Ódio aos livros

Ódio aos livros

José Renato Nalini*

22 de agosto de 2020 | 07h00

José Renato Nalini. FOTO: WERTHER SANTANA/ESTADÃO

Não é difícil explicar o motivo pelo qual exista quem odeie livros. Os livros são mágicos. São transformadores. Podem operar o milagre de converter o leitor num pensador que raciocine. E isso é deveras perigoso.

No momento em que se propaga mais uma péssima nova: os livros sofrem um ataque mortal no Brasil, é importante lembrar de Ray Douglas Bradbury (2020-2012). O escritor, que completaria um centenário exatamente neste 22 de agosto, escreveu “Fahrenheit 451”, cujo enredo era, em síntese, o passatempo de lançar livros à fogueira convertido em cruzada governamental.

Bradbury se compenetrara de que havia razão forte para tornar os livros um objeto de ódio: “Então, vê agora por que os livros são tão odiados e temidos? Eles mostram os poros no rosto da vida. As pessoas acomodadas só querem rostos de cera, sem poros, sem pelos, sem expressão”. Nada comparável às faces anestesiadas, inertes e embasbacadas, enxergando fantasias na fantasmagórica vida real destes tempos. Refletir impede o cultivo do delírio. É preciso evitar os riscos da reflexão e, portanto, vede-se o acesso aos livros.

O livro é muito perigoso, porque modifica o leitor. Faz com que ele desvende os mistérios da existência e consiga analisar melhor o que realmente interessa para a edificação de um convívio cooperativo entre as pessoas. Aguça a percepção de finitude e fragilidade. O animal racional é uma realidade complexa e mutável. Reage às influências que passam a habitar sua consciência. Para Bradbury, o diagnóstico foi muito claro: “Nós somos todos constituídos de bocados, de extratos de história, de literatura, de direito internacional. (…) E se nos perguntarem o que fazemos, podeis responder: ‘Recordamo-nos’”. Somos um relato pronto das leituras que fizemos, daquilo que assimilamos com esses nossos amigos silentes, mas eloquentes: os livros. Estes guardam potencial explosivo: podemos reconhecer tragédias passadas em sintomas contemporâneos. Isso tem o potencial de ameaçar o sistema.

Mas os livros existem exatamente para nos provocar. Devem fazer com que ajamos para aprimorar o convívio, já que somos todos efêmeros e vulneráveis. Enfatizam a ideia de pertencimento e geram a intenção de unir propósitos e mudar as regras do jogo. Todos os livros são capazes de pequenas revoluções interiores.  Não adoto a nomenclatura “auto-ajuda”: penso que todos os livros que lemos devem nos ajudar em algo. Se em vez de ajudar nos atrapalham, por que lê-los? O autor de Fahrenheit 451 queria que o livro fosse o motor da mutação do mundo. Ele precisaria causar uma disrupção no modo de enxergar as coisas. Quando isso não acontecesse, era o caso de se indagar: “Será porque estamos nos divertindo tanto em casa que nos esquecemos do mundo? Será porque somos tão ricos e o resto do mundo tão pobre e simplesmente não damos a mínima para sua pobreza? Tenho ouvido rumores; o mundo está passando fome, mas nós estamos bem alimentados. Será verdade que o mundo trabalha duro enquanto nós brincamos? Será por isso que somos tão odiados? Ouvi rumores sobre o ódio, também, esporadicamente ao longo dos anos. Você sabe por que? Eu não, com certeza que não! Talvez os livros possam nos tirar um pouco dessas trevas. Ao menos poderiam nos impedir de cometer os mesmos malditos erros malucos!”

Transporte-se o texto para estes dias. Mais de cem mil mortos, a caminho de outras centenas, pois o ritmo é de mil óbitos a cada vinte e quatro horas. Os biomas se incendiando e sendo degradados. Metáfora com a queima dos livros retratada em Fahrenheit 451. E nós? O que fazemos?

A quem restar discernimento, não é difícil perceber os erros malucos reiteradamente cometidos. A falta de leitura impinge o castigo merecido: repetir aquilo que causou infelicidade, afastando cada vez mais o ser racional da vocação à perfectibilidade. Investe-se no caminho inverso: o da mediocridade. Distrai-se a população com fake News, com gossips, com boatos, se possível com doses crescentes de sarcasmo, até que a ira irônica se metamorfoseie em ódio. Estratégia intuída por Bradbury: “ […] Se não quiser um homem politicamente infeliz, não lhe dê os dois lados de uma questão para resolver; dê lhe apenas um. Melhor ainda, não lhe dê nenhum. Deixe que ele se esqueça de que há uma coisa como a guerra. Se o governo é ineficiente, despótico e avido por impostos, melhor que ele seja tudo isso do que as pessoas se preocuparem com isso. … Promova concursos em que vençam as pessoas que se lembrarem das letras das canções mais populares ou dos nomes das capitais dos estados ou de quanto foi a safra de milho do ano anterior. Encha as pessoas com dados incombustíveis, entupa-os com “fatos” que elas se sintam empanzinadas, mas absolutamente “brilhantes” quanto a informações. Assim elas imaginarão que estão pensando, terão uma sensação de movimento sem sair do lugar. E ficarão felizes, porque fatos dessa ordem não mudam. Não as coloque em terreno movediço, como filosofia ou sociologia, com que comparar suas experiências. Aí reside melancolia. Todo homem capaz de desmontar um telão de tv e monta-lo novamente, e a maioria consegue, hoje em dia está mais feliz do que qualquer outro homem que tenta usar a régua de cálculo, medir e comparar o universo, que simplesmente não será medido ou comparado sem que o homem se sinta bestial e solitário”.

Há uma lógica em tornar impossível a disseminação da leitura. Quem não lê, não pensa, não analisa, não vê. A cegueira e a estupidez são amigas fidelíssimas da inércia. A inércia permite que as coisas continuem como estão. Rumo ao caos? Fique certo de que tudo está programado e alguém ganhará com isso.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2019-2020

Tudo o que sabemos sobre:

Artigo

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: