Os avanços na regulamentação do ensino digital médico brasileiro e os impactos na saúde

Os avanços na regulamentação do ensino digital médico brasileiro e os impactos na saúde

Marcus Vinicius Tatagiba e Leonardo Jorge Cordeiro de Paula*

14 de maio de 2022 | 03h00

Marcus Vinicius Tatagiba e Leonardo Jorge Cordeiro de Paula. FOTOS: DIVULGAÇÃO

A tecnologia decorre rapidamente e transforma o nosso cotidiano e tudo o que nos rodeia. Na área da saúde não é diferente. A cada ano surgem novos dispositivos que facilitam diagnósticos, tecnologias que proporcionam tratamentos mais assertivos e, com isso, descobrimos um novo jeito de praticar a medicina de forma mais descentralizada e mais democrática. Os impactos são gigantes quando falamos de ampliação do atendimento e acesso ao sistema de saúde como um todo.

De acordo com a última PNAD – Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílios, realizada pelo IBGE, mostra que 84,72% da população vivem concentradas em áreas urbanas. Embora o SUS seja muito eficiente, tal concentração proporciona uma grande sobrecarga no sistema de saúde público em grandes cidades. Sem contar que no país existem 115 povos isolados contabilizados sem acesso direto à saúde.

O Brasil é celeiro para a formação de grandes profissionais de saúde. São mais de 500 mil médicos formados, os quais aproximadamente 64% têm o título de especialista. Para 2030, a perspectiva é ainda maior: é esperado que esse número ultrapasse os 800 mil. É o que aponta o estudo realizado pelo CFM – Conselho Federal de Medicina, em parceria com a Universidade de São Paulo. Só em 2021, durante o pico do covid-19, mais de 24 mil novos médicos se formaram.

Especificamente na área médica existem mais oportunidades profissionais, do que médicos disponíveis. O Brasil hoje tem 2,4 profissionais para cada mil habitantes, superior à população do Japão, por exemplo, e próxima de países como Estados Unidos (2,6), Canadá (2,7) e Reino Unido (2,8). Em muitos países considerados desenvolvidos, este número está na faixa de 4 por mil habitantes.

O grande desafio é como desafogar o sistema e garantir que mais pessoas tenham atendimento. Como democratizar e garantir acesso aos serviços de saúde para toda a população?

A telemedicina é um ponto de partida e tem se mostrado eficiente também neste sentido.

Agora, a resolução que regulamenta o uso da telemedicina, tem regras claras e foi incluída no Diário Oficial da União, e já passa a entrar em vigor no País.

A modalidade havia sido sancionada em carácter emergencial durante a pandemia e sua regulamentação representará um marco na área médica do país.

Como já dissemos anteriormente, essa é uma ótima ferramenta para alcançar pessoas que não tem acesso à saúde. Hoje, por exemplo, é possível realizar e laudar um exame de imagem por meio da telerradiologia. Apenas com técnicos qualificados e um bom software, radiologistas que estão em outros lugares podem analisar os laudos e otimizar diagnósticos.

Também tivemos grandes avanços na telecardiologia, onde é possível realizar eletrocardiogramas, teste ergométrico, Holter e MAPA nos lugares mais distantes a serem laudados por profissionais gabaritados. Sem contar outros dispositivos que realizam exames físicos de otoscopia (instrumento para visualização de estruturas internas do meato acústico e tímpano), que analisam infecção de garganta. Além disso, possibilitam e realizam a escuta de coração e pulmões, podendo até identificar diversas patologias, como um possível infarto agudo do coração. Essas tecnologias também são importantes para o monitoramento de pacientes com doenças crônicas, sem contar que promovem comodidade àqueles que podem passar por uma consulta por videochamada.

Recentemente pesquisa realizada por uma plataforma de telemedicina que mostrou que os brasileiros aprovam a modalidade. Das 5.961 pessoas ouvidas, 81% passaram a considerar o atendimento remoto como uma boa opção. Do ponto de vista do profissional da saúde, além da economia gerada, tanto de recursos quanto de tempo, há a possibilidade de atender mais gente. Sobre o ensino digital médico, seguimos a mesma lógica. Por meio da internet, profissionais que não estão próximos a centros de referências, têm acesso a um ensino de qualidade. Promovendo conhecimento e formando novos profissionais pelo país, consequentemente, democratizam o atendimento médico e alcançamos mais pacientes.

Evolução da ciência e quebra de tabus

Voltando especificamente aos avanços da especialidade de cardiologia, as primeiras experiências com a telemedicina no Brasil tiveram início em meados da década de 90. Em 1995, o InCor – Instituto do Coração de SP, apresentou o ECG-FAX, que disponibilizava análises feitas por médicos da entidade e os exames, por sua vez, eram enviados por fax para outras cidades. Em 1996, a instituição tornou possível o monitoramento de pacientes em domicílio, por meio do sistema denominado ECG-Home.

O ensino digital é um caminho sem volta. É bem verdade que essa modalidade de aprendizagem ainda sofre parcialmente resistência, mas é preciso ressaltar que a educação à distância é regulamentada pelo MEC, justamente para aumentar a oferta de ensino no país.

As instituições reconhecidas pelo Ministério da Educação seguem uma série de exigências para garantirem a formação de profissionais qualificados e, constantemente, são monitorados para manutenção da qualidade.

É preciso deixar a tecnologia quebrar barreiras. Saúde e conhecimento são essenciais para a formação de uma nação igualitária e equilibrada. Ainda temos muito a percorrer nesse caminho, mas boas soluções estão surgindo para tornar o atendimento virtual tão efetivo e resolutivo quanto o presencial, com impacto direto no cuidado da saúde da população.

Avante!

*Marcus Vinicius Tatagiba é CEO e fundador do Educar Mais, grupo de educação que administra a Escola Brasileira de Medicina (EBRAMED)

*Leonardo Jorge Cordeiro de Paula é cardiologista e diretor acadêmico da Escola Brasileira de Medicina (EBRAMED). É especialista em Gestão de Saúde e Educação, e atualmente é médico clínico pelo Incor – Instituto do Coração

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