Operador de Cabral vira delator e cita mesada de R$ 150 mil para Pezão

Operador de Cabral vira delator e cita mesada de R$ 150 mil para Pezão

Sérgio de Castro Oliveira, colaborador da Operação Boca de Lobo, afirmou que o emedebista recebia os repasses quando ocupava o cargo de secretário de Obras e Infraestrutura e também de vice-governador

Caio Sartori/RIO

14 de janeiro de 2020 | 16h34

O delator Sérgio de Castro Oliveira, vulgo Serjão, disse na tarde desta terça, 14, que o ex-governador do Rio Luiz Fernando Pezão recebia mesadas de até R$ 150 mil quando era secretário no governo de Sérgio Cabral. Ele ocupou as pastas de Obras e Infraestrutura, além de ter sido vice-governador.

Sobre a mesada de Pezão, delator disse que ‘se passasse muito, tinha reclamação’. Foto: Marcos de Paula/Estadão

Operador de Cabral, Serjão prestou depoimento na 7a Vara Federal Criminal do Rio, ao juiz Marcelo Bretas. Ele já vinha colaborando com as investigações, mas agora virou oficialmente delator.

O interrogatório se deu no âmbito da Operação Boca de Lobo, que prendeu Pezão em novembro de 2018. O ex-governador chegou a comparecer à Vara para depor nesta tarde, mas, por um aspecto técnico ligado à delação premiada de Serjão, o depoimento foi suspenso por Bretas, que mostrou insatisfação com o Ministério Público Federal por uma suposta demora na análise do conteúdo da delação.

Conforme determinou recentemente o Supremo Tribunal Federal (STF), as defesas de réus têm que ter acesso às delações para, então, serem ouvidas por último no processo. Os advogados de Pezão ainda não pegaram o material entregue por Serjão ao MPF.

Segundo o delator, o dinheiro era entregue entre os dias 15 e 20 do mês. “Se passasse muito, tinha reclamação”, afirmou Serjão. De acordo com ele, a mesada começou em R$ 50 mil no início do governo Cabral e chegou a R$ 150 mil. O pagamento seria uma forma de parabenizar os secretários pelo bom trabalho realizado.

A operação Boca de Lobo é um desdobramento da Lava Jato fluminense. O ex-governador é acusado de dar continuidade ao esquema de corrupção de seu antecessor e aliado, o também emedebista Sérgio Cabral, preso desde novembro de 2016 e cujas penas já somam 267 anos de detenção.

A denúncia contra Pezão, apresentada pelo Ministério Público Federal (MPF), diz que ele recebeu cerca de R$ 40 milhões em propina. As informações que embasaram a denúncia partiram da delação premiada de Carlos Miranda, apontado como um dos operadores de Cabral na organização criminosa.

Segundo Miranda, Pezão recebia uma espécie de mesada no valor de R$ 150 mil, além de bonificações — como se fosse um contrato de carteira assinada. A versão bate com o que disse Serjão.

Pezão estava em prisão preventiva desde novembro de 2018, quando foi detido em pleno Palácio Guanabara, a pouco mais de um mês de completar seu mandato. Ele não tem condenação judicial em nenhuma instância.

No mês passado, por entender que o ex-governador não representava mais uma ameaça às investigações — que era o argumento da preventiva —, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) mandou soltar o emedebista. Ele cumpre, agora, medidas cautelares: não pode, por exemplo, deixar o Estado do Rio ou ocupar cargos públicos. Também é obrigado a usar tornozeleira eletrônica.

COM A PALAVRA, O ADVOGADO FLÁVIO MIRZA

Na saída do prédio da Justiça Federal, o advogado de Pezão, Flávio Mirza, afirmou que as acusações não procedem. “Estamos trabalhando para demonstrar a erronia dessas acusações”, disse. O novo interrogatório do ex-governador está marcado para o início de fevereiro. Segundo Mirza, Pezão vai demonstrar ao juiz que as alegações são falsas.

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