Três alvos da Carbono 14 foram citados em depoimento de Valério em 2012 ao MPF

Três alvos da Carbono 14 foram citados em depoimento de Valério em 2012 ao MPF

Operador do mensalão afirmou em depoimento ao Ministério Público Federal que o PT teria pedido a ele R$ 6 milhões para que Ronan Maria Pinto parasse de chantagear o ex-presidente, o então secretário da Presidência Gilberto Carvalho e o ex-ministro José Dirceu

Andreza Matais, Julia Affonso e Ricardo Brandt

01 de abril de 2016 | 09h36

Marcos Vaélio. Foto: Celso Junior/AE

Marcos Valério. Foto: Celso Junior/AE

Ao menos três alvos da Operação Carbono 14, deflagrada nesta sexta-feira pela Polícia Federal, foram citados pelo operador do mensalão Marcos Valério numa tentativa de acordo de delação premiada em 2012 em episódio que envolve a morte do ex-prefeito de Santo André Celso Daniel.

Conforme o Estado revelou naquele ano, Valério afirmou em depoimento ao Ministério Público Federal que o PT teria pedido a ele para providenciar R$ 6 milhões para destinar ao empresário Ronan Maria Pinto, dono do Diário do Grande ABC, que estaria chantageando o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o então secretário da Presidência Gilberto Carvalho e o ex-ministro José Dirceu. Ele teria informações comprometedoras a revelar sobre a morte de Celso Daniel. Ronan é um dos presos da 27a fase da Lava Jato.

Este valor, segundo investigação da força-tarefa da Operação Lava Jato, teria saído de um montante de R$ 12 milhões que o pecuarista José Carlos Bumlai, amigo do ex-presidente Lula, havia contraído em um empréstimo junto ao Banco Schahin em outubro de 2004. Segundo a Procuradoria da República, há evidências que apontam que o PT influiu diretamente junto ao Banco Schahin na liberação do empréstimo fraudulento. Para chegar ao destinatário final Ronan Maria Pinto, os investigados teriam se utilizado de diversos estratagemas para ocultar a proveniência ilícita dos valores e a identidade do destinatário final do dinheiro obtido na instituição financeira.

No depoimento ao Ministério Público, Valério citou que também participaram da suposta operação para calar Ronan o então secretário-geral do PT, Silvio Pereira, e o jornalista Breno Altman. Ambos também alvos da Operação Carbono 14. A tentativa de delação premiada de Valério não avançou. Ele cumpre pena acusado de operar a compra de votos no governo Lula.

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Em seu depoimento, Marcos Valério contou que Silvio Pereira o procurou pedindo ajuda. O encontro foi marcado no Hotel Sofitel, em São Paulo, reduto de reuniões da cúpula do PT durante quase todo o governo Lula. Segundo o operador, os dois se sentaram em uma mesa do lado de fora e Silvinho disse que Ronan vinha chantageando Lula, Dirceu e Carvalho. E pediu a Valério o dinheiro para estancar a chantagem. Valério recusou-se a ajudar o PT neste caso. “Me inclua fora disso”, limitou-se a dizer.

Silvinho insistiu, pedindo apenas que aceitasse uma conversa com Ronan. O encontro foi marcado no “Hotel Puma”, na verdade Hotel Pullman, situado no Ibirapuera, em São Paulo. Teriam participado da conversa Valério, Ronan e o jornalista Breno Altman. Segundo Valério, Ronan disse que os R$ 6 milhões seriam usados para comprar 50% do jornal Diário do Grande ABC – conforme Valério disse ter ouvido de Silvinho.

O Diário do Grande ABC, disse o operador do mensalão, vinha publicando seguidas matérias sobre o assassinato de Celso Daniel. Apesar desses detalhes, Valério disse que Silvinho não lhe contou o motivo da chantagem.

Após a morte de Celso Daniel, a polícia concluiu que o petista foi vítima de “criminosos comuns”, mas o Ministério Público sustenta que ele foi eliminado a mando do empresário Sérgio Gomes da Silva, o Sombra, porque decidiu dar um basta em amplo esquema de corrupção em sua administração depois que constatou que o dinheiro desviado não abastecia exclusivamente o caixa 2 do PT, mas estava sendo usado para enriquecimento de algumas pessoas. Segundo procuradores da Lava Jato, Ronan tinha conhecimento de que como funcionava o esquema de corrupção.

Em 2012, Ronan Maria Pinto, Silvio Pereira e Breno Altman se manifestaram desta forma.

Em nota, o empresário Ronan Maria Pinto disse que “conforme já declarou em oportunidade anterior, jamais se encontrou em qualquer circunstância com o sr. Valério, a quem não conhece pessoalmente – só pelo noticiário”. Ele disse que “não conhece o sr. José Bumlai, de quem nunca sequer tinha ouvido falar”. “Tratam-se de novas partes da velha falácia com que buscam envolver seu nome em assuntos com os quais nada tem a ver.”

Silvio Pereira afirmou, por seu advogado, que considera “fantasiosa” a versão de Valério. O pecuarista José Carlos Bumlai recebeu com perplexidade a citação a seu nome. “Ele (Bumlai) ficou perplexo”, disse o advogado Mário Sérgio Duarte Garcia. “Absolutamente nada a ver com Banco Schain. Eu o consultei sobre isso, nega categoricamente que tenha participado de algo nessa linha.”

O jornalista Breno Altman disse que nunca se reuniu com Valério. “Nunca na minha vida estive com Marcos Valério. Nem nesse hotel e nem em canto nenhum. Se o Ronan é réu nos processos de Santo André junto com o PT, qual o sentido disso?”

O advogado de Delúbio Soares não foi localizado. O espaço está aberto para a defesa do ex-tesoureiro do PT se manifestar.

COM A PALAVRA, A DEFESA DE SILVIO PEREIRA

A advogada Mariângela Tomé, que defende Silvio Pereira, afirmou: a defesa não vai se manifestar, pois não tomou conhecimento do caso.

COM A PALAVRA, RONAN MARIA PINTO

Nota – Esclarecimentos – Ronan Maria Pinto

Sobre a Fase da Operação Lava Jato
Nota Ronan Maria Pinto
Há meses reafirmamos que o empresário Ronan Maria Pinto sempre esteve à disposição das autoridades de forma a esclarecer com total tranquilidade e isenção as dúvidas e as investigações do âmbito da Operação Lava Jato, assim como a citação indevida de seu nome. Inclusive ampla e abertamente oferecendo-se de forma espontânea para prestar as informações que necessitassem.

Mais uma vez o empresário reafirmará não ter relação com os fatos mencionados e estar sendo vítima de uma situação que com certeza agora poderá ser esclarecida de uma vez por todas.

Solicitamos à imprensa atenção a essa nota e mais seriedade e sobriedade na apresentação do empresário, assim como nas informações e afirmações que vêm sendo feitas e divulgadas. Todas as denúncias que o envolveram ao longo dos anos foram ou estão sendo investigadas e Ronan Maria Pinto vem sendo defendido e absolvido. A mais recente, uma sentença de primeira instância, onde houve condenação, encontra-se em grau de recurso.

Essas são as informações.

Aguardamos mais detalhes sobre a totalidade da Operação.
Cordialmente,

Assessoria de Imprensa

COM A PALAVRA, BRENO ALTMAN

Fui surpreendido, na manhã de hoje, com a notícia de que a Policia Federal havia comparecido à minha casa, em São Paulo, com um mandado de condução coercitiva e outro de busca e apreensão.

Tinha viajado a Brasília para participar de atividades da Jornada Nacional pela Democracia, que ontem reuniu duzentas mil pessoas apenas na capital do país.

Atendendo a orientação dos próprios agentes federais, compareci à sede brasiliense da instituição. Meu depoimento foi tomado durante cerca de uma hora, em clima cordial e respeitoso.

Minhas declarações sobre a investigação em curso, no entanto, poderiam ter sido tomadas através de intimação regular, com data e horário determinados pelas autoridades. O fato é que jamais tinha recebido qualquer convocação prévia para depor.

Aliás, assim foi procedido com demais depoentes do inquérito que envolve meu nome: nenhum deles tinha sido levado a depor sob vara, até esta sexta-feira, respeitando norma legal que estabelece coerção somente para quem foge de comparecer a atos judiciais ou oferece risco à ordem pública.

Só posso reagir com indignação ao regime de exceção que o juiz Sérgio Moro resolveu estabelecer para alguns dos intimados da chamada Operação Carbono 14.

Infelizmente não é novidade. O atropelo de garantias constitucionais é a prática predominante do magistrado Sérgio Moro e de procuradores que atuam em sua corte.

Desde a condução coercitiva do ex-presidente Lula, tem ficado mais claro aos brasileiros que a Lava Jato faz da intimidação, do espetáculo e do arbítrio suas principais ferramentas de intervenção.

Sob a bandeira de combate à corrupção, trata-se de investigação seletiva e contaminada, cujo objetivo derradeiro é a derrocada do governo da Presidenta Dilma Rousseff, a interdição do ex-presidente Lula e a criminalização do Partido dos Trabalhadores.

Depois das multitudinárias concentrações de ontem e da revogação de decisões arbitrárias do juiz Moro pelo Supremo Tribunal Federal, era de se esperar que a República de Curitiba revidasse. Seu papel principal, afinal, é fabricar fatos que alimentem os meios de comunicação alinhados à oposição de direita.

Sou apenas mais um dos alvos deste tornado antidemocrático.

Não foi apresentada, durante o interrogatório, qualquer prova ou indício de meu eventual envolvimento no caso investigado, de suposto empréstimo ao empresário Ronan Maria Pinto.

A falta de solidez na inquirição também se revela, por exemplo, pelas perguntas que diziam respeito às atividades de antiga editora da minha propriedade, fechada há quase vinte anos, com indagações até sobre o tipo de livros que publicávamos, e à doação eleitoral de dois mil reais que fiz, em 2006, a Renato Cinco, então candidato a deputado estadual pelo PSOL do Rio de Janeiro.

O que importava, afinal, era a criação de fato político que realimentasse tanto a Operação Lava Jato quanto a ofensiva por um golpe parlamentar contra a presidente da República.

Apesar de ultrajado em meus direitos de cidadão, continuarei à disposição da Justiça e confiante que, mais cedo ou mais tarde, retornaremos à plena vigência do Estado de Direito.

Mas minha situação pessoal é de pouca relevância. Como jornalista e militante das causas populares, tenho a obrigação de denunciar o esculacho ao qual nossa Constituição e nossas leis têm sido submetidas.

Também é meu dever, ao lado de milhares e milhares de outros lutadores, continuar nas ruas contra a escalada golpista da qual faz parte a Operação Lava Jato.

Estou orientando meus advogados a entrarem com uma ação no Conselho Nacional de Justiça contra o juiz Sergio Moro, pela ilegalidade de minha condução coercitiva, em decisão prenhe de ilações e especulações.

O Brasil não pode aceitar que um estado policial se desenvolva nas entranhas de nossas instituições democráticas.

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