Olimpíada livrou Mantega de ir mais cedo para a prisão

Olimpíada livrou Mantega de ir mais cedo para a prisão

Procuradoria pediu a captura do ex-ministro da Fazenda em julho, juiz decretou em agosto, mas efetivos da Polícia Federal estavam mobilizados para Jogos do Rio

Ricardo Brandt, Julia Affonso e Mateus Coutinho

22 de setembro de 2016 | 12h11

olimpiada

Guido Mantega poderia ter sido preso já em agosto, quando o juiz federal Sérgio Moro, acolhendo representação da Procuradoria da República, decretou a captura do ex-ministro da Fazenda.

A força-tarefa da Arquivo X, 34.ª fase da Operação Lava Jato, requereu a prisão preventiva de Mantega em julho. No dia 16 de agosto, Moro mandou prender o ex-ministro em caráter temporário, por cinco dias.

Mas a grande mobilização dos quadros da Polícia Federal para os Jogos Olímpicos não permitiu a execução da Arquivo X, que acabou adiada para esta quinta, 22 – um quadro de 180 policiais federais foi às ruas em cinco Estados e no Distrito Federal.

O procurador regional da República Carlos Lima, que integra a força-tarefa da Lava Jato, classificou de ‘infortúnio’, o fato de a PF localizar o alvo maior da Arquivo X no Hospital Albert Einstein.

Mantega foi ao hospital ainda de madrugada para acompanhar uma cirurgia a que estava sendo submetida sua mulher.

“Infelizmente, situações e coincidências como esta são tristes, mas não há como não se cumprir uma ordem judicial”, disse Carlos Lima. “Que se deixe claro que esse pedido do Ministério Público Federal ocorreu em julho de 2016. A decisão é de agosto 2016. Só não foi cumprida (a ordem de prisão) por circunstâncias operacionais em decorrência da Olimpíada. O evento no hospital foi uma coincidência infeliz, apenas.”

O delegado da PF Igor Romário de Paula destacou que a equipe encarregada de capturar o ex-ministro desconhecia os problemas de saúde da mulher de Mantega.

O delegado esclareceu que os federais chegaram ao apartamento de Mantega e ali encontraram a empregada e um filho do ex-ministro, de 16 anos.

“Tomamos conhecimento que o ministro estava no hospital (Albert Einstein), por isso, inicialmente, as buscas no apartamento não foram realizadas. Parte da equipe foi ao hospital.”

Igor Romário afirmou. “O ministro não estava no centro cirúrgico. Ele estava aguardando na entrada (do hospital). Desceu na portaria, saiu por uma lateral do hospital para não ter nenhum tumulto, tranquilamente acompanhou a equipe.”

Segundo o delegado, Mantega acompanhou a equipe ao apartamento na rua Leão Coroado, no Alto de Pinheiros, onde reside o ex-ministro. “Terminando a busca no apartamento, discretamente ele (Mantega) foi encaminhado à Superintendência (da PF) em São Paulo. Posso assegurar que não houve entrada de policiais no hospital, ainda mais no centro cirúrgico para retirar o ministro. O ministro não estava no centro cirúrgico. Prova disso é que atendeu o telefone duas vezes para falar com a equipe de policiais.”

COM A PALAVRA, A ASSESSORIA DO PT:

O presidente nacional do PT, Rui Falcão, afirmou nesta quinta-feira de manhã que a prisão do ex-ministro Guido Mantega é “arbitrária, desumana e desnecessária”. De acordo com ele, a 34ª fase da Operação Lava Jato, denominada Arquivo X, deveria se chamar “Operação Boca de Urna”, uma vez que acontece às vésperas das eleições municipais. Falcão lembrou que Mantega é ex-ministro, tem endereço fixo e nunca se negou a dar esclarecimentos, sendo assim midiática a prisão em um hospital.

Na opinião do presidente do PT há também um “excesso de coincidências” nas ações da Lava Jato. Além da proximidade das eleições para a deflagração da nova fase, ele citou o fato de o juiz Sérgio Moro ter recebido a denúncia contra o ex-presidente Lula anteontem (20/9), no mesmo dia em que Lula realizava uma teleconferência no lançamento da campanha “Stand With Lula” (Eu defendo Lula) organizada pela Confederação Sindical Internacional (UTC/CSI) em Nova York.

Sobre as suposições apresentadas hoje, de que haveriam repasses de verbas para o PT, a resposta do Partido dos Trabalhadores é a seguinte:

“O PT refuta as ilações apresentadas. Todas as operações financeiras do partido foram realizadas estritamente dentro dos parâmetros legais e posteriormente declaradas à Justiça Eleitoral.”

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.