Os caminhos da propina a Aécio, segundo delator

Os caminhos da propina a Aécio, segundo delator

Executivo da J&F Ricardo Saud entregou à Procuradoria-Geral da República contratos e notas fiscais com empresas que, segundo ele, eram indicadas pelo senador para 'mascarar' recursos ilícitos para a campanha do tucano à Presidência em 2014

Luiz Vassallo e Julia Affonso

27 de maio de 2017 | 05h00

O diretor de Relações Institucionais da J&F, Ricardo Saud, entregou ao Ministério Público Federal contratos e notas fiscais que ele alega serem frias para maquiar propinas ao senador afastado Aécio Neves (PMDB-MG), em meio às eleições presidenciais de 2014.

A pedido de Aécio, outro executivo do grupo, Joesley Batista, diz ter aberto ‘um caixa’ de aproximadamente R$ 100 milhões para ‘comprar apoio de partidos’ ao tucano naquelas eleições.

PTB, Solidariedade, DEM, PTN, PSL, PTC, PSC , PSDC , PMN, PT do B, PEN, são citados como os partidos ‘comprados’. A estes partidos, foram feitas doações oficiais e prestação de serviços fictícios, relatam os delatores.

Os executivos Joesley Batista e Ricardo Saud dizem ter recebido caminhos específicos para pagar propinas ao próprio senador, alvo da Operação Patmos, deflagrada no dia 18.
O dono do grupo autorizava os repasses, em acerto com o tucano, que eram operacionalizados pelo diretor de Relações Institucionais da J&F. Somente para Aécio teriam sido destinados R$ 11 milhões – nas primeiras tratativas. Posteriormente, os valores chegaram a R$ 60 milhões, de acordo com os delatores.


Um dos responsáveis pela campanha do senador, Paulo Vasconscellos – à época, marqueteiro do tucano -, teria recebido R$ 2,5 milhões por meio de um contrato classificado como ‘fictício’ pelos delatores.
O contrato e as notas fiscais com a empresa PVR Propaganda e Marketing foram entregues ao Ministério Público Federal.

A JBS ainda alega ter pago R$ 6 milhões à Data Word Consultoria, ligada, segundo Ricardo Saud, ao Instituto de Pesquisa Sensus. Os contratos e as notas fiscais também foram entregues para corroborar com o relato do executivo.

Edifício. Além dos contratos fictícios, os delatores também relataram a compra de um edifício onde ficava sediado o jornal Hoje em Dia, pertencente, à época, a Ediminas S/A – Editora Gráfica Industrial de Minas Gerais.
Joesley disse ter repassado R$ 17 milhões a Aécio por meio da compra superfaturada do prédio em Belo Horizonte, de propriedade de um aliado do senador. “Precisava de R$ 17 milhões e tinha um imóvel que dava para fazer de conta que valia R$ 17 milhões”, afirmou.
Ao Estado, Flávio Jacques Carneiro confirmou a venda realizada, em 2015, pelo valor de R$ 17,3 milhões, do prédio onde ficava o jornal Hoje em Dia, mas reiterou que o valor não foi repassado a Aécio, e sim para quitar dívidas do jornal, ‘tais como salários de funcionários, pagamentos de fornecedores, tributos e contratos de empréstimos que financiavam a operação do Jornal, estando devidamente contabilizado na empresa Ediminas’.
Outro documento entregue pela JBS é referente a um contrato de R$ 2,5 milhões, que a empresa firmou com a Bel Editora, para publicidade no jornal Hoje em Dia. Segundo os delatores, o valor também foi estabelecido por Aécio Neves. Flávio Carneiro, dono da Ediminas à época do termo, nega o envolvimento do tucano na negociação, e reitera que a publicidade foi declarada ao fisco.

Flávio Jacques Carneiro esclarece que a venda do prédio onde funcionava o Jornal Hoje em Dia, realizada em setembro de 2015, aconteceu dentro da legalidade com assinatura de contrato e escritura entre a Ediminas e a J&F Investimentos.

Os contratos entre a J&F e a Bel Editora, que controla a Ediminas, também estão nas mãos da Procuradoria Geral da República.

Os delatores da JBS também relataram ter usado a rede de supermercados atendida pelo grupo para repassar propinas ao senador. Quem ficava responsável por buscar os valores era o primo de Aécio, Frederico Pacheco, o Fred, que foi preso na Operação Patmos.


“Então com o Fred, foi uma entrega de 4 milhões e 300. Para facilitar a vida dele, a gente negociava muito em BH com dois supermercados. Eu negociei com dois supermercados que pudessem fazer pagamento a vista pra gente, que não precisava ser os 4 milhões de uma vez. Podia ser parcelado semanalmente. Olha, vendia pra mim 300 mil, pagava em dinheiro 300 mil, e eu quitava a nota. Então foi feito e o Fred passou em dois supermercados e foi pegando em dinheiro. Tudo era entregue pelo proprietário do supermercado e todos entregues pelo Fred”, relatou.
Os nomes dos supermercados não são revelados pelo delator, já que, segundo ele, não cometeram nenhum crime e não sabiam que os valores se tratavam de propinas ao senador afastado Aécio Neves (PSDB-MG).
COM A PALAVRA, AÉCIO NEVES
São falsas as declarações dadas por Joesley Batista e Ricardo Saud, que atuaram em seus depoimentos como verdadeiros atores na tentativa de construir uma narrativa que sustente a história criminosa que fabricaram para ganhar os benefícios da delação e sobre a qual não apresentaram provas concretas. O senador Aécio Neves prestará à Justiça, por meio de sua defesa, todos os esclarecimentos sobre os assuntos mencionados e reitera que jamais recebeu propinas ou defendeu interesses da JBS, como o próprio Saud admite na declaração dada de que : “Aécio nunca fez nada por nós”.
Assessoria do senador Aécio Neves
COM A PALAVRA, PAULO VASCONCELOS
“Paulo Vasconcelos firmou um contrato com a JBS e todos os serviços previstos foram honrados. Não houve emissão de notas frias –nem mesmo o delator fala isso em seu depoimento. A lisura da sua conduta será provada na investigação”
Assessoria de imprensa da PVR
COM A PALAVRA, FLÁVIO JACQUES CARNEIRO
Flávio Jacques Carneiro esclarece que a venda do prédio onde funcionava o Jornal Hoje em Dia, realizada em setembro de 2015, aconteceu dentro da legalidade com assinatura de contrato e escritura entre a Ediminas e a J&F Investimentos.
O imóvel foi vendido pelo valor de 17,3 milhões de reais e os pagamentos foram realizados mediante transferências bancárias creditadas na conta do vendedor, empresa Ediminas.
O valor da venda foi usado para quitar dívidas, tais como salários de funcionários, pagamentos de fornecedores, tributos e contratos de empréstimos que financiavam a operação do Jornal, estando devidamente contabilizado na empresa Ediminas.
Em relação à verba de 2,5 milhões de reais destinados à publicidade, da mesma forma foram contabilizados, declarados às autoridades fiscais e os recursos aplicados na operação do Jornal.
Não houve, em momento algum, repasse de dinheiro para o senador Aécio Neves, pessoa a ele ligada ou partido político.
COM A PALAVRA, O INSTITUTO SENSUS
A reportagem entrou em contato com a entidade, mas não obteve resposta. O espaço está aberto para manifestação.
COM A PALAVRA, O PTB
O Diretório Nacional do Partido Trabalhista Brasileiro afirma que a legenda recebeu doações de campanha da empresa JBS S.A. nas eleições gerais de 2014. Entretanto, o PTB ressalta que todas as doações recebidas pela referida empresa foram feitas por indicação do presidente nacional do PSDB, senador Aécio Neves (MG), candidato a presidente da República apoiado pelo partido naquela época. E reiteramos que as doações recebidas foram realizadas rigorosamente dentro das normas legais e devidamente declaradas à Justiça Eleitoral.
O Diretório Nacional do PTB, portanto, esclarece que o partido jamais teve qualquer relação com a JBS nem com qualquer membro da empresa – seja pessoa física, seja pessoa jurídica. Certificamos que o partido não teve vínculo com a JBS no passado, não tem no presente e não terá no futuro.
Declaramos também que o PTB não tem compromisso em ajudar a JBS, tendo em vista a atuação aberta, firme e intensa de parlamentares do partido na CPI do BNDES, comissão que teve por objetivo investigar irregularidades em empréstimos concedidos pelo banco.
Por fim, reiteramos o apoio do Partido Trabalhista Brasileiro às investigações da Lava Jato, e queremos que as denúncias envolvendo a JBS S.A. sejam apuradas e a empresa seja devidamente punida por todos os crimes que cometeu.
Roberto Jefferson
Presidente Nacional do PTB
COM A PALAVRA, O PSDC
RONDÔNIA
Em depoimento prestado pelo executivo da JBS,Valdir Aparecido Boni, à Procuradoria Geral da República em 4 de maio de 2017, o executivo afirma que todas as tratativas pertinentes as irregularidades fiscais que teriam beneficiado a JBS, em Rondônia, foram mantidas exclusivamente com o contador Clodoaldo Andrade , na sede da sua empresa, Rio Madeira Contabilidade Empresarial.
Considerando que o senhor Clodoaldo Andrade, integra a direção do PSDC do Estado de Rondônia.
Considerando que no depoimento prestado pelo executivo Valdir Aparecido Boni, ele teria conhecido o referido contabilista na sede do PSDC em Porto Velho, apresentado pelo contador Nilton Amaral da empresa Guaporé, adquirida pelo Grupo JBS .
Face a esses fatos, a Comissão Executiva do Diretório Nacional do PSDC, fundamentada em seu compromisso com a transparência e a legalidade,
CONVOCOU
o Presidente Estadual do PSDC em Rondônia, o Eng. Edgard Nilo Tonial e o Contador Clodoaldo Andrade, também integrante da Direção Estadual do PSDC naquele estado, para comparecerem na sede operacional do partido em São Paulo – SP, e apresentarem a versão dos fatos.
Após a audiência, a Direção Nacional do PSDC, deliberará sobre as providências que se mostrarem necessárias , no âmbito partidário.
Brasília , 22 de maio de 2017.
COMISSÃO EXECUTIVA DO DIRETÓRIO NACIONAL
PARTIDO SOCIAL DEMOCRATA CRISTÃO
COM A PALAVRA, O PMN
O presidente do PMN Antônio Carlos Bosco Massarolo confirmou, nesta sexta-feira, 26, que o partido recebeu R$ 1,3 milhões, registrados em doações oficiais, da JBS, no entanto, disse desconhecer as tratativas do senador afastado Aécio Neves (PSDB-MG) para angariar os recursos. Ele também afirmou que, como encabeçou a chapa eleitoral, o tucano ficou responsável pela arrecadação de campanha.
“A JBS provavelmente fez essa doação a pedido do Aécio Neves, porque o partido não tinha essas relações com a empresa. Não sei como foram as tratativas, mas, pelo que vi na imprensa, parece que o linguajar do Aécio não é dos melhores”, afirmou.
Massarolo ainda esclarece que, quando a doação é feita ao partido, ‘é feito um recibo eleitoral é discriminado da origem’.
“Nas contas dos candidatos deve constar. À época, não existia nenhum tipo de ideia de que poderia haver esses embaraços legais da JBS”, relata.

COM A PALAVRA, O PSC 

Sobre a informação de que o Partido Social Cristão teria recebido recursos do Grupo JBS nas eleições de 2014, o partido esclarece que:

– O Grupo JBS não fez nenhuma doação para o Diretório Nacional e nem para a campanha presidencial do PSC;

– As campanhas do partido sempre foram modestas e feitas com recursos legais, informados à Justiça Eleitoral por meio das prestações de contas entregues ao TSE;

– É absolutamente fantasiosa a suposição de que atuação do partido na campanha de 2014 tenha sido influenciada por qualquer empresa.

COM A PALAVRA, O SOLIDARIEDADE
Todas as contas eleitorais do Solidariedade foram aprovadas pela Justiça Eleitoral. A JBS fez uma doação legal de R$ 11 milhões, que foram distribuídos oficialmente entre diversos candidatos do partido pelo Brasil, portanto, não há irregularidade. Também é importante ressaltar que o Solidariedade foi um dos primeiros partidos a se definir na eleição de 2014, muito antes dos demais.
Solidariedade
Direção Nacional
COM A PALAVRA, O PT DO B
A reportagem entrou em contato com o PT do B, mas não obteve resposta. O espaço está aberto para manifestação.
COM A PALAVRA, O PEN
A reportagem entrou em contato com o PEN, mas não obteve resposta. O espaço está aberto para manifestação.
COM A PALAVRA, O PTC
A reportagem entrou em contato com o PTC, mas não obteve resposta. O espaço está aberto para manifestação.
COM A PALAVRA, O DEM
A reportagem entrou em contato com o DEM, mas não obteve resposta. O espaço está aberto para manifestação.

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