Onde foi parar o respeito?

Onde foi parar o respeito?

José Renato Nalini*

18 de dezembro de 2020 | 13h00

José Renato Nalini. FOTO: ALEX SILVA/ESTADÃO

Conversando estes dias com um querido amigo, que assim como eu antes fora Promotor de Justiça e depois Juiz, confessou-me sua decepção quanto ao declínio de novas vocações. Antigamente, os melhores alunos de cada fim do curso de bacharelado eram naturais candidatos à Magistratura ou ao Ministério Público. De uns anos para cá, não houve redução quantitativa de concorrentes. Ao contrário. Mas, dentre os melhores estudantes de direito, já não se encontra o mesmo entusiasmo.

Compreensível a frustração dos idealistas. Somos ambos de uma era em que as carreiras jurídicas eram encaradas como sacerdócio. Havia exemplos a serem seguidos. Os jovens se espelhavam nos luminares e queriam ser ao menos parecidos. Hoje há uma crise de liderança autêntica. Ninguém se mira em ninguém. Isso ocorre na política, na Igreja, nas demais instituições.

Parece que o oblívio dos valores acelerou-se, paralelamente, ao fenecer das virtudes. Desaparecem o altruísmo, o destemor, a coragem, a modéstia e humildade. O que transparece em seu lugar? o exibicionismo, o pavonismo, a autopromoção, a necessidade de aparecer e de extasiar platéias tomou conta de muitos. Mas a verdade é que todo o marketing não consegue esconder, em muitos casos, a ausência de talento e de sinceridade.

Ocupar as mídias, ter milhares de seguidores, ser ouvido a respeito de tudo ou quase tudo não garante fidelização autêntica. No sentido de obtenção de um verdadeiro séquito dos que se apoiam nos valores e não na propaganda que os pretensos virtuosos fazem deles.

Há um texto de George Elliot que suscita reflexão: “o crescente bem do mundo depende parcialmente de atos não-históricos; e se as coisas não são tão ruins para você e para mim quanto poderiam ter sido, deve-se em parte aos tantos que viveram fielmente uma vida oculta e hoje descansam em túmulos não visitados”.

Quantas epopeias anônimas ocultam paradigmas para uma juventude sem modelos confiáveis? Espantoso o esquecimento célere das figuras cuja existência foi uma lição de civismo, de altruísmo, de excelente conduta e de um padrão ético a ser perfilhado. Enquanto isso, a tão criticada “tática das homenagens” é a prova cabal da superficialidade que impregna a vida coletiva em certos setores. Homenageia-se o cargo, a função, o posto, a medida da autoridade. A pessoa vale pouco. É a velha história do burro que carrega relíquias. Assim que ele já não está na procissão, é tratado exatamente como os demais jumentos. A chicote e a pontapés. A história brasileira recente é pródiga de episódios assim. Mas a corriola está intacta, atrás do novo transitório ocupante da posição que merece o hipócrita servilismo.

A maior parte da sociedade, aquela desprovida de postos de realce, é objeto de desrespeito. A falta de respeito para com milhões de seres humanos não decorre simplesmente por serem pobres, velhos ou doentes. Para Richard Sennet, em seu livro por sinal chamado “Respeito”, “a sociedade moderna carece de expressões positivas de respeito e reconhecimento pelos outros”.

A falta de respeito é menos agressiva do que o insulto direto. Mas não deixa de ser ofensiva. Como devem se sentir os “invisíveis” que a pandemia escancarou no Brasil?

No Brasil iletrado, e não estou a contemplar os que foram subtraídos a uma educação de qualidade, mas penso naqueles que, escolarizados, assim se comportam, há uma generalizada escassez de respeito. Como se não houvesse, diz Sennet, o bastante desta preciosa substância para todos. Como muitas formas de escassez esta é produzida pelo homem; ao contrário do alimento, o respeito nada custa. Por que motivo, então, há essa profunda crise de oferta?

A existência de moradores de rua, de “comunidades”, eufemismo com que hoje se denomina a favela, de cortiços, de submoradias, é resultado evidente da falta de respeito. Assim como o planejamento e a execução de política habitacional que edifica os conjuntos de frágeis residências como pombais. Casinhas iguais, todas desprovidas de jardim e de horta ou pomar, a velha ideia de quintal. Onde, aparentemente, se propugna a identidade entre desiguais.

Numa nação que teve Niemayer, é indigno oferecer esses conglomerados de casinhas todas iguais. Pode não ser encarado dessa forma, porém é falta de respeito. A sociologia se serve de muitos sinônimos para definir respeito. É algo pertencente à ideia de status, prestígio, reconhecimento, honra e dignidade.

Tais conceitos abstratos traduzem opções que a civilização levou séculos para elaborar e absorver. Mas que estão sendo olvidados e cujo vácuo logo é preenchido por posturas impróprias a um ser que se considera racional e perfectível.

Impõe-se a quem não perdeu lucidez e sensibilidade procurar devolver ao convívio a noção singela, mas imprescindível, de respeito para com todos os viventes. A alternativa é a barbárie, talvez mais próxima do que suspeitaríamos.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2019-2020

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