Onde está a empatia?

Onde está a empatia?

Mara Gabrilli*

26 de fevereiro de 2019 | 13h00

Mara Gabrilli. FOTO: DIDA SAMPAIO/ESTADÃO

Olhar para o rosto desconfigurado da paisagista Elaine Caparroz causa dor. Uma dor que não é física, mas desconcerta. Ela se transmuta em revolta, tristeza, sensação de impotência. Ela vem com uma vergonha retumbante por viver em um dos países que mais matam mulher no mundo. E ela piora quando vem acompanhada de certas falas.

São falas machistas – muitas inclusive proclamadas por mulheres. Aquelas que ainda não conseguiram sair de um lugar ao qual foram condicionadas a estar desde que a sociedade se compôs. Nesse lugar, acreditem, a mulher é culpada por ser vítima. Sempre.

Elaine foi espancada durante quatro horas pelo estudante de direito Vinicius Batista Serra. Ela teve várias fraturas no rosto, perdeu dentes, levou 40 pontos na boca. Para muita gente, no entanto, o ocorrido não passou de uma tragédia anunciada – facilmente evitada pela vítima se fosse ela uma “mulher correta”.

Afinal, quem mandou querer sair com um homem mais novo? Quem mandou sair com gente de aplicativo? Quem mandou ir para a casa no primeiro encontro? Quem mandou, em algum momento desejar, assim como um homem, fazer sexo?

Quando achamos que a violência contra a mulher no Brasil já tomou escalas insonháveis, com mulheres sendo espancadas e arremessadas pela janela, vimos que o buraco é ainda mais embaixo, quando – por razões completamente distorcidas e carregadas de machismos – parte da sociedade acaba chancelando tais crimes.

Por que ainda parece tão distante para algumas mulheres se colocarem no lugar de outras? A reposta é simples. Porque assim fomos educadas a ser.

No ano passado, a Lei Maria da Penha completou 12 anos e é considerada pela ONU uma das três melhores legislações do mundo no combate à violência contra a mulher, ficando atrás apenas das Leis do Chile e da Espanha, a primeira colocada. Mas além de Leis, precisamos buscar formas de despertar a consciência de quem comete o crime. Só assim geramos empatia para que o homem não volte a cometer delitos.

Aliás, nesses dias em que celebraremos o carnaval e também o Dia Internacional da Mulher, teremos momentos bem oportunos para refletirmos sobre isso na prática.

Entre festas e bloquinhos, a falsa sensação de que tudo é permitido faz da mulher alvo dos mais diversos tipos de abuso que chegam camuflados pela desculpa da diversão.

Reconhecer esse tipo de comportamento, seja ele praticado contra nós ou contra uma ou um de nós, é o primeiro passo para alcançarmos uma sociedade menos sexista e violenta.

Muito além da sororidade há palavras bem mais simples e que muitos de nós brasileiros ainda desconhecemos. Empatia é uma delas.

Militante ou não do movimento feminista, homem ou mulher, neste Carnaval, espero que você faça o exercício de se colocar no lugar do outro, porque no nosso bloco abuso nenhum será permitido.

*Mara Gabrilli, senadora (PSDB-SP), publicitária, psicóloga, foi secretária da Pessoa com Deficiência da capital paulista e vereadora por São Paulo. Em 1997, após sofrer um acidente de carro que a deixou tetraplégica, fundou uma ONG para apoiar o paradesporto, fomentar pesquisas cientificas e promover a inclusão social em comunidades carentes

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