‘Onde está a minha Pajero?’

‘Onde está a minha Pajero?’

Ex-genro de Roberto Jefferson, deputado estadual do Rio Marcus Vinicius ‘Neskau’ (foto), caiu no grampo da Operação Furna da Onça sob suspeita de mensalinho de R$ 50 mil e não demonstrou 'surpresa ou apreensão’ ao ser informado que era alvo de mandado de prisão

Julia Affonso

06 Dezembro 2018 | 15h49

Deputado Marcus Vinicius. Foto: Alerj

Grampo da Polícia Federal em 8 de novembro, dia em que foi aberta a Operação Furna da Onça, aponta que o deputado estadual Marcus Vinicius ‘Neskau’ (PTB), da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj), suspeito de receber mensalinho de R$ 50 mil, recebeu a notícia de sua prisão por um homem que lhe telefonou às 8h16. ‘Neskau’ é ex-genro do presidente do PTB, Roberto Jefferson, e foi reeleito em 2018.

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O interlocutor foi identificado pela Furna da Onça como ‘Lindolfo’. No início da conversa, ele avisou ‘Neskau’: ‘Saiu o seu mandado de prisão’.

“É mesmo, é?”, perguntou o deputado.

“Estão na Alerj, já estão mexendo em tudo. Você está nessa. Eu estou aqui com a Marcinha que eu fiquei preocupado com o seu pai”, relatou o interlocutor.

“Onde está a minha Pajero?”, quis saber ‘Neskau’.

“Sua Pajero está no mecânico”, informou ‘Lindolfo’.

“Onde é o endereço?”, questionou o deputado.

“No Carangola”, disse o homem. “Endereço e rua eu não sei. Sua casa está lotada de repórter na porta lá.”

“Eu preciso do endereço”, insistiu ‘Neskau’.

“Subiu o carangola como se fosse para o sertão do carangola, passou a salvine vai ter a entrada à direita … à esquerda para ir para o sertão”, explicou o interlocutor.

“Liga para o fortão e pergunta o endereço para passar para o Luciano ir lá. Tem alguma coisa minha dentro do carro”, disse o deputado.

“Não. Que eu saiba não. Tem nada”, afirmou ‘Lindolfo’.

Na avaliação do Ministério Público Federal, o deputado ‘tinha conhecimento prévio das investigações’. Segundo os investigadores, dois veículos foram apreendidos no Rio e em Petrópolis, cidade-base eleitoral do parlamentar, nenhum ‘confere com aquele descrito ao telefone’ e os ‘ambos estavam em nome de terceiros’.

“É o que se extrai logo do começo da conversa, notadamente quando seu interlocutor menciona “[e]u falei do mandado de prisão”, ao que o alvo responde sem qualquer surpresa ou apreensão, centrando-se apenas na localização de um veículo específico, no interior do qual o deputado estadual diz poder haver coisas de interesse”, relata a Procuradoria da República.

COM A PALAVRA, A DEFESA DO DEPUTADO MARCUS NESKAU

A defesa do deputado Marcus Vinícius Neskau (PTB) ressalta que a referida interceptação faz referência a uma ligação ocorrida às 8h16 da manhã quando o deputado já estava preso e sob responsabilidade dos policiais federais, inclusive com os aparelhos celulares apreendidos, não podendo dessa forma aparentar surpresa em relação à informação. Todas as operações da Polícia Federal ocorreram às 6h, concomitantemente, em todos os endereços, e os próprios veículos de comunicação começaram a noticiar os mandados de prisão às 6h21, inclusive o portal de notícias G1 (às 6h27) e TVs transmitindo ao vivo.

Durante a conversa, o deputado pergunta a seu assessor onde estaria o veículo justamente para indicar aos policiais a localização do mesmo pois havia sido questionado sobre o carro. Não há dúvidas de que a própria ligação estava no modo viva voz, uma vez que o deputado questiona ao assessor se havia algum pertence pessoal dentro do veículo e ele próprio responde ao agente da polícia federal, dizendo “que ele saiba não, chefe”.

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