O WhatsApp pode mudar o rumo das eleições? A ciência comprova que não!

O WhatsApp pode mudar o rumo das eleições? A ciência comprova que não!

Luiz Gaziri*

27 de outubro de 2018 | 07h00

FOTO: THOMAS WHITE/REUTERS

Em 1955, os cientistas americanos Morton Deutsch e Harold Gerard fizeram um experimento que explica por que a preocupação demasiada com as campanhas de fake news por WhatsApp não tem o poder que as pessoas imaginam.

Eles pediram para alguns alunos da New York University adivinharem o comprimento de uma série de linhas, sendo que as pessoas de um grupo deveriam escrever suas estimativas num papel que posteriormente, seria jogado fora.

Um segundo grupo deveria escrever sua estimativa num quadro mágico, de forma privada, e apagá-la logo em seguida.

O último grupo tinha que escrever sua estimativa num papel, assinar seu nome e entregá-la aos pesquisadores. Em seguida, todos os participantes receberam a informação de que suas estimativas estavam erradas e que, portanto, poderiam mudá-las se quisessem. Na sua opinião, em qual dos grupos as pessoas tiveram maior dificuldade de desistir de suas estimativas iniciais? Imagino que você tenha acertado: o último.

Este experimento evidencia um grande perigo: uma vez que nos convencemos de que algo que pensamos está certo, nosso cérebro passa a ser resistente a mudanças de opinião, mesmo que ela tenha sido formada há poucos minutos e que não tenha sido divulgada.

Depois de o nosso cérebro ter gasto energia raciocinando em algo para chegar a uma conclusão inicial, ele entende como um desperdício de energia ter que pensar sobre o assunto novamente.

Mesmo que queiramos colocar nossas crenças em xeque, naturalmente procuramos por informações que as confirmem e descartamos as que não as confirmem. Da mesma forma, quando queremos debater um assunto polêmico, procuramos conversar com pessoas que pensam parecido conosco e evitamos conversar com pessoas que pensam de forma diferente, para que o nosso mundo continue igual. Este comportamento é nomeado pela psicologia como Viés da Confirmação.

Esta resistência se torna ainda maior com o passar do tempo. Quanto mais tempo passamos acreditando em algo, maior a dificuldade que enfrentamos para mudar a nossa opinião e a passar a acreditar em algo novo.

O premiado cientista Robert Cialdini da Arizona State University nomeia este comportamento como Princípio da Consistência, ou seja, uma vez que nos convencemos e que tornamos público nosso ponto de vista sobre qualquer assunto, nosso cérebro luta para que nossas ações e opiniões sejam consistentes com aquilo que já decidimos no passado.

Depois de anos acreditando que a causa do seu partido político é verdadeira e se posicionando sobre ela com seus amigos, familiares e com a sociedade, o seu cérebro vai lutar para continuar acreditando nesta causa, mesmo que no decorrer do caminho existam acontecimentos que comprovem que o seu partido está envolvido em um grande escândalo. Para nós, ser consistente é mais importante do que estar certo!

Um famoso estudo científico realizado por pesquisadores da Princeton e Dartmouth College evidencia de forma ainda mais consistente nossos vieses comportamentais uma vez que tomamos um lado como partido.

Alunos de ambas as universidades deveriam analisar um vídeo de um jogo de futebol americano entre as duas universidades e dar suas opiniões sobre vários aspectos do jogo. Os resultados do estudo mostram claramente que os estudantes, dependendo da universidade para qual torciam, viam jogos completamente diferentes.

Lula recebeu vantagens indevidas? Bolsonaro pagou por campanhas que disseminaram fake news? Haddad criou o kit gay? Bolsonaro fez afirmações homofóbicas? Doria esteve numa orgia? Manuela usou uma camiseta afirmando que Jesus é homossexual? Guedes está sendo investigado por receber propina?

Dependendo da cor da bandeira que as pessoas carregam, estas notícias serão verdadeiras ou falsas, independentemente delas, de fato, serem verdadeiras ou falsas. De forma similar aos torcedores de Dartmouth e Princeton, cada eleitor enxerga o seu próprio jogo e assim, continuarão a empunhar sua bandeira cegamente.

*Luiz Gaziri é escritor, palestrante, consultor corporativo e professor da FAE Business School e da PUC-PR

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