Onde mora a esperança

Onde mora a esperança

Angel Machado*

06 de abril de 2021 | 07h15

Angel Machado. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

A família de José está reduzida a um porta-retrato, a de Maria continua no enfrentamento diário, e Francisco deixou de ler jornais e ouvir notícias. Todos eles são brasileiros e fazem parte da classe trabalhadora. Gente que, talvez, por ignorância desejaram ter uma vida normal durante a pandemia. Maria é diarista, José está desempregado e Francisco quase morreu. O que eles têm em comum? Não sabem o que é o Produto Interno Bruto (PIB), mas, entendem de inflação – não declaram o Imposto de Renda -, e engrossam a estatística do desemprego e da informalidade. Teoricamente conseguem sobreviver com o que ganham, mas, não são privilegiados. Privilégio, aliás, é sinônimo de ostentação e de disseminação do hedonismo no Brasil.

Vem-me à memória que o atual governo se elegeu por inúmeras razões, e algumas duvidosas. Até ouvi recentemente, de alguém com responsabilidades públicas, uma declaração inusitada – que Bolsonaro naquele momento (2018) “representava uma esperança”. A esperança não pode ser banalizada dessa maneira, ainda mais, por alguém que não precisa alimentá-la, como é alimentada pelo brasileiro comum.

Atualmente é difícil ter alguma esperança social, mesmo havendo o clamor de uma multidão que se orienta pela fome – é responsabilidade de qualquer governo estimar as questões que são fundamentais como garantias ao cidadão, é o beabá de políticos bem-intencionados. Assim como a pandemia está a devastar milhões de famílias, a fome também é uma realidade.

Seguir a vida normalmente como se não houvesse amanhã é trágico, o fato é que haverá o amanhã para muitos de nós. Já não consigo pensar na cultura da civilidade como dantes. O ar fresco de imaginar as crianças fazendo algo realmente importante para as suas vidas, interagindo, criando, estabelecendo pontes indestrutíveis com o futuro, me parece um pensamento que é fruto de uma esperança quase impossível.

Segurança, prevenção, legalidade institucional, altruísmo, quais os significados e os significantes? Na generalidade o país está afundado na mesquinharia política em Brasília. Do leigo ao letrado, perder a dignidade é como perder uma perna, mas, gostaria de encontrar uma prosa que contasse que tudo acabará bem no final. O que fazer se destruíram o túnel? As conjecturas sobre a bolha do Congresso são em simultâneo o melhor e o pior dessa gente inconfiável.

A vida do brasileiro já fez tanto sentido, na liberdade, nos direitos adquiridos, na cultura, nos velhos tempos da dispersão de uma alegria não reprimida, mas, a vida do brasileiro sempre dependeu da boa vontade do próximo e do projeto do governo – onde o ideal teria como pauta número um: o cidadão.

E se estivesse em suas mãos a decisão de parar um governo corrupto e prejudicial à Saúde Pública, o que você faria?  E agora José, onde mora a Esperança?

*Angel Machado é jornalista e escritora

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