Oportunidades na 10ª Cúpula dos Brics

Arnaldo Francisco Cardoso*

26 Julho 2018 | 05h00

Frente à guerra comercial desencadeada por medidas protecionistas e unilaterais do governo dos EUA, a 10.ª Cúpula dos Brics, em Johanesburgo, ganha importância e se apresenta como espaço qualificado para a discussão da ordem econômica mundial e defesa do multilateralismo.

O agrupamento de países que soma um quarto do PIB mundial, 20% dos fluxos comerciais, mais de 40% da população do planeta e que tem entre seus membros três potências nucleares, traz para a mesa de discussão em sua décima cúpula, problemas que afetam o mundo todo e para os quais as tradicionais potências ocidentais têm se mostrado incapazes de dar respostas adequadas. O que está em xeque é a própria ordem internacional, cujas potências ocidentais foram as principais artífices no pós 2.ª Guerra Mundial.

Criado no contexto da crise financeira global iniciada em 2008, de lá para cá o grupo Brics evoluiu institucionalmente e incrementou seus objetivos. As convergências iniciais na defesa de reformas nas organizações internacionais, ainda que por motivos diferentes, permanecem ativas e pertinentes e, somadas ao aumento da interdependência entre suas economias, mostram-se como fatores de força dos Brics e podem falar mais alto que suas divergências.

Para fazer jus ao momento, medidas efetivas para maior liberalização comercial e de investimentos entre os países do grupo poderá dar maior consistência interna e credibilidade perante a comunidade internacional, por colocar em prática o que está em seu discurso.

Quanto ao Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), são esperados ajustes para o avanço em governança, para que suas ações expressem também a força do grupo e não suas discordâncias.

Também da Cúpula de Johanesburgo são esperadas medidas como a assinatura de um memorando de entendimentos sobre o setor da aviação civil, defendido pelo governo brasileiro, visando uma melhor estruturação da malha aérea entre os cinco países, estimulando viagens de turismo e negócios; cooperação no campo da saúde ampliando a pesquisa, produção e distribuição de vacinas, com poder de transbordamento positivo para a indústria farmacêutica (hoje já há no Brasil capital indiano investido na produção de medicamentos genéricos). Também a assinatura de acordos sobre o acesso a imagens de satélites é esperada nessa cúpula.

Ainda que, pontualmente, o Brasil possa se beneficiar da guerra comercial dos EUA com a China, aumentando, por exemplo, suas exportações de soja para o gigante asiático, que sobretaxou a soja norte-americana como retaliação às sobretaxas sobre seus produtos, cabe ao Brasil como defensor do livre-comércio orientar suas ações, com visão de longo prazo, capitalizando seu papel econômico e político em escala global.

A hora é oportuna para o Brasil se mostrar como fornecedor confiável para os parceiros do Brics e para demais mercados internacionais, não só de produtos agrícolas, mas também de setores da indústria nos quais o país vem acumulando expertise e bons resultados. Entre os Brics é estratégico avançar no comércio intraindústria, que apresenta dotação relativa similar dos fatores de produção. Ação recomendável é a organização de missões comerciais, setoriais, compostas por autoridades de governo e empresários, promovendo a troca de conhecimentos e identificação de negócios.

O reconhecimento pragmático do papel que a China desempenha no âmbito dos Brics, associado a um empenho em negociações envolvendo órgãos governamentais e setores produtivos, poderá gerar ao Brasil melhores resultados no que diz respeito à qualidade da interdependência entre as duas economias. Sobre a melhora para o Brasil dos termos de trocas, é oportuna uma análise atenta das diretrizes de política externa para a América Latina contidas em documento divulgado pelo governo chinês.

Para os Brics, o momento de grave crise mundial se revela como oportunidade de afirmar-se como ator internacional relevante num mundo multipolar. Para o Brasil, que ocupará no próximo ano a presidência rotativa do grupo e sediará sua próxima cúpula, cabe desde já melhorar a qualidade de suas interações, defendendo com inteligência seus interesses (afirmados através da interação entre governo, produtores e sociedade). Mas para isso o país precisará que seu próximo governo tenha legitimidade, responsabilidade e capacidade cognitiva para conceber e conduzir um projeto de desenvolvimento condizente com o atual estágio de desenvolvimento das forças produtivas em escala global.

*Arnaldo Francisco Cardoso é pesquisador e professor de comércio e negócios internacionais da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Atualmente, desenvolve pesquisa sobre a Cadeia Produtiva da Cerâmica no Brasil

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