Open Science na pandemia: o futuro da ciência passa por aqui

Open Science na pandemia: o futuro da ciência passa por aqui

Gilson Magalhães*

19 de março de 2021 | 03h45

Gilson Magalhães. FOTO: DIVULGAÇÃO

Nunca dependemos tanto da ciência como agora, seja na descoberta e produção de vacinas, seja nos estudos que nos levem a medicamentos capazes de salvar vidas, como no caso da Covid-19. Diante desse cenário, cresce a adesão a um conceito que começou a ganhar corpo em poucos anos: a open science. Em bom português, ciência aberta.

O Movimento Open Science, na prática, começou bem antes. Vem do início dos anos 90, quando pesquisadores americanos criaram um repositório virtual para o compartilhamento de pesquisas em fase de pré-publicação. Não por acaso, o início da open science também nos leva ao mesmo período, no começo dos 90, do surgimento do open source. O termo é uma referência ao código aberto, software que pode ser acessado abertamente para que uma imensa comunidade global, de maneira colaborativa, possa modificá-lo e distribui-lo conforme suas necessidades.

No Brasil, em 2018, foi lançado o 4° Plano de Ação Nacional em Governo Aberto, composto de onze compromissos, como consequência da aliança internacional que ajudou a criar, em 2011, a Parceria do Governo Aberto (Open Government Partnership, OGP). Um desses compromissos trata justamente da Inovação e Governo Aberto na Ciência a partir do “estabelecimento de mecanismos para a governança de dados científicos”. O trabalho é coordenado pela Embrapa e conta com diversos organismos federais de ciência e tecnologia, entre os quais a CNPq e a Fiocruz, além de diversos representantes da sociedade civil.

A open science tem em seu DNA o trabalho colaborativo com três elementos básicos: o acesso aberto (as publicações), os dados abertos e, claro, o código aberto. Em 2015, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) passou a definir open science como “uma maneira para tornar os resultados primários de pesquisa financiados publicamente – publicações e os dados de pesquisa – acessíveis ao público em formato digital com nenhuma ou mínima restrição”.

Na prática, no entanto, open science é muito mais. Imaginem, por exemplo, a quantidade de dados e informações geradas a cada minuto, em todo o mundo, por conta da pandemia. Não apenas estatísticas, mas estudos e mais estudos sobre vacinas e medicamentos. O mais recente movimento nessa direção é da Organização Mundial da Saúde (OMS), que passou em 2020 a criar uma estrutura de desenvolvimento em open source.

Um dos objetivos da solução é dar suporte para a expansão da Learning Experience Platform (LXP) – Plataforma de Experiência de Aprendizado, em português -, uma iniciativa da Academia da OMS, que será o novo centro de treinamentos de última geração da organização.

Uma das grandes vantagens da solução, entre tantas outras, é permitir colaboração, acessibilidade e economia para países de baixa e média renda. A nova plataforma irá ajudar em ações como gerenciamento, construção de testes, análise de códigos e visualização de dados para permitir um acesso mais rápido a conhecimentos relevantes para o setor de saúde. Os ganhos são imensuráveis.

A LXP também permitirá à entidade combater a desinformação, ao mesmo tempo em que traz capacidades adicionais para entregar uma nova experiência de aprendizado aos profissionais de saúde, incluindo soluções personalizadas. Ao basear sua plataforma em uma estrutura de tecnologia aberta, a OMS está mais bem preparada para adotar novas arquiteturas e aplicações de forma interativa e incremental, gerando valor em tempo real para profissionais de saúde do mundo todo. O resultado não será observado apenas na compreensão sobre como o mundo, de uma maneira geral, reage ao novo coronavírus, mas também nas futuras adversidades sanitárias.

Certamente, compartilhar conhecimento às mais diversas comunidades de todas as áreas é um dos maiores avanços que se tem notícia no século 21. O que está sendo plantado agora, nas mais diversas partes do mundo e por organizações do peso de uma OMS, certamente terá como resultado uma longa colheita de conhecimento em aprimoramento constante, capaz de diminuir as desigualdades de nosso planeta e, melhor, salvar vidas.

*Gilson Magalhães é presidente da Red Hat Brasil

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