Os 9 principais acontecimentos esportivos de 2019

Os 9 principais acontecimentos esportivos de 2019

Alfredo Zucca e Samuel Bueno*

18 de dezembro de 2019 | 07h00

Alfredo Zucca e Samuel Bueno. FOTOS: DIVULGAÇÃO

O fim do ano se avizinha e despontam as retrospectivas revisitando o que de mais relevante aconteceu ao longo de 2019 ao redor do mundo desportivo. Além das conquistas, importa destacar nessa jornada os principais acontecimentos ligados direta ou indiretamente ao esporte. Tal como no mundo atual, é paradoxal a análise no âmbito puro desportivo e, noutro giro, os bastidores e informações que gravitam sobre a organização e gestão do esporte no Brasil.

Assim, apresentamos aqui os nove principais acontecimentos do ano que afetaram o universo esportivo e, consequentemente, o campo do direito.

1. Extinção Ministério do Esporte

O ano começou com um novo governo e, com ele, veio a extinção do Ministério do Esporte. Já no primeiro dia de janeiro, a pasta do esporte foi incorporada ao Ministério da Cidadania, juntamente com o Ministério da Cultura e Ministério do Desenvolvimento Social. Na sequência, muitos estados também extinguiram as secretarias que se dedicavam exclusivamente ao esporte, deixando um vazio claudicante em termos de gestão e desenvolvimento futuro do desporto no Brasil, essencialmente no campo da nova política esportiva nacional (se é que ela existe), com práticas de inclusão e equidade por meio do esporte.

2. Incêndio no alojamento do Flamengo

Na noite de 8 de fevereiro um incêndio causado por um curto circuito no ar-condicionado do centro de treinamento do Flamengo tirou a vida de 10 jovens atletas e deixou outros três feridos (todos da categoria de base do clube). A tragédia repercutiu no Brasil e no mundo, causando revolta e pesar na sociedade e no meio esportivo. A precariedade das instalações que abrigavam os jogadores da base de um clube tão grande chamou a atenção para os riscos de tal episódio se repetir em times de menor estrutura e relevância. Até hoje, a diretoria rubro-negra alega ter firmado quatro acordos em 11 negociações com os familiares atingidos. E, em paralelo, o Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro conduz ação judicial juntamente com a Defensoria Pública para a defesa dos interesses dos menores e das famílias. As conquistas celebradas pelo time em um ano de glórias históricas dentro de campo não apagarão o luto e a dor de tal tragédia. A precariedade da gestão administrativa e a falta de uma legislação mais rígida, capaz de imputar responsabilidade aos gestores do esporte reclama providências urgentes para elevar o Brasil ao nível das principais potências mundiais.

3. VAR no Brasileirão

No mês de abril o Campeonato Brasileiro da Série A começou com a novidade do Árbitro Assistente de Vídeo (VAR, na sigla em inglês). No início, o uso do VAR se mostrou um tanto quanto polêmico, tanto pela falta de agilidade nos procedimentos durante os jogos, quanto pela ausência da repetição durante as transmissões de televisão e nos telões dos estádios. Com o tempo, a tecnologia demonstrou evolução, mas, ainda assim, gera debates sobre sua forma de utilização. Além dos árbitros, as equipes, torcedores e até os narradores tiveram de se adaptar à novidade que, ao que tudo indica, veio para ficar. É preciso evoluir, contudo, no tocante às regras de utilização para evitar discussões sobre a parcialidade e parcimônia no uso do recurso a depender da importância dos times ou dos jogos envolvidos. A implantação da regra do desafio, paralelamente à sistemática atual, tal como já ocorre – por exemplificar – na liga profissional de futebol americano, mostra-se salutar para o crescimento e transparência do esporte.

4. Copa do Mundo feminina

Entre os meses de junho e julho a França sediou a oitava edição da Copa do Mundo de Futebol Feminino, torneio conquistado pela quarta vez pelos Estados Unidos. Além das performances de grande nível técnico, o evento merece seu lugar de destaque nos anais esportivos pela audiência recorde alcançada no mundo todo e pela alta mobilização gerada nas redes sociais. A norte-americana Megan Rapinoe foi a artilheira e eleita a melhor jogadora da competição (posteriormente seria eleita a melhor jogadora do mundo). Mais que isso, protagonizou fortemente o movimento pela equiparação salarial e de premiação entre homens e mulheres no esporte. A brasileira Marta, que também deu voz ao movimento, atingiu a marca de 17 gols na história das Copas se tornando a maior goleadora em mundiais. Consagrou-se, ainda, a primeira, entre homens e mulheres, a marcar em cinco edições diferentes do torneio. Essa edição da Copa do Mundo de Futebol Feminino marcou com letras maiúsculas e garrafais a afirmação e confirmação do futebol feminino no Brasil.

5. Projeto de equalização de remuneração

Na sequência da bandeira levantada durante a Copa do Mundo feminina de futebol, avançou na Câmara dos Deputados o Projeto de Lei 1.416/19, de autoria do Deputado Pedro Lucas Fernandes (PTB-MA), que prevê isonomia nas premiações para homens e mulheres nas competições esportivas financiadas com recursos públicos. A disparidade das premiações financeiras entre os gêneros tem sido colocada cada vez mais em pauta por atletas homens e mulheres de sucesso. Como objetivo final busca-se o desenvolvimento do desporto feminino e com um passo fundamental para a diminuição da desigualdade hoje existente. Temos aqui uma iniciativa que por si só não resolve todos os problemas, mas que fomenta a busca do equilíbrio entre gêneros no esporte, pois com mais incentivo financeiro se promove maior qualificação, atraindo, por consequência, maior interesse de público, de patrocínio e exposição de mídia. No surfe, por exemplo, a WSL (Liga Mundial de Surfe) já oferece premiações iguais para homens e mulheres em suas etapas do Circuito Mundial.

6. Surfe olímpico

E por falar em surfe, a notícia de que o esporte se tornou modalidade olímpica já é antiga, mas por anteceder os Jogos Olímpicos de Tóquio 2020, o ano de 2019 tem sido decisivo para o tema justamente porque, pela primeira vez, os eventos da modalidade têm sido utilizados como critério para a definição dos atletas que competirão por seus países em águas japonesas. Tanto assim que os eventos realizados pela WSL e pela ISA (Associação Internacional de Surfe) servem como base para os respectivos rankings e classificações. Já nos Jogos Pan-Americanos realizados entre julho e agosto em Lima, no Peru, o surfe teve sua primeira experiência olímpica. O Brasil conquistou duas medalhas na modalidade, uma de ouro, com Chloe Calmon (longboard feminino) e uma de bronze, com Nicole Pacelli (SUP feminino). Em Tóquio, espera-se que o surfe renda outras medalhas para o Brasil, hoje considerado uma potência na modalidade.

7. Jogos Pan e Parapan-Americanos de Lima

Seguindo o calendário de lembranças, é bom recordar que nos Jogos Pan-Americanos de Lima o Brasil alcançou a histórica segunda posição no quadro de medalhas do certame, ficando atrás apenas dos Estados Unidos. Ao todo, os atletas brasileiros conquistaram 171 medalhas, sendo 55 de ouro, 45 de prata e 71 de bronze. Já no quadro de medalhas dos Jogos Parapan-Americanos, o desempenho foi ainda mais destacado: 1º lugar geral com o total de 308 medalhas, sendo 124 de ouro, 99 de prata e 85 de bronze.

8. Maratona sub-2h

Provavelmente o acontecimento esportivo mais marcante de 2019 e que ficará registrado na história foi o feito protagonizado por Eliud Kipchoge. No dia 12 de outubro o maratonista queniano, campeão olímpico e mundial, conquistou o que parecia impossível, inclusive para a Ciência. Nas ruas de Viena, Kipchoge se tornou o primeiro homem a correr o percurso de 42,2km em menos de 120 minutos. Com a marca de 1h59min40s o atleta de 34 anos alcançou a proeza correndo sob o lema de que não existem limites para a raça humana. Apesar de o tempo não ter sido homologado como a nova melhor marca mundial, por ter sido realizado em uma prova não-oficial, Kipchoge estabeleceu uma quebra de paradigma que ficará para sempre na memória do esporte e da modalidade mais tradicional do atletismo.

9. A gestão no futebol brasileiro

O Campeonato Brasileiro de 2019 trouxe sinais claros para o futuro de esporte no Brasil. O recebimento de investimentos externos e a assunção da gestão de antigas associações desportivas, por clubes formatados sob a forma de sociedades empresárias, deverá trazer uma reformulação significativa no quadro das principais potencias esportivas no curso da próxima década que se iniciará em 2020. O título da série B do campeonato brasileiro conquistado pelo Red Bull Bragantino, os novos investimentos na Ferroviária de Araraquara e Botafogo de Ribeirão Preto (associações civis sem fins lucrativos que já se transformaram em sociedades empresárias), assim como o projeto da família Moreira Salles para o Botafogo carioca, devem ser vistos sob uma perspectiva de evolução e adequação do futebol nacional a uma nova realidade mundial. O rebaixamento do Cruzeiro e as dificuldades gritantes enfrentadas por grandes times nacionais, ancorados em gestões amadoras e prosaicas, dão um sinal claro acerca da necessidade de adequação aos novos tempos, sob pena de enfraquecimento e pequenez num futuro bem próximo.

*Alfredo Zucca e Samuel Bueno, sócios da área de Esportes e Entretenimento do ASBZ Advogados

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