Os 11 dragões que o próximo presidente precisa derrotar

Os 11 dragões que o próximo presidente precisa derrotar

César Souza*

23 de abril de 2021 | 08h30

César Souza. FOTO: EDUARDO SIMÕES

A mitologia tem vários guerreiros, como São Jorge que foi um padre e soldado romano no exército do imperador Diocleciano. Cavaleiro intrépido, corajoso e vencedor, ficou imortalizado no conto em que derrota um dragão assustador que vivia em Silene, na Líbia.

Para acalmar a fúria do dragão, os habitantes ofereciam duas ovelhas por dia. Mas o animal tornou-se mais exigente e demandou um sacrifício humano. A escolha recaiu sobre a filha única do rei da Líbia. São Jorge ofereceu-se para lutar contra o monstro e libertar a cidade daquele terrível jugo.

A lenda de Jorge me impactou, em várias ocasiões, como uma metáfora útil para os líderes que precisam vencer adversidades e superar obstáculos para colocar sua família, empresa ou comunidade em um novo patamar.

A primeira vez foi quando, em 1969, assisti, extasiado, ao premiado filme “O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro”, do saudoso Glauber Rocha, pioneiro do movimento que ficou conhecido como Cinema Novo.

Outro momento marcante foi em 1990, ao ver a obra “São Jorge e o Dragão” do grande artista renascentista italiano Rafael de Sanzio, pintada em 1506, durante a minha primeira visita à Galeria Nacional de Arte na cidade de Washington, nos Estados Unidos, onde residi durante 11 anos.

O feito de São Jorge, homenageado no dia de hoje, 23 de abril, me inspira a propor os “Onze Dragões” que o próximo presidente precisará enfrentar para colocar o país, abalado em várias frentes, no novo ciclo que tanto necessita para se reencontrar com a sua vocação e seu potencial. Listo abaixo:

1) O apartheid ideológico, social e de costumes – Qual seria o grande propósito que poderia nos unir num “Projeto Brasil 2030” transformador para o país? Não podemos mais conviver como um país dividido, radicalizado em posições extremas com baixo nível de respeito pelas diferenças, vivendo uma absurda polarização e radicalização. Será necessário mitigar essa polarização construindo os caminhos da convergência e das soluções conjuntas para os grandes desafios que afligem a nossa sociedade. O “Projeto Brasil 2030” pode ser a ponte substantiva para unir interesses mútuos e superar as animosidades adjetivas.

2) A economia combalida – Como revitalizar nossa economia? Partindo da premissa que a pandemia estará controlada até o final de 2021 e totalmente superada até meados de 2022, a partir do ano seguinte o país precisa voltar a crescer em um ritmo mínimo de 3% ao ano para assegurar empregos sustentáveis e modernos, assim como uma renda mínima aos brasileiros bem superior ao que tem sido obtida nos últimos anos. Para tal, a credibilidade dos investidores deve ser resgatada com base no controle rígido dos gastos governamentais e através das necessárias três reformas: a tributária, a administrativa e a política. Só revitalizando a economia poderemos gerar os milhões de empregos perdidos e conseguiremos reduzir a discrepante e indecente desigualdade social que aflige a quem tem o mínimo de consciência e empatia.

3) Os Valores confusos – Como resgatar os valores essenciais? O Brasil precisa superar esse momento em que a verdade deixou de ser uma virtude e passou a ser refém das conveniências de cada um e dos seus propósitos mais imediatos. A missão do próximo presidente será contribuir para resgatar a credibilidade, a palavra honrada, o respeito, a democracia, a transparência e a ética, combatendo de fato a corrupção em todos os níveis.

4) A educação ultrapassada – Como podemos fazer uma verdadeira revolução em prol da educação? O sucesso de uma política educacional não pode depender da exceção de iniciativas isoladas ou de ilhas de excelência. Deve ser sistêmico, impregnado em todos os níveis desde o mais elementar até a capacitação contínua dos adultos. A causa nobre de uma educação mais capilarizada deve ser abraçada em todo território nacional. Não podemos mais continuar investindo na formação de mão de obra braçal. Precisamos qualificar os trabalhadores para o mundo digital. E o único caminho para isso é com o investimento e desenvolvimento da ciência, das artes e da cultura, bases da formação de futuras gerações e fonte de soluções diferenciadas para os nossos desafios.

5) A saúde abalada – Uma vez superado o pesadelo da pandemia que ceifou muitas vidas, destruiu famílias e fechou muitas empresas, devemos perseguir o sonho de sermos o país mais saudável da América Latina e combatermos de forma estruturada tanto as doenças típicas de países pobres decorrentes da falta de saneamento básico e do binômio má alimentação-educação, quanto as doenças que atingem as demais parcelas da população como a obesidade e as decorrentes do envelhecimento. Que tal estabelecermos também para 2030 a meta de expectativa de vida superior aos 80 anos de idade?

6) A segurança pública ineficaz – Somos campeões onde menos nos interessa: em índices de criminalidade, violência, homicídios, roubos e utilização de menores em crimes, perdendo apenas para países já dominados pelo narcotráfico. Os custos absurdos advindos da necessidade de contratar segurança oneram orçamentos familiares e empresariais. A perda da vida de jovens em idade produtiva e o medo generalizado que deteriora a sensação de bem-estar afetam os cidadãos que se sentem desprotegidos, além de negócios como o turismo e a logística de transporte no Brasil. Urge uma reforma da legislação, do sistema prisional assim como de maior integração entre os diversos níveis de poderes e das entidades que precisam zelar pela segurança com “S” maiúsculo.

7) A máquina governamental ineficiente – O chamado “Choque de Gestão” precisa se transformar em ações e deixar de ser um mero chavão oportunista. O padrão de gastos na manutenção da máquina pública é incoerente com o nível dos serviços públicos gerados. As tentativas para aumentar a eficiência tem sido cosméticas. O próximo presidente necessitará fazer uma grande reorganização no aparato público-governamental, visando desaparelhar a máquina do partidarismo que prejudica seu funcionamento a serviço de todos os cidadãos. Precisamos reposicionar o Estado no seu tamanho ideal, garantindo os serviços essenciais para a sociedade.

8) A (in)sustentabilidade ambiental – O próximo governo precisa abraçar de fato a causa da sustentabilidade ambiental com vigor. Precisamos resgatar o ativo geográfico e reputacional que está sendo deteriorado.

9) A política externa desmantelada – O Brasil precisa reassumir uma posição de protagonismo saudável no cenário regional e mundial, influenciando políticas de forma compatível com seu posicionamento no ranking no concerto das nações.

10) A infraestrutura insuficiente – Este é um dos maiores “Calcanhar de Aquiles” da economia. Parte da eficiência operacional conseguida nas fábricas e no campo acaba sendo desperdiçada na hora de transportar e distribuir produtos, prejudicando a produtividade do país. O caos urbano nas grandes cidades causado pelo baixo nível dos serviços públicos e pela ineficiente rede de infraestrutura viária, sanitária, de segurança e pelo padrão desenfreado das edificações nas últimas décadas, merece ser repensado de forma a resgatar a eficácia perdida pela falta do planejamento competente.

11) O empreendedorismo & a inovação pouco estimulados – Apesar da retórica típica de momentos eleitoreiros, os pequenos e médios empreendedores não são considerados de fato prioritários nas diversas políticas governamentais. Temos já 30 milhões de empreendedores no Brasil e empreender já aparece em alguns segmentos como o segundo maior sonho do brasileiro, logo após a casa própria. Estimular o empreendedorismo é a forma mais sustentável de gerar empregos na base social. Precisamos estimular polos de inovação no país e fomentar a criação e startups, pois o sucesso no futuro residirá na convivência sadia entre empresas tradicionais e os ecossistemas de “inovação aberta” e “corporate ventures” com suas constelações de startups.

Poderia continuar listando vários outros dragões a serem derrotados, como a necessidade de maior harmonia entre os poderes constituídos no nosso modelo democrático. O Brasil precisa da segurança institucional na vertical, entre os poderes Federal, Estadual e Municipal, e na horizontal entre o Executivo, Legislativo e o Judiciário. Essa a essência da democracia e do sistema federativo sob o qual vivemos e precisamos zelar. Só com o respeito entre todos esses poderes o país terá condições de focar em soluções para os desafios que nos aflige em vez de criar novas tensões para satisfazer uma visão bastante inadequada do uso do poder.

Se esse conjunto de prioridades não puder passar por suficiente, permita-me acrescentar, estimado leitor e querida leitora, mais um obstáculo a ser vencido não apenas pelo próximo presidente, mas por todos aqueles que aspiram o exercício da liderança em casa, no trabalho e na comunidade: a capacidade para vencer o seu dragão interno, aquele que pode comprometer sua inteligência emocional, sua ética e integridade, a necessária harmonia entre as diferentes dimensões da sua vida.

Só com esse conjunto de vitórias sobre esses diferentes tipos de “monstros” seremos capazes de resgatar o orgulho e a cidadania comprometida com a verdade e com a construção do bem-estar e justiça da nossa tão sofrida, resiliente e esperançosa sociedade.

Para concluir, lembro que a figura de São Jorge é também cultuada pelas religiões afro-brasileiras, sincretizado na forma do orixá Ogum. Salve dia 23 de abril, salve Jorge!

*César Souza, presidente do grupo Empreenda, consultor, palestrante e autor de Seja o líder que o momento exige (Best Business, 2018) e coautor do recém-lançado Descubra o craque que há em você (Buzz, 2020)

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