Obesidade: é preciso cuidar de todas as formas

Obesidade: é preciso cuidar de todas as formas

Maria Edna de Melo*

02 de março de 2021 | 06h30

Maria Edna de Melo. FOTO: DIVULGAÇÃO

O excesso de gordura corporal leva a prejuízos à saúde. Para estimar esse excesso e diagnosticar obesidade é calculado o índice de massa corporal (IMC): peso(kg)/altura(m)2. Este índice não é perfeito, mas ainda é o melhor para uso populacional. Fato incontestável é que, a cada ano, a frequência de pessoas com excesso de peso aumenta. No Brasil, a Pesquisa Nacional de Saúde realizada em 2019 documentou que 60,3% dos adultos estão com excesso de peso e 25,9% têm diagnóstico de obesidade. Em crianças e adolescentes, os números também crescem e, atualmente, 19,4% daqueles entre 15 e 17 anos estão acima do peso e 6,9% têm obesidade.  O aumento dessa prevalência é visto em praticamente todos os países do mundo, o que reflete a incapacidade mundial de implementar medidas efetivas de prevenção.

A obesidade é uma doença complexa, multifatorial, crônica e recidivante. As causas que levam uma pessoa a desenvolver obesidade envolvem aspectos genéticos, sociais, alimentares, falta de atividade física, dentre muitos. As causas endócrinas e exclusivamente genéticas da obesidade são raras, sendo essa pandemia de obesidade fruto da exposição de uma população geneticamente vulnerável a um ambiente obesogênico, especialmente no que tange à disponibilidade de alimentos industrializados: de fácil preparo ou já prontos, altamente palatáveis e de baixo custo. Isso pode ser um sonho para muitas donas de casa, mas, na realidade é um pesadelo para a saúde, pois geralmente esses alimentos contêm excesso de gordura, açúcar e/ou sal, o que os torna hiperpalatáveis, sendo quase impossível comer apenas o que necessitamos. As pessoas com obesidade cobram de si mesmas uma força de vontade que as façam vencer a própria biologia e o sistema alimentar.

Comer é maravilhoso: a comida nos aproxima, nos traz prazer, recordações boas, nutre o corpo e a alma. Somos moldados biológica e socialmente para comer. A nossa fome é regulada no cérebro, onde circuitos complexos nos fazem comer para obter energia, mas também para obter prazer. E é aqui, no comer por prazer que não conseguimos nos controlar quando expostos à pipoca, sorvete, biscoito recheado, salgadinho… é quase um reflexo, como aquele quando no exame estimulamos o joelho com o martelinho do neurologista. Assim, se os olhos não vêm, o coração não sente e o estômago não pede.

Muitas doenças estão associadas com excesso de peso, desde as clássicas e comumente conhecidas como diabetes melito tipo 2, hipertensão arterial sistêmica e dislipidemia; até as mais mortais como infarto do miocárdio, acidente vascular cerebral e diversos tipos de câncer. Qualquer um dos nossos sistemas pode ser afetado pela obesidade e, claro, ninguém apresenta todas as complicações; elas ocorrem de acordo com a predisposição individual. De uma forma geral, infelizmente, em algum momento, uma ou outra, ou várias, aparecem. Uma das piores complicações que as pessoas com excesso de peso enfrentam é a estigmatização: na família, nos serviços de saúde, na escola, no trabalho, entre amigos, em todo e qualquer lugar e quase que initerruptamente. São olhares, frases “bem intencionadas” (“você precisa fazer uma caminhada”, “feche a boca”, “tenha força de vontade”, “você precisa criar vergonha na cara”), profissionais da educação que exigem que uma criança vista uniforme que não cabe nela; profissionais de saúde que examinam menos as pessoas com obesidade; profissionais de recrutamento das empresas que contratam menos pessoas com obesidade, e quando o fazem, é por salários mais baixos. Sim, a gordofobia existe e, assim como o machismo, a homofobia e o racismo, ela também é estrutural!

Diante da complexidade da obesidade, o tratamento da mesma não é fácil. Embora seja possível perder peso com diversas intervenções, manter a perda de peso em longo prazo é bem difícil. A abordagem estética de alguns profissionais oferecendo milagres em frascos e em falas é uma das vergonhas que a medicina exerce, juntamente com a nutrição, educação física e psicologia. Os cursos de graduação da área da saúde não ensinam sobre obesidade, e isso também ocorre em muitas residências médicas de endocrinologia. Assim, ignorância, ganância e a vasta complexidade da doença compõem a receita perfeita para muitas abordagens inadequadas. De uma forma resumida, a obesidade pode ser controlada com mudanças de estilo de vida sempre e, alguns pacientes podem se beneficiar de uso de medicamentos (como qualquer outra doença crônica) e/ou cirurgia bariátrica. Nenhum tratamento cura a obesidade e ele precisa ser mantido por tempo indeterminado, daí o mesmo deve ser eficaz, seguro e factível de ser seguido.

No atual cenário, os ativistas antigordofobia são essenciais nesse processo de construção de uma sociedade com mais respeito e cuidado adequado das pessoas com obesidade, mas precisamos ficar atentos para que não passemos do ponto e seja feita apologia à obesidade. Afinal, o autocuidado é inerente a autoestima. Perfeição não existe, mesmo para quem está com peso normal e o objetivo do tratamento da obesidade não é a normalização do peso, mas a melhora da saúde global da pessoa e para isso, perder 10% do peso já é suficiente para trazer muitos benefícios a saúde. Sejamos felizes no nosso menor peso saudável possível!

*Maria Edna de Melo, endocrinologista, presidente do Departamento de Obesidade da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia

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