Operadores de propinas visitaram Petrobrás 1.800 vezes

Operadores de propinas visitaram Petrobrás 1.800 vezes

Relatório anexado ao inquérito da Lava Jato contabiliza presença de supostos lobistas na estatal entre 2000 e 2014

Redação

02 de maio de 2015 | 05h00

Os ex-presidentes da Petrobrás Graça Foster e José Sérgio Gabrielli. Fotos: Estadão

Os ex-presidentes da Petrobrás Graça Foster e José Sérgio Gabrielli. Fotos: Estadão

Atualizada em 08/05, às 19h25

Por Julia Affonso e Mateus Coutinho

Dez lobistas apontados como operadores de propinas no esquema de corrupção instalado na Petrobrás e desbaratado pela Operação Lava Jato visitaram a estatal petrolífera pelo menos 1.800 vezes entre 2000 e 2014. A companhia anexou ao inquérito principal da Lava Jato na quinta-feira um extenso relatório que contabilizou as visitas dos supostos operadores. Os nomes foram indicados pelo ex-gerente executivo Pedro Barusco, que foi braço direito do ex-diretor de Serviços da empresa Renato Duque, em sua delação premiada.

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Em documento enviado em dezembro de 2014 ao juiz Sérgio Moro, que conduz as ações da Lava Jato, o Ministério Público Federal informou que Barusco negociava com tais operadores financeiros “não só o montante a ser repassado a título de propina, como também a maneira pela qual ocorreriam os pagamentos, tudo de forma a viabilizar a ocultação e dissimulação da origem, disposição, movimentação e propriedade destes ativos ilícitos”.

Em sua delação premiada, Barusco citou os nomes de Mario Góes, Zwi Zcorniky, Guilherme Esteves de Jesus, Milton Pascowitch, Shinko Nakandakari, Luis Eduardo Campos Barbosa da Silva, Atan de Azevedo Barbosa, Bernardo Freiburghaus, Augusto Amorim Costa, Cesar Roberto Santos Oliveira e João Vaccari Neto, ex-tesoureiro do PT, como “autênticos representantes dos interesses das empresas corruptoras nos pagamentos das vantagens indevidas”, com os quais ele fez transações e manteve contato. O nome de Vaccari não aparece no documento encaminhado pela estatal à Justiça.

Os supostos operadores vieram à tona na 9ª etapa da Lava Jato, chamada de “My Way”, e que levou à prisão o ex-diretor de Serviços Renato Duque e colocou na mira da Justiça 11 nomes de suspeitos de operar a propina na diretoria.

O documento de “liberação das visitas”, da Petrobrás, indica o nome do visitante, seu documento de identidade, a data e hora de entrada e saída da empresa e o nome do visitado. Os supostos operadores de propinas visitaram, entre outros funcionários, Renato Duque, Pedro Barusco, os ex-presidentes José Sergio Gabrielli e Graça Foster, o ex-diretor de Abastecimento Paulo Roberto Costa, os ex-diretores da área Internacional Nestor Cerveró e Jorge Zelada, o ex-diretor de Gás e Energia Ildo Sauer e o ex-gerente da Refinaria de Abreu e Lima Glauco Legatti.

Zwi Zcorniky foi quem mais entrou na empresa. Entre 2006 e 2014, sua entrada na companhia foi liberada em 490 ocasiões. De acordo com a delação de Pedro Barusco, Zwi Zcorniky é representante oficial das empresas Kepell Fels e da Floatec. Ele teria operado propina em nome do Estaleiro Kepell Fels, entre 2003 e 2013, para o ex-gerente, em conta no Banco Delta, na Suíça, e ao PT, por meio de Vaccari. Nas buscas e apreensões realizadas em sua residência foram encontrados vários bens de alto valor que surpreenderam os investigadores, incluindo 48 obras de arte que foram apreendidas pela Justiça.

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No relatório enviado pela Petrobrás, há registros de visita de Zwi Zcorniky a Renato Duque, Pedro Barusco e à presidência da Petrobrás. Em 14 de julho de 2010, o suposto operador entrou na estatal às 8h39, para encontrar o então presidente José Sergio Gabrielli, e deixou a empresa às 9h23.

Pouco mais de dois anos depois da visita a Gabrielli, Zwi Zcorniky entrou na Petrobrás para encontrar a então presidente Graça Foster – substituta de Gabrielli no cargo. Em 3 de dezembro de 2012, ele chegou às 9h56 e deixou o local às 12h58. Dois meses depois, em 8 de fevereiro de 2013, o suposto operador entrou na empresa às 9h36 e saiu às 12h26. Não há registro do local onde Zcorniky esteve desta vez.

A primeira pessoa a chegar à estatal petrolífera à procura de Graça Foster foi César Roberto Santos Oliveira, dono da empreiteira baiana GDK. Em 10 de junho de 2009, o executivo chegou às 15h34 para ir à Diretoria de Gás e Energia e saiu às 17h29. Barusco afirmou à força-tarefa da Lava Jato que o empreiteiro foi responsável por operacionalizar os pagamentos de propinas a ele, no valor de US$ 200 mil.

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A ex-presidente da Petrobrás foi procurada ainda em duas outras ocasiões, por Augusto Amorim Costa. De acordo com a delação de Barusco, ele teria atuado sob a orientação do executivo da Queiroz Galvão Idelfonso Collares, como operador financeiro no interesse de repasse de propinas pela empreiteira, por meio de offshores. A entrada de Augusto Amorim Costa, com destino à Diretoria de Gás e Energia, foi autorizada às 14h52. Sua saída foi registrada às 15h39.

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Segundo Barusco, Mário Góes atuou como operador financeiro em nome de empresas e consórcios contratados pela Petrobrás. O delator citou Andrade Gutierrez, Mendes Júnior, Carioca, Bueno Engenharia, MPE/EBE, OAS, Schin, Setal e UTC. Góes está preso desde 8 de fevereiro em Curitiba, base das investigações da Lava Jato. Ele é réu em ação penal por corrupção e lavagem de dinheiro.

Bernardo Freibughaus, que mora na Suíça, esteve na estatal uma vez em 29 de maio de 2008, para visitar o ex-gerente da Refinaria de Abreu e Lima Glauco Legatti. Barusco afirmou que Freiburghaus o ajudou a colocar em suas contas na Suíça aproximadamente US$ 2 milhões, após a deflagração da Operação Lava Jato e da prisão de Paulo Roberto Costa, em março de 2014.

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Legatti foi afastado do cargo em novembro de 2014, por decisão interna da Petrobrás. A Refinaria de Abreu e Lima é dos grandes empreendimentos da estatal que está sob suspeita de superfaturamento.

O engenheiro Shinko Nakandakari afirmou à força tarefa do Ministério Público Federal que pagou R$ 400 mil em propinas para Legatti. Nakandakari é um dos delatores da Operação Lava Jato. Ele admitiu o pagamento de propinas no esquema de corrupção instalado na estatal e confessou ter atuado em nome da Galvão Engenharia na operacionalização de propinas. Ele esteve na Petrobrás em 175 ocasiões.

Em sua delação, Barusco admitiu também ter atuado com Milton Pascowitch. Ele o apontou como operador financeiro da empresa Engevix e do Estaleiro Rio Grande, efetuando transferências de offshore para contas do ex-gerente. Pascowitch se identificou como representante da Engevix, em todas as 60 entradas na Petrobrás.

O funcionário de carreira da estatal Atan Barbosa, aposentado da companhia, teria atuado para a empresa Iesa Óleo e Gás, segundo Barusco. O ex-gerente o acusa de ter sido operador financeiro para o pagamento de propinas referentes aos contratos da Iesa com a Petrobrás. Ele esteve 16 vezes na companhia petrolífera.

“Entre outubro de 2008 a 26 de abril de 2013, Barusco recebeu mensalmente de Atan de Azevedo Barbosa o montante de US$ 29 mil em decorrência dos contratos firmados pela Iesa com a Petrobrás”, diz o MPF.

Luis Eduardo Campos Barbosa da Silva, apontado como operador da SBM Offshore, também teria repassado propinas, de acordo com Barusco. Segundo ele, o executivo recebeu também informação privilegiada para que sua empresa pudesse vencer uma licitação da Petrobrás. Ele visitou a estatal em 370 ocasiões.

COM A PALAVRA, A DEFESA.

Os principais ex-executivos da Petrobrás que aparecem nos relatórios não foram localizados ou não quiseram comentar o assunto.

A reportagem ligou para o telefone pessoal da ex-presidente da Petrobrás Graça Foster na sexta-feira, 1. Na primeira tentativa, seu filho, que não quis se identificar, atendeu ao telefone e informou que Graça não poderia falar e logo depois a ligação caiu. A reportagem insistiu durante a tarde, mas ninguém atendeu.

Já a assessoria do também ex-presidente da estatal José Sergio Gabrielli foi contatada por e-mail e por telefone, mas ao final do dia informou que ele não conseguiria ser localizado nesta sexta para comentar o assunto. Ambos, contudo, negam veementemente qualquer envolvimento com o esquema de corrupção e propinas na Petrobrás.

Questionada por e-mail sobre os documentos que relatam os encontros realizados pelos supostos operadores financeiros na empresa, a assessoria de imprensa da Petrobrás não retornou o contato da reportagem até a conclusão desta edição.

Desde o início da Lava Jato, a Petrobrás vem reiterando que colabora com as investigações e que é vítima do esquema de propinas provocado por alguns ex-funcionários. A estatal também é tratada como vítima do escândalo perante a Justiça Federal e recentemente assumiu o papel de assistente de acusação do Ministério Público Federal contra os executivos investigados. Na prática, a Petrobrás saiu do posto de “observadora pacífica” nos autos para ficar do lado da acusação contra os empreiteiros, lobistas e até seus ex-executivos que estão presos em caráter preventivo como Nestor Cerveró e Renato Duque, além de Paulo Roberto Costa, que cumpre pena em regime domiciliar.

O advogado João Carlos Castellar, que defende o ex-gerente da Refinaria de Abreu e Lima Glauco Legatti informou que seu cliente “nunca recebeu o suposto operador Bernardo Freiburghaus na Petrobrás”.

Segundo o defensor, Freiburghaus era um “agente autônomo de investimentos” e oferecia oportunidades de aplicações e investimentos aos “funcionários mais graduados da estatal”, de acordo com o que lhe relatou Legatti. Castellar, contudo, afirma que seu cliente nunca aceitou qualquer uma das ofertas de investimentos de Freiburghaus.

Na sexta, o doleiro Bernardo Freiburghaus não foi encontrado em sua residência na Suíça para comentar o caso. Há 15 dias, no único encontro do doleiro com um jornal brasileiro, Freiburghaus ofendeu a reportagem do Estado ao ser questionado sobre o caso da Petrobrás e garantiu: “Não conheço ninguém”.

Na ocasião, Freiburghaus se recusou a comentar o fato de que os ex-diretores da Petrobrás revelaram em delação premiada no Brasil que ele seria o operador que gerenciava as contas na Suíça, abertas para receber as propinas do esquema envolvendo a Petrobrás revelado pela Operação Lava Jato. (MATEUS COUTINHO E JAMIL CHADE, DE GENEBRA)

COM A PALAVRA, ZWI ZCORNIKY:

A assessoria de imprensa de Zwi Zcorniky informou que ele confirma as visitas e que estas fazem parte da rotina dele de representante comercial. “As visitas sempre foram técnicas e comerciais, não se tratava de nada ilícito.”

COM A PALAVRA, A ABB:

“Em referência à matéria publicada no dia 2/5/15, que aborda o depoimento de Pedro Barusco sobre lobistas apontados como operadores de propinas no esquema de corrupção na Petrobrás, a empresa ABB gostaria de elucidar determinadas informações.

– Luis Eduardo Campos Barbosa da Silva é indicado no texto publicado como funcionário da Asea Brown Boveri (ABB). No entanto, a ABB esclarece que ele não faz parte do quadro de funcionários da empresa desde 2004. Segundo o depoimento de Pedro Barusco para o Ministério Público, após 2004, Barbosa da Silva foi sócio de Julio Faerman (operador da SBM e proprietário de empresas no exterior) na Faercon e na Oil Drive. Ele também foi dono da Cartmel Worldwide e de empresas no exterior, além de ter servido como operador financeiro em favor das empresas Rolls-Royce, SBM e Alusa.

– Segundo o depoimento de Pedro Barusco, teria sido na atuação como operador financeiro da Alusa, que Barbosa teria recebido informações privilegiadas para sua empresa vencer licitação na Petrobras.”