Onde termina a culpa dos políticos, onde começa nossa responsabilidade?

Silvina Ramal*

15 Julho 2017 | 14h00

“É na angústia que o homem toma consciência de sua liberdade, ou, se se prefere, a angústia é o modo de ser da liberdade como consciência de ser; é na angústia que a liberdade está em seu ser colocando-se a si mesmo em questão” (SARTRE, 1998, O ser e o Nada, p.72).

No livro 1984 de George Orwell, o povo é instigado a viver sua catarse manifestando ódio pelos opositores ao Grande Irmão. Não sabia ao certo o povo quem eram aquelas pessoas, o que pensavam, ou por que defendiam uma posição contrária. Mas em seu imaginário eram esses inimigos os responsáveis por qualquer mal ou contrariedade que afetava a sociedade e a vida de cada um deles.

A cena do livro lembra muito o sentimento que coloca em lados opostos “coxinhas” e “mortadelas”, e outros pequenos grupos que gravitam em torno, como por exemplo, os ditos intervencionistas, o grupo pró-Bolsonaro, os comunistas radicais, entre outros.

Ao contrário do livro, no caso brasileiro alguns sentimentos de repúdio e frustração são em parte genuínos e justificados por razões palpáveis e largamente conhecidas de todos. Várias denúncias de corrupção que envolvem quantias astronomicamente grandes (a Lava Jato já é considerada a maior investigação de corrupção da história do país), se confirmaram, resultando na condenação dos acusados.

A má condução da Economia nos últimos anos também é indiscutível e pode ser comprovada pelo desaquecimento que vivemos no mercado, exacerbado ainda mais pela crise política.

Diante disso, nada demais cada um dirigir sua raiva e frustração contra o malvado favorito que tiver escolhido, independente de seu partido político, ideologia ou mesmo ficha criminal. No entanto, a culpa deles vai até certo ponto, o ponto onde começa nossa responsabilidade.

Sabemos que o mundo externo está fora do controle individual. Cabe a nós, através de nossa racionalidade e livre arbítrio, tomar decisões sobre como enfrentar as variáveis externas. Não estou aqui para dizer nenhum lugar comum como faça uma limonada com o limão, ou veja o copo meio cheio.

O que quero dizer é que situações de crise exigem realinhamento de estratégias, mudanças não raro radicais, para adaptar-se à realidade. Para responder a ela é preciso tomar duas atitudes, nada fáceis para qualquer ser humano.

A primeira consiste em encarar os resultados das próprias atitudes e decisões. É provável que muitos de nós não tenhamos feito uma leitura inadequada da crise, do tempo que duraria e de sua gravidade. Dói encarar os próprios erros de cálculo, dá uma sensação de derrota e de incapacidade. No entanto, esta visão honesta é fundamental para o segundo passo a tomar.

A segunda atitude envolve fazer um processo de mudança de vida, de modo a se adaptar às novas condições, criando uma situação mais adequada ao novo padrão econômico e às oportunidades existentes. Mudar nunca foi fácil, significa sair da zona de conforto, encarar a incerteza e correr certa dose de risco.

Ao invés de fazer essas duas coisas, e até para fugir da angústia que elas nos trazem, muitos de nós estão paralisados, perplexos, reclamando de tudo e esperando que um salvador todo-poderoso venha restabelecer as condições antigas de estabilidade e paz. Alguns chamam esse salvador de “um novo político não viciado nem comprometido com os antigos esquemas”, “uma nova cabeça, mais moderna, com outra mentalidade”, ou algo parecido.

Enfim, é hora de abandonar a paralisia e lembrar que reclamar e esperar não leva a lugar nenhum. Não é um salvador que vai nos trazer a estabilidade tão desejada, somos nós que temos que atuar como salvadores de nós mesmos.

É urgente assumir as rédeas da própria vida e traçar um plano realista capaz de criar, contando unicamente com as próprias forças e inventividade, uma vida melhor para nós e nossas famílias.

*Mestre em Administração pela PUC-Rio e sócia da ID Projetos Educacionais

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