Operações sob suspeita transformaram JBS na maior empresa do mundo de processamento de carne

Operações sob suspeita transformaram JBS na maior empresa do mundo de processamento de carne

Investigação revela que BNDES favoreceu grupo com aportes de capital, dispensa de garantias e preços favoráveis à família Batista em detrimento do banco

Josette Goulart

12 de maio de 2017 | 11h40

JBS. Foto: Ueslei Marcelino/Reuters

As operações do JBS com o BNDES já foram alvo de uma Comissão Parlamentar de Inquérito, de processos no Tribunal de Contas da União e também na Receita Federal. As investigações da Polícia Federal são para comprovar se houve crime. Os indícios mostram que o BNDES favoreceu o JBS nas operações fazendo aportes de capital de R$ 8 bilhões, dispensando garantias e a preços favoráveis à família Batista em detrimento do banco.

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De acordo com a decisão da Justiça, três operações estão sendo investigadas. A negociação para a compra da National Beef,que acabou não sendo concluída, a efetiva aquisição da Pilgrim’s e a fusão da Bertin. Essas duas últimas transformaram o JBS na maior empresa de processamento de carnes do mundo.

Era o dia 16 de setembro de 2009 quando a JBS surpreendeu o mercado com o anúncio simultâneo de duas grandes operações que a tornavam do dia para a noite a maior empresa global de processamento de carnes. De um lado era anunciada a fusão com o frigorífico Bertin no Brasil. De outro a compra da norte-americana Pilgrim’s, a maior processadora de frango dos Estados Unidos por US$ 2,8 bilhões. Em comum, as operações tinham a participação do BNDES, agora investigada criminalmente pela Polícia Federal na Operação Bullish, deflagrada hoje.

Para a compra da Pilgrim’s, o BNDEsPar, braço de particpações do banco, comprou debêntures de US$ 2 bilhões da empresa que seriam usados para capitalizar a JBS USA e promover a compra da Pilgrim’s. Pelo que foi acertado, a JBS USA faria um lançamento de ações no exterior e com isso pagaria a dívida com o BNDESPar. Mas o lançamento de ações nunca foi feito e o BNDESPar acabou transformando as debêntures em mais participação acionária no JBS, em vez de cobrar a dívida.

O banco já tinha ampliado sua participação na empresa com a fusão feita com o grupo Bertin, de quem também era sócio. Um ano antes do anúncio da fusão, o BNDES havia socorrido a empresa com empréstimos de cerca de R$ 2 bilhões. A fusão com o Bertin e o laudo de avaliação feito na época foram questionados pelos técnicos da Receita Federal que apontaram indícios de fraudes na fusão.

Fraudes não só tributárias como também societárias. Os técnicos diziam em relatório que os minoritários da empresa teriam sido diluídos em função da estrutura utilizada na fusão.

O fisco autuou o grupo Bertin em cerca de R$ 3 bilhões e a empresa já perdeu a disputa em processo administrativo.

O início da investigação da PF, no entanto, remonta à negociação de compra da National Beef, um negócio anterior à compra da Pilgrim’s e à fusão com o Bertin.

O JBS precisava de US$ 1,5 bilhão para comprar a empresa americana e também outra de nome Stmithfield. Na época, segundo relatório feito na CPI do BNDES, a solução encontrada foi pedir dinheiro ao BNDES que acabou aportando recursos como acionista por meio de um fundo, o FIP PROT. O FIP aportou R$ 1,4 bilhão na empresa. Além do BNDES, também participaram do FIP os fundos de pensão Funcef e Petros.

COM A PALAVRA, JBS

“A JBS informa que sempre pautou o seu relacionamento com bancos públicos e privados de maneira profissional e transparente. Todo o investimento do BNDES na Companhia foi feito por meio da BNDESPar, seu braço de participações, obedecendo a regras de mercado e dentro de todas as formalidades. Esses investimentos ocorreram sob o crivo da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e em consonância com a legislação vigente. Não houve favor algum à empresa.

Todos os atos societários advindos dos investimentos da BNDESPar foram praticados de acordo com a legislação do mercado de capitais brasileiro, são públicos e estão disponíveis no site da CVM e no site de relações com investidores da JBS.”

COM A PALAVRA, LUCIANO COUTINHO

“Em relação à operação realizada hoje pela Polícia Federal, a defesa do ex-presidente do BNDES Luciano Coutinho vem a público afirmar que todas as operações com a JBS foram feitas dentro da mais absoluta regularidade, e Coutinho está e sempre esteve à disposição para prestar quaisquer esclarecimentos solicitados por autoridades sobre a questão.

A defesa do ex-presidente ainda não teve acesso aos autos, mas tem convicção de que demostrará, ao longo do processo, a lisura de todas as ações realizadas durante sua gestão.

Coutinho está absolutamente tranquilo e encontra-se no exterior em compromisso profissional previamente agendado, regressando ao Brasil no começo da semana que vem, quando poderá prestar todos os esclarecimentos pertinentes sobre o caso.”

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