Os bancos incomodados que se mudem ou mudem

Os bancos incomodados que se mudem ou mudem

Eduardo Vils e Thiago Teixeira*

25 de agosto de 2021 | 04h15

Eduardo Vils e Thiago Teixeira. FOTOS: ARQUIVO PESSOAL

No Brasil, os pequenos empreendedores ainda são tratados pelos grandes bancos como se fossem tolos. Isso acontece porque o mercado financeiro foi criado, desenvolvido e mantido, até hoje, como privilégio nas mãos de uns poucos escolhidos. A concentração de capital é tão antiga quanto o próprio sistema financeiro. Sem precisar ir tão longe no tempo, é fácil encontrar motivos que sustentam essa situação.

A partir de 1964, a concentração bancária foi estimulada pelo governo militar na tentativa de reduzir a pressão dos juros sobre a desenfreada escalada inflacionária, por meio de um pretenso ganho de escala. A concentração foi bem-sucedida: de 262 instituições bancárias existentes no início da década de 1960, apenas 109 sobreviveram ao regime e, em 1988, 56,85% dos ativos financeiros do País eram controlados por somente 49 bancos privados. Mas a inflação continuou solta.

Em 1994, o Plano Real, seguindo à risca as políticas preconizadas pelo FMI e pelo Banco Mundial de diminuir a presença do estado na economia, incluiu as instituições financeiras estatais no programa de privatizações. E tornou praticamente impossível a abertura de novos bancos, ao exigir um patrimônio líquido de 32% para os novatos, enquanto a regra para os já existentes era de apenas 8%.

Hoje, os cinco maiores bancos concentram ativos de R$ 7,36 trilhões, valor equivalente ao PIB brasileiro.

Mas, o que parecia impossível começou a acontecer quando, em 2010, o Banco Central (BC) abriu o mercado de cartões de crédito para que mais adquirentes pudessem oferecer aos comerciantes opções com as duas bandeiras que existiam na época, até então exclusivas dos três dos maiores bancos. A medida visava ao aumento da concorrência com a redução de taxas e de juros nas compras e vendas com cartões de crédito.

Após pouco mais de uma década, o mercado brasileiro conta com mais de uma centena de adquirentes e subadquirentes competindo com os conglomerados financeiros tradicionais. Foi uma mudança, mas nem tanto, pois as maiores do setor, além de pertencerem aos grandes bancos, ainda concentram 80% do total do volume de transações. Ou seja, em 11 anos, somente algo em torno de 15% escapou da concentração do sistema. Isso explica por que não houve reação dos grandes conglomerados. Afinal, segundo o BC, os cinco maiores bancos encerraram 2020 com 81,8% do mercado de crédito. Uma queda em relação à participação de 83,7% de 2019. Ainda assim, uma posição bastante confortável: estamos falando de um volume superior a R$ 4 trilhões nas mesmas mãos.

Agora com os novos marcos regulatórios, como Registro de Recebíveis, Open Banking e Open Finance, a situação começa a incomodar, a ponto de vários banqueiros já estarem reclamando isonomia frente ao crescimento das fintechs. Chega a ser engraçado.

O fato é que a ameaça da concorrência é real e incomoda os bancos que pararam no tempo e negligenciaram, por décadas, a oferta de serviços justos aos micros, pequenos e médios empresários, privilegiando sempre os mesmos clientes de grande porte. Agora os grandes bancos, verdadeiros ‘bancossauros’, terão de se mexer.

O fenômeno é mundial. Um estudo na consultoria Finder feito nos Estados Unidos mostra que 60% dos millenials, 54% da Geração X e 56% dos baby boomers já usam ou planejam usar exclusivamente serviços bancários digitais. E 49% da geração Z, a grande usuária dos apps, está mais focada em poupar do que em gastar, segundo o estudo internacional da KPMG “Me, My Life, My Wallet”.

Mas ainda estamos longe de uma mudança realmente significativa. Hoje, enquanto a maior parte das fintechs foca seus esforços na oferta de produtos e serviços mais demandados pelos pequenos negócios e que não são atendidos pelo mercado financeiro tradicional, esses mesmos pequenos negócios são maioria da carteira de clientes de apenas 34% das fintechs (estudo do Sebrae em parceria com a ABFintechs).

Muitos continuam presos a quem nunca esteve, de fato, focado em resolver as dores de empreender. Faz parecer uma espécie de Síndrome de Estocolmo financeira, as vítimas ficam tão dependentes dos exploradores que desenvolvem um vínculo com eles, esquecendo que não estão preocupados com seu bem-estar, nem com seu sucesso. Até porque, se estivessem, não estariam atendendo somente das 10h às 16h!

*Eduardo Vils e Thiago Teixeira são sócios-fundadores da fintech Justa

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