Odebrecht diz que empreiteira ‘botou R$ 40 milhões para demandas de Lula’

Odebrecht diz que empreiteira ‘botou R$ 40 milhões para demandas de Lula’

Empresário delator da Lava Jato afirmou ao juiz Sérgio Moro que combinação foi feita via ex-ministro Palocci, mas que ex-presidente 'nunca pediu' diretamente

Julia Affonso e Ricardo Brandt

12 de abril de 2017 | 13h49

Lula. Foto: Gabriela Biló/Estadão

Lula. Foto: Gabriela Biló/Estadão

O empreiteiro Marcelo Odebrecht, um dos delatores da Operação Lava Jato, afirmou ao juiz federal Sérgio Moro que a empreiteira ‘botou R$ 40 milhões que viriam para atender as demandas que viessem de Lula’. Segundo o delator, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ‘nunca pediu’ diretamente. A combinação, afirmou, foi feita via ex-ministro Antonio Palocci (Governos Lula e Dilma/Fazenda e Casa Civil).

“Tinha um saldo de R$ 40 milhões do que eu tinha combinado com Palocci. O que eu combinei com Palocci foi o seguinte: essa era uma relação minha com a Presidência, o PT. Eu disse: ‘olha, vai mudar o governo, vai entrar a Dilma. Esse saldo passa a ser gerido por ela, a pedido dela’. Eu combinei com Palocci. A gente sabia que ia ter demandas de Lula, a questão do Instituto, para outras coisas. Vamos pegar e provisionar uma parte deste saldo e aí botamos R$ 35 milhões num saldo amigo, que é Lula, para uso que fosse orientação de Lula”, declarou.

O delator prosseguiu. “A gente entendia que Lula ainda ia ter influência no PT. Como era uma relação nossa com a Presidência, PT, tudo se misturava. A gente botou R$ 40 milhões que viriam para atender as demandas que viessem de Lula. Eu sei disso. O Lula nunca me pediu diretamente. Essa informação eu combinei via Palocci.”

Segundo Marcelo Odebrecht, no entanto, houve duas situações em que ele identificou que Lula saberia do ‘saldo amigo’.

“Óbvio que ao longo de alguns usos, ficou claro que era realmente por Lula, porque teve alguns usos que ficou evidente para mim que era o uso. Teve alguns que o pedido era feito e saía via espécie. O Palocci pedia para descontar do saldo amigo. Quando ele pedia para eu descontar do saldo amigo, eu sabia que ele estava se referindo a Lula, mas eu não tinha como comprovar”, disse.

Odebrecht explicou. “As duas únicas comprovações que eu teria de que Lula de certo modo tinha um conhecimento dessa provisão foi quando veio o pedido para compra do terreno do Instituto IL, que eu não consigo me lembrar se foi via Paulo Okamotto ou via Bumlai. Com certeza foi um dos dois e depois eu falei com os dois. Eu deixei bem claro que se eu fosse comprar o terreno sairia do valor provisionado. A gente comprou o terreno, saiu do valor provisionado e depois o terreno acabou… A gente vendeu o terreno e voltou a creditar.”

O empreiteiro delator disse ainda. “E teve também, faz parte da minha colaboração, uma doação para o Instituto Lula em 2014 que saiu do saldo ‘amigo’. São as únicas duas coisas que eu consigo dizer. O resto, essa informação vinha do Palocci, quando ele pedia para Brani pegar o dinheiro em espécie. Ele dizia: ‘Olha, era para abater do saldo ‘amigo’ ou do saldo ‘Itália’ que era gerido por ele’. “

Odebrecht falou ainda sobre o Instituto Lula. “O prédio IL foi aquele pedido que eu comentei com o sr.  Em meados de 2010, o Paulo Okamotto ou o Bumlai, um dos dois, fez o primeiro approach. Mas depois eu conversei com os dois. Veio dizer que o Bumlai e Roberto Teixeira tinham fechado um terreno que queriam que fosse a futura sede do Instituto Lula. Queriam que a gente comprasse o terreno e doasse. Eu tinha acertado o valor que em tese era para ser doado todo. Vocês não querem, vocês ficam pedindo aos poucos. Se arrancar do provisionamento que eu tenho com Palocci, tudo bem. Mas eu tenho que pegar autorização dele. Eu fui em Palocci e disse: ‘Palocci, pessoal tá querendo Instituto. Tem autorização sua para usar esses recursos no IL?’. Ele disse que sim. Eu fiz a transação, a gente comprou o terreno. Eu pedi a um amigo meu que prestava serviço para a empresa, de confiança, ele comprou o terreno no nome da empresa dele. Depois não andou em frente. Uma empresa nossa imobiliária acabou comprando o terreno para um empreendimento imobiliário. Depois não teve interesse. Eles resolveram comprar e depois desistiram. Foi feito um débito e lá na frente um crédito ao saldo Amigo”, afirmou Marcelo Odebrecht.

COM A PALAVRA, O ADVOGADO DE LULA

A imprensa dedicou hoje (12/4/2017) inúmeras manchetes às delações que o Ministério Público Federal negociou com executivos do Grupo Odebrecht e, como tem ocorrido, o ex-Presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi o destaque da maioria delas. O vazamento ilegal e sensacionalista das delações, nos trechos a ele referentes, apenas reforça o objetivo espúrio pretendido pelos agentes envolvidos: manchar a imagem de Lula e comprometer sua reputação. Mas o que emergiu das delações, ao contrário do que fez transparecer esse esforço midiático, é a inocência de Lula – ele não praticou nenhum crime.

É nítido que a Força Tarefa só obteve dos delatores acusações frívolas, pela ausência total de qualquer materialidade. O que há são falas, suposições e ilações – e nenhuma prova. As fantasiosas condutas a ele atribuídas não configuram crime.

Desde 4 de março de 2016. o ex-Presidente passou a ser vítima direta de sucessivas ilegalidades e arbitrariedades praticadas no âmbito da Operação Lava Jato para destruir sua trajetória, construída em mais de 40 anos de vida pública. Lula já foi submetido à privação da liberdade sem previsão legal; buscas e apreensões; interceptações telefônicas de suas conversas privadas e divulgação do material obtido; e levantamento dos sigilos bancário e fiscal, dentre outras medidas invasivas.

A despeito de não haver provas, o ex-Presidente foi formalmente acusado, apenas com base em “convicções”. Depois de 24 audiências em Curitiba e a oitiva de 73 testemunhas apenas em um dos processos, salta aos olhos a inocência de Lula. Ao final dessa nova onda, o que sobrará é o mesmo desfecho melancólico vivido pelo senador cassado Delcídio do Amaral: caíram por terra suas teses. Delcídio aceitou acusar o ex-Presidente em troca da sua liberdade e depois foi desmentido por testemunhas ouvidas em juízo, quando então não podiam mentir.

Cristiano Zanin Martins

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