Coalizão de direitos e movimentos negros pede ao Conselho de Ética da Presidência investigação sobre Sérgio Camargo por ‘escória maldita’

Coalizão de direitos e movimentos negros pede ao Conselho de Ética da Presidência investigação sobre Sérgio Camargo por ‘escória maldita’

Áudios obtidos pelo Estadão aumentaram pressão por investigação contra dirigente da Fundação Palmares

Raysa Motta e Paulo Roberto Netto

07 de junho de 2020 | 04h11

Organizações de direitos civis e representantes do movimento negro e de religiões de matriz africana enviaram representação à Comissão de Ética da Presidência cobrando a instauração de procedimento para apurar supostos crimes de racismo e discriminação praticados pelo presidente da Fundação Palmares, Sérgio Camargo, em uma reunião a portas fechadas com assessores. A Comissão é um órgão consultivo, vinculado ao Presidente da República, que analisa a conduta dos membros e funcionários do governo.

Áudios do encontro foram obtidos pelo Estadão e mostram que Camargo classificou o movimento negro como ‘escória maldita’ que abriga ‘vagabundos’ (ouça abaixo). Ele também chamou Zumbi de ‘filho da puta que escravizava pretos’, se referiu a uma mãe de santo como ‘macumbeira’ e prometeu demitir diretores da autarquia que não tiverem como ‘meta’ a demissão de ‘esquerdista’.

Para a coalizão, o chefe da Palmares demonstra ‘incompatibilidade’ como cargo desde a posse, em novembro do ano passado. “Sérgio Camargo tem a clara missão de sabotar os objetivos da instituição, colocando em risco todo o seu acúmulo histórico e inviabilizando a implementação das políticas públicas que lhe foram atribuídas pela lei”, diz a representação enviada para análise do governo federal, que pede ainda que o jornalista seja afastado do cargo.

O documento ressalta que os ataques ao movimento negro, cuja atribuição legal da Fundação Palmares é proteger, e a promessa de exonerar servidores com base em critério ideológico são inconstitucionais.

Além da conduta na reunião, a manifestação lembra ainda episódios nos quais Camargo depreciou a memória de Zumbi dos Palmares, chegando a questionar sua existência – o que lhe rendeu uma representação por improbidade administrativa na Procuradoria da República no Distrito Federal.

Sérgio Camargo, presidente da Fundação Palmares. Foto: Gabriela Biló/Estadão

Sérgio Camargo, presidente da Fundação Palmares. Foto: Gabriela Biló/Estadão

Na sexta-feira, 6, o Ministério Público Federal pediu a abertura de inquérito para apurar se Camargo cometeu crime de racismo. A Procuradoria deu 30 dias para que a Polícia Federal comece as investigações, que deverão ser finalizadas no prazo de 90 dias. Os policiais vão ouvir o próprio Camargo e os auxiliares que participaram da reunião, além de periciar os áudios.

Na quinta, 4, a Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão encaminhou um ofício ao MPF pedindo uma investigação não somente por racismo, mas também por improbidade administrativa. Para o procurador federal dos Direitos do Cidadão, Carlos Alberto Vilhena, a conduta revelada nos áudios demonstra ‘possível desvio de poder’.

Após a revelação dos áudios, dezenas de organizações de direitos civis, lideranças religiosas e entidades do movimento negro também enviaram representações ao MPF cobrando a abertura de um inquérito. O movimento foi endossado por parlamentares do PSOL, PSB, PT, PDT e PCdoB.

 

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