OAB de São Paulo elege Patrícia Vanzolini, primeira mulher a presidir a entidade em 90 anos

OAB de São Paulo elege Patrícia Vanzolini, primeira mulher a presidir a entidade em 90 anos

Com mais de 67 mil votos, criminalista desbancou Caio Augusto Silva dos Santos, que tentava a reeleição para o próximo triênio

Rayssa Motta e Pedro Venceslau

25 de novembro de 2021 | 23h21

Patrícia Vanzolini será a primeira mulher a presidir a OAB-SP. Foto: Divulgação

A Ordem dos Advogados do Brasil em São Paulo (OAB-SP) elegeu nesta quinta-feira, 25, a criminalista Patricia Vanzolini para presidir a entidade no próximo triênio. Ela é a primeira mulher a ocupar o cargo desde a fundação da seccional, em 1932, e se credenciou para o cargo com 67.395 votos.

“Mais do que representar a primeira mulher no comando da maior seccional do País, reconheço o peso da responsabilidade que é reconstruir a OAB com meu compromisso de atuar na defesa intransigente das prerrogativas de todos os advogados e da valorização da profissão, do primeiro ao último dia de meu mandato”, disse em nota após o resultado.

A corrida pela direção da OAB-SP, a maior seccional da Ordem no País, chega ao fim em meio a uma atmosfera beligerante, que durou até as últimas horas de votação e apuração, com acusações de boca de urna irregular e fraude. Os ataques da oposição direcionados ao atual presidente, Caio Augusto Silva dos Santos, que almejava a reeleição, também deram o tom da disputa. Ele liderava a contagem nas primeiras horas de apuração, até que começou a perder vantagem com pouco mais de metade das urnas contabilizadas, terminando em segundo lugar com 61.196 votos.

Patrícia também desbancou os candidatos Alfredo Scaff, Dora Cavalcanti e Mário de Oliveira Filho. “O momento é de união e responsabilidade, com o compromisso de atuar para todos os advogados, independentemente da chapa que eles defenderam neste pleito”, prega a presidente eleita.

Além da disposição para o embate, a eleição interna foi marcada por tentativas dos candidatos de se desvincularem de associações político-partidárias que pudessem rachar sua base de votos. O impeachment do presidente Jair Bolsonaro, abertamente discutido pelo Conselho Federal sob a presidência de Felipe Santa Cruz, foi um tópico evitado pelas campanhas. Desde a redemocratização, a OAB apoiou a destituição dos ex-presidentes Fernando Collor e Dilma Rousseff.

A criminalista desbancou o advogado Caio Augusto Silva dos Santos, candidato à reeleição. Foto: Divulgação

Ao contrário de outras seccionais, a OAB-SP decidiu manter a votação presencial a despeito da pandemia, o que também gerou reação contra a atual gestão. A Comissão Eleitoral preferiu seguir com o padrão adotado em anos anteriores, com urnas eletrônicas inclusive nas subsecções onde que o voto era depositado em cédula, sob o argumento de que o modelo virtual seria arriscado. Cada urna transmitiu o resultado para a sede, na capital paulista, que disponibilizou os votos praticamente em tempo real. Os fiscais das chapa acompanharam a contagem no prédio.

A eleição deste ano é a primeira que as chapas precisaram respeitar a paridade de gênero e a reserva de 30% dos cargos para advogados negros e pardos, seguindo resolução aprovada pelo Conselho Federal. A divisão equilibrada foi apoiada por Patrícia, que chegou a sugerir a ampliação das políticas inclusivas para atender também pessoas com deficiência e LGBTQIA+.

A criminalista ainda trouxe como bandeiras a redução da anuidade, a modernização da seccional e a valorização da classe. No discurso de lançamento da candidatura, ela chegou a dizer que a relação da entidade com os associados chegou ao ‘fundo do poço’ na pandemia.

Saiba o que a presidente eleita da OAB-SP pensa sobre o posicionamento da entidade em relação ao governo federal e as relações partidária na Ordem:

ESTADÃO: Defende o impeachment de Jair Bolsonaro?

Patricia Vanzolini: Há centenas de pedidos de impeachment parados com o presidente da Câmara, que precisam ser processados, discutidos e, garantida a ampla defesa, julgados. Há sérias acusações quanto à gestão da pandemia, muitas delas resultado da CPI do Senado, que precisam ser investigadas em profundidade. Defendemos que é preciso aprimorar as regras do processo de impeachment para evitar que apenas uma pessoa, o Presidente da Câmara, seja responsável pela decisão de seu andamento.

ESTADÃO: Defende que a OAB Nacional assuma em 2022 um posicionamento de isenção ou oposição em relação ao governo Jair Bolsonaro?

Patricia Vanzolini: A OAB deve ter posição idêntica em relação a qualquer governo, independentemente do governante e do partido político: assegurar a continuidade democrática e o Estado de Direito e, portanto, agir contra toda ameaça a esses.

ESTADÃO: Tem o apoio de algum partido político? Tem alguma objeção a participação organizada de partidos na eleição da Ordem?

Patricia Vanzolini: Nosso partido é a advocacia paulista. Nossa chapa é resultado do Movimento 133, exclusivamente formado por advogadas e advogados, criado por nós para trazer a pauta de renovação política para a OAB e distantes da política partidária. Queremos inserir a OAB no debate da renovação política, mas por caminhos próprios e para construir uma OAB moderna e com respeito na sociedade.

ESTADÃO: Tem filiados a partidos políticos na chapa?

Patricia Vanzolini: Somos um grupo amplo e diverso, mas que comunga dos mesmos ideiais e valores para a OAB. Evidente, não cerceamos que advogados tenham filiação partidária, mas não temos apoio formal nem informal de partidos políticos e discordamos que a eleição da OAB seja matéria para posição dos partidos. A OAB de São Paulo tem que voltar a estar nas mãos da advocacia paulista.

Assista a participação da criminalista na entrevista simultânea promovida pelo Estadão na véspera da votação:

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