Olavismo e metafísica com política no governo Bolsonaro

Olavismo e metafísica com política no governo Bolsonaro

Nicolau Maluf Jr.*

10 de junho de 2019 | 13h11

Nicolau Maluf. Foto: Arquivo Pessoal

É evidente a influência de Olavo de Carvalho no governo Bolsonaro, e há uma dificuldade dos analistas políticos em delinear o seu cerne e, principalmente, como vai ao encontro dos anseios dos eleitores e atuais apoiadores. E embora exista consciência da onda de crescimento do populismo de direita no mundo ocidental como um todo, essa consciência tem-se limitado a apontar lugares comuns tais como a decepção com os políticos e a insegurança geral, fruto da globalização, como razões.

O globalismo tem sido seguidamente apontado como um inimigo – vendo neste um projeto comunista – mas pouco merece atenção e análises o discurso em defesa do cristianismo – que estaria sob ameaça – e da cultura ocidental.

Portanto, os entendimentos de cunho sócio-político e econômico tem sido insuficientes e deixado em muito a desejar.

Uma abordagem da cepa sócio- psicanalítica alcança o que não se pode acessar antes: A ameaça vista à cultura ocidental evidencia que “cultura” é sinônimo de identidade, e, nesse sentido, é profícuo examinar a interface entre a ameaça à identidade social com a ameaça à identidade pessoal, ou psíquica.

Explicando melhor, o animal humano é o único que teme dois tipos de morte, não somente uma: A morte por ameaça à sua integridade física, e a “morte” por ameaça à sua existência psíquica, o “ficar louco”, ou “perder o controle”, ambos vividos como ameaças de morte. Uma desordem emocional bem conhecida, a desordem do Pânico, exemplifica de maneira clara uma ameaça do segundo tipo.

A tríade de autores que utilizo como apoio inclui W. Reich, no campo psicanalítico e sociológico e seu conceito de caráter, Bauman, sociólogo e filósofo e seus escritos sobre a modernidade e Anthony Giddens, sociólogo inglês de destaque e seus escritos sobre o EU.

Desta composição surge que a receptividade ao Olavismo e o Bolsonarismo, assim como o populismo de direita, são reações esperadas contra o que se apresenta, num plano psicológico, como ameaças ao EGO numa escala individual.

O comunismo não é uma ideologia, é uma cultura – Olavo de Carvalho

Esse é um insight interessante e merece um contraponto que enfraquece a sua efetividade: o fascismo também é uma cultura. Isso quer dizer que as ideologias, quando adotadas pelos seguidores, o são por razões emocionais, não somente por razões filosóficas ou de outras ordens. Dito de outra maneira, W. Reich esclareceu que os modos de ser no mundo guardam estreita relação com o psiquismo individual e sua economia libidinal. Não se faz “doutrinação” de alguém, é a doutrina que encontra terreno fértil nesse ou aquele arranjo emocional, que, por sua vez, reproduz no seio familiar e social esse modo de ser.

Anthony Giddens, o mais importante sociólogo inglês do nosso tempo, foi um dos primeiros a ocupar-se da globalização e suas consequências, em especial, das ameaças ao EU na modernidade. Giddens também analisa o EU – como sinônimo de identidade – enraizando-o na visão psicanalítica sobre o psiquismo, e sua formação. Ou seja, o conceito de identidade evocado por ele supera o do sujeito da razão e da consciência.

A modernidade e o desenvolvimento tecnológico resultaram na dissolução dos territórios de confiança pré-existentes: a comunidade, as relações de parentesco, a tradição e as cosmologias religiosas. Mais do que isolado e solitário, no sentido tradicional, o individuo na atualidade encontrar-se-ia num estado de desamparo, de não-pertencimento. E seria esperado dele – pelo conjunto dos processos sociais -, que se adapte e deseje! Justamente essa condição.

Bauman, outro autor que tem se ocupado das questões da modernidade e identidade, permite um recorte esclarecedor:

Uma identidade coesa, firmemente fixada e solidamente construída seria um fardo, uma repressão, uma limitação na capacidade de escola (…) seria uma receita de inflexibilidade, ou seja, essa condição seria o tempo todo execrada e condenada por quase todas as autoridades do momento, seja elas genuínas ou supostas, nos meios de comunicação em massa e os doutos especialistas em problemas humanos.(BAUMAN, 2004, p.60)

Não é difícil ver como a esquerda, com sua pauta identitária é compreensivamente reconhecida como o agente promotor das instabilidades .

A globalização, por estilhaçar todas as identidades, é o fator aglutinador de tudo o que é visto como ameaçador.

O termo “conservador”, frequentemente utilizado para nomear aquele que apoia e estimula o populismo de direita, mostra-se equivocado. Conservador não é sinônimo de reacionário. O conservador luta pela manutenção dos valores, e não para extinguir os dos outros diferentes. Cabe ao eleitor elencar qual predomina no Brasil atual.

*Nicolau Maluf Jr. Psicólogo, Analista Reichiano, Doutor em História das Ciências e Epistemologia pelo HCTE/UFRJ. Coordenador do IFP- REICH. nicolaumalufjr@gmail.com

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