Organizações estão experts em dar desculpas por seus fracassos?

Organizações estão experts em dar desculpas por seus fracassos?

Sandro Magaldi*

15 de outubro de 2019 | 07h15

Sandro Magaldi. Foto: Divulgação / Assessoria de Imprensa

Com uma frequência cada vez maior testemunhamos organizações icônicas sucumbirem perante os desafios impostos por esse novo ambiente em transformação.

Ao informar o fechamento de suas atividades, essas companhias emitem comunicados formais ao mercado onde, invariavelmente, encontramos justificativas que ancoram o fracasso do negócio a fenômenos externos como a conjuntura econômica, o avanço tecnológico, a chegada de novos concorrentes e referências do gênero.

Não me recordo de nenhum comunicado onde a justificativa estivesse fundamentada em uma visão mais consonante com a realidade:

“Encerramos as atividades da nossa organização pela incapacidade de nós, líderes da organização, nos adaptarmos ao ambiente atual dos negócios adotando um modelo de gestão mais adequado a nova realidade”

A insofismável tendência do ser humano de delegar a outro as próprias ineficiências se faz presente e geram um desserviço a comunidade em geral já que, se a responsabilidade pelo fracasso é de uma instância externa a meu esforço, o que posso fazer para reverter esse quadro? Eu e minha organização somos vítimas das circunstâncias navegando como uma nau à deriva?

É evidente que existem fatores externos que são incontroláveis e que, da mesma forma, a aleatoriedade de eventos é uma das razões dos desafios impostos por qualquer organização.

No entanto, uma observação mais atenta ao ambiente empresarial e em movimentos como esse, gera a constatação de que muitos líderes estão utilizando o avanço tecnológico e as transformações do ambiente como muletas para suas próprias ineficiências delegando o fracasso a um terceiro.

É uma posição cômoda, porém desassociada da realidade nua e crua: a maioria dos fracassos empresariais tem ocorrido devido a falta de entendimento dos seus líderes das características do novo ambiente empresarial.

O mundo tem mudado de forma dramática nos últimos anos em movimento que atinge a tudo e a todos. Negligenciar esse processo de transformação e insistir no mesmo modelo de gestão adotado a décadas é um comportamento, no mínimo leviano e pouco inteligente.

É delegada a Albert Einstein uma sentença muito emblemática a respeito desse risco: “Continuar a fazer as coisas como sempre foram feitas e esperar resultados significativamente diferentes, é uma boa definição de insanidade”.

Essa visão é de uma atualidade assustadora já que tangibiliza os riscos associados a um comportamento de resistência a mudanças. É necessária uma postura proativa rumo ao entendimento desse novo universo, suas características e perfil.

É evidente que não se trata de uma migração simples e tranquila. Afinal, o indivíduo deve confrontar suas verdades absolutas, crenças que estão enraizadas a décadas e que foram responsáveis pelo seu sucesso. Mais do que a resistência ao novo, é deflagrado um processo de auto sabotagem orientado a manutenção do status quo ou da popular zona de conforto.

Por mais que se trate de um processo corporativo com profundos impactos no ambiente empresarial, a transformação de fato só irá ocorrer se houver uma mudança no modelo mental dos indivíduos que atuam nesse contexto.

O binômio humildade e coragem são os principais vetores desse processo de construção de uma nova filosofia pessoal.

Humildade para confrontar suas verdades absolutas, para entender que aquela sentença atribuída a Sócrates, “só sei que nada sei”, é a mais pura realidade, sobretudo, em um ambiente novo.

Coragem para se aventurar por um caminho inédito até então não desbravado cujo resultado é não sabido e, altamente, imponderável.

Um ambiente instável, imprevisível e incerto demanda uma postura alinhada com essa dinâmica. É inexorável que a insegurança e o medo sejam despertados e representem um obstáculo a transformação. Ignorar a imperativa necessidade da mudança, no entanto, representa um risco muito maior do que a manutenção da (pretensa) estabilidade.

Pela primeira vez na história da humanidade desde que o homem deixou de ser nômade, ficar parado é mais arriscado do que se movimentar.

Novos tempos requerem novos comportamentos e uma nova filosofia. Nunca mais seremos os mesmos. Nunca mais o mundo se comportará da mesma forma que no passado.

*Sandro Magaldi é especialista em gestão de negócios, com trinta anos de experiência em liderança e vendas. É cofundador do meuSucesso.com, foi vice-presidente do Grupo TV1 e autor dos livros Vendas 3.0, Gestão do Amanhã (em apenas 6 meses está em sua 5.ª edição) e o recém lançado O Novo Código da Cultura.

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