Obsessão pelo corpo perfeito e o desenvolvimento de transtornos alimentares (TA)

Obsessão pelo corpo perfeito e o desenvolvimento de transtornos alimentares (TA)

Larissa Cerqueira*

22 de maio de 2022 | 03h00

Larissa Cerqueira. FOTO: DIVULGAÇÃO

É impossível negar a influência que os padrões estéticos da sociedade, mesmo que variáveis, nunca estiveram tão veiculados pela mídia. Hoje em dia as redes sociais são uma forma calorosa de propaganda e, por isso, tudo que for disseminado por ali ganha tanta força que se torna a base, “o modelo que devemos seguir”.

Não seria diferente com as imagens e o que representa um corpo perfeito. A ideia não é a busca por um bem-estar físico e psicológico, se assim o fosse, não haveria um estímulo tamanho para divulgar dietas da moda, frequentemente rigorosas, procedimentos estéticos, assim como exercícios intensos intimamente ligados às transformações corporais, desconsiderando as necessidades e condições de saúde individuais.

É nesse contexto que se precipitam os distúrbios alimentares, pois diante de corpos tão distantes da realidade da maioria esmagadora da população, se vende a possibilidade (mesmo que remota) que o caminho é seguir um estilo de vida que inclui uma dieta restrita e dita saudável. É importante salientar que nem toda dieta (padrão alimentar por definição) gera um transtorno alimentar, embora todo transtorno alimentar se inicie com uma “dieta”.

E por quê a venda do corpo perfeito causa tanto frisson? É um motivo que abarca o emocional humano. O senso comum acredita que para ser aceito mais facilmente pela sociedade, alcançar felicidade e bem-estar, o sujeito deveria se encaixar no padrão de beleza que vigora. Este contaria com um atalho, um trampolim social. Infelizmente, uma vez desenvolvendo transtornos alimentares mais angústia, mal-estar e infelicidade essa pessoa estaria provando. As mulheres (19 entre 20 pessoas diagnosticadas com TA) lideram essa estatística dentre os transtornos alimentares clássicos que são a compulsão alimentar, anorexia e bulimia.

Há ainda novos potenciais transtornos de imagem estudados como a vigorexia (transtorno dismórfico corporal predominantemente masculino) quando a pessoa adquire uma visão totalmente negativa do seu corpo, realizando além de dietas, exercícios extremamente excessivos, usando medicamentos somente a fim de atingir o corpo musculoso dos sonhos.

Fato é que a imagem corporal é um processo multidimensional ligado à autoconfiança, autoestima e estabilidade emocional do indivíduo, porém que está em constante mudança. As transformações às quais os sujeitos estão expostos mudam diretamente sua percepção sobre si e seu corpo. Vinculada, prioritariamente, às experiências, atitudes e sentimentos, a imagem corporal é altamente influenciada pela sociedade, família e amigos, principalmente durante a infância e adolescência.

Pessoas que apresentam insatisfação corporal (IC) estão mais propensas a desenvolver transtorno alimentar (TA) e o público feminino apresenta maiores percentuais de IC devido à elevada histórica cobrança social e a contemporânea exigência do mundo da estética, do fitness e da almejada performance. Quando o comer com qualidade e prazer é substituído pelo comer somente o quê “está no controle”, a relação corpo-alimento-comportamento torna-se extrema, patológica, distorcida e até mórbida.

Infelizmente poucos profissionais de “saúde” e, frequentemente, nutricionistas se sensibilizam com sinais de pacientes comendo e se exercitando de forma transtornada, até porque muitos deles deliberadamente os incentivam a perseguir mudanças corporais violentas. O irônico é que grande parte dos nutricionistas que vivenciam o mundo da estética, fitness também estão em risco de desenvolverem esses transtornos, ou até já os desenvolveram.

Costumo dizer aos meus pacientes que o corpo perfeito é aquele que está vivo, é aquele que os abriga e que se transforma todos os dias. Todo corpo merece ser visto, nutrido, respeitado, amado e honrado em todas as fases da vida.

*Larissa Cerqueira é nutricionista pela Universidade de Brasília (UnB), pós-graduada em Nutrição Esportiva, Musculação e Treinamento de força e pós-graduanda em Comportamento Alimentar

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