‘Odebrecht pagava propina para garantir seus interesses junto a qualquer governo’, diz delegado da PF

‘Odebrecht pagava propina para garantir seus interesses junto a qualquer governo’, diz delegado da PF

Filipe Hille Pace, que prendeu ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci na Operação Omertà, sustenta em relatório que conduta da maior empreiteira do País confirma que 'corrupção era e é multipartidária e sistêmica'

Mateus Coutinho, Julia Affonso e Fábio Serapião, enviado especial a Curitiba

27 Outubro 2016 | 05h00

Prédio da Odebrecht em São Paulo. Foto: Jf Diório/ Estadão

Prédio da Odebrecht em São Paulo. Foto: Jf Diório/ Estadão

O delegado federal Filipe Hille Pace, da força-tarefa da Lava Jato em Curitiba, acusou a Odebrecht de pagar propinas para obter contratos e ‘garantir seus interesses’ em ‘qualquer governo de qualquer esfera da administração pública’.

Os ataques à empreiteira ocorrem em meio à negociação do maior acordo de delação premiada entre a Procuradoria-Geral da República e dezenas de executivos da Odebrecht, incluindo o próprio Marcelo Bahia Odebrecht, presidente afastado do Grupo e na prisão da Lava Jato desde 19 de junho de 2015.

“A Odebrecht pagava propina para consecução de contratos e para garantir seus interesses junto a qualquer governo de qualquer esfera da administração pública, demonstrando-se, assim, novamente, que a corrupção era e é multipartidária e sistêmica”, assinala o delegado no despacho de 289 páginas que indiciou o ex-ministro Antonio Palocci (Fazenda e Casa Civil/Governos Lula e Dilma) e Marcelo Odebrecht, além de outros quatro investigados, por corrupção.

Não é a primeira vez que a Lava Jato em Curitiba aponta a suspeita de vários crimes envolvendo a maior empreiteira do País. No dia em que foi deflagrada a Operação Omertá, em 26 de setembro, a PF abriu um novo inquérito para apurar as suspeitas de irregularidades envolvendo a Odebrecht em 38 obras pelo País. A investigação corre sob segredo de Justiça.

Naquela ocasião, o próprio delegado Filipe Pace disse à imprensa que a operação já tinha um rico conjunto de provas e que o depoimento de Marcelo Odebrecht, preso desde 19 de junho de 2015, não era “imprescindível”.

“Não é imprescindível a palavra do sr. Marcelo Odebrecht em vista da robustez das provas”, afirmou o delegado.

Independente das negociações da Procuradoria-Geral da República com o grupo empresarial, que deve implicar centenas de políticos de vários partidos, a força-tarefa em Curitiba segue avançando nas investigações sobre o ‘departamento de propinas’ da Odebrecht, descoberto pela Lava Jato envolvendo estruturada rede que controlava os pagamentos de valores ilícitos no Brasil e no exterior sob a coordenação da cúpula da empreiteira.