Os caminhos do transporte coletivo na realidade da pandemia

Luisa Feyo Peixoto Guimarães*

26 de junho de 2020 | 05h00

Foto: Divulgação

O transporte nas cidades brasileiras está em um beco sem saída, mas a pandemia apenas agravou a situação emergencial que já vivia a operação do transporte coletivo no Brasil.

Diferentemente outros países, onde governos locais ou federais investem no setor com subsídios, na grande maioria das cidades brasileiras, o modelo de financiamento do transporte coletivo é feito exclusivamente pela venda das passagens. Ou seja, fica por conta dos passageiros o custo de toda a operação dos sistemas urbanos.

Subsidiar o transporte coletivo é um investimento na qualidade de vida da população e na redução das desigualdades urbanas, uma vez que um bom serviço garante o acesso de todos às oportunidades na cidade. Com a pandemia do novo coronavírus, esse subsídio se torna ainda mais importante, uma vez que os operadores do transporte público continuam operando com menor demanda, além de terrem que implementar protocolos de segurança que tornam os custos de manutenção do sistema mais altos.

Diversas cidades ao redor do mundo puderam manter as operações de transporte coletivo circulando normalmente ou de forma otimizada, mesmo com a baixa demanda, sem sofrer fortemente com a queda no número de passageiros. Isso porque não dependem exclusivamente da venda de passagens para o financiamento da operação. Mesmo com o subsídio, durante a pandemia a queda no movimento foi tão alta que o governo dos Estados Unidos destinou uma verba emergencial de US$ 25 bilhões (mais de R$ 125 bilhões) para as agências de transporte. No Brasil, governos municipais, estaduais e federal apresentaram diversas propostas de auxílio financeiro para as operações de transporte público, no entanto, o setor ainda corre risco de sofrer um colapso. A prefeitura de São Paulo, uma das cidades brasileiras que oferece subsídio regularmente ao transporte público, aumentou 26% em média o valor concedido às empresas de ônibus durante os meses de pandemia. Ao longo de abril e maio, a média de passageiros transportados representou cerca de um terço do que seria o volume normal. Um levantamento da Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos (NTU) demonstrou que, em média, a demanda de passageiros no Brasil caiu 80% e que as empresas reduziram cerca de 25% da frota em operação.

Políticas que limitam o número de passageiros nos ônibus para garantir o distanciamento social, como a que foi aplicada – e já revogada – em São Paulo também foram adotadas por cidades como Chicago, Portland, Vancouver ou Shenzeng, na China. No entanto, essa política apenas é eficiente se as frotas forem dimensionadas de acordo com a demanda. No Brasil, com a deficiência de auxílio financeiro para os operadores, essa política se torna quase inviável.

Para garantir a segurança no transporte público, outras medidas também são eficientes como, por exemplo, a higienização constante dos veículos, com demarcações para orientar distâncias de segurança, barreiras físicas entre motoristas e passageiros, eliminação da compra de passagens dentro do veículo, monitoramento em tempo real da lotação dos veículos e aumento da frequência ou manutenção de serviços normalmente. No entanto, para todas as medidas são necessários investimentos, e a situação já precária da operação de transportes no Brasil torna extremamente necessários investimentos públicos de curto e longo prazo. Apesar das dificuldades atuais, as necessidades extremas impostas pelo momento em que vivemos podem ser um impulso para uma mudança profunda na maneira como são feitos os investimentos públicos no nosso transporte urbano.

* Luisa Feyo Guimarães Peixoto é Especialista em Relações Públicas da Quicko, startup de Mobilidade Urbana

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