O vírus do altruísmo

O vírus do altruísmo

Paulo Sergio Coelho*

19 de abril de 2020 | 11h00

Paulo Sergio Coelho. FOTO: DIVULGAÇÃO

Em meio à pandemia do coronavírus, as doações de brasileiros atingiram um recorde. De acordo com o Monitor das Doações Covid-19, que agrega dados públicos sobre iniciativas filantrópicas voltadas ao enfrentamento do patógeno, empresas e pessoas físicas brasileiras doaram um total de R$ 2,5 bilhões, valor superior a todo o investimento corporativo em projetos sociais realizado em 2018, de R$ 2,1 bilhões. A comoção em torno desse inédito altruísmo, contudo, precisa ser contextualizada.

Uma semana atrás, o presidente do Twitter, Jack Dorsey, anunciou a doação de US$ 1 bilhão (R$ 5,2 bilhões) para combater o coronavírus. A contribuição de um único empresário americano não só ultrapassou o dobro das doações registradas até agora pela elite econômica brasileira, como também correspondeu a 28% da fortuna pessoal do CEO do gigante de tecnologia. O anúncio de Dorsey contrastou com o de Mark Zuckerberg, cuja contribuição de US$ 25 milhões (R$ 130 milhões), equivalente a 0,03% de seu patrimônio, foi satirizada em vídeo por uma jornalista britânica como o pingo de um conta-gotas dentro de um copo.

Segundo o IDIS (Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social), entidade sem fins lucrativos que estuda o investimento social privado no Brasil, enquanto doações correspondem a 1,4% do PIB dos EUA, no Brasil, o percentual é sete vezes menor, de apenas 0,2%. Há alguns anos, Warren Buffet e o casal Bill e Melinda Gates lançaram a Giving Pledge, um convite para bilionários se comprometerem a doar em vida mais da metade de suas fortunas para filantropia. Do Brasil, somente um bilionário assinou o pacto: Elie Horn, fundador da construtora Cyrela. Os demais parecem ter ignorado a lição de Andrew Carnegie de que morrer rico é uma desgraça.

No World Giving Index, índice de filantropia em 126 países com base em três parâmetros (doação em dinheiro, trabalho voluntário e ajuda a um desconhecido), os EUA ocupam o topo da lista. Em 2º lugar, porém, está a Birmânia, cuja tradição budista enfatiza o poder da ação do indivíduo. O Brasil, nona maior economia do planeta, ocupa a 74º posição, atrás de Serra Leoa, Haiti e Zimbábue, três dos países materialmente mais pobres. Altruísmo não depende de riqueza.

Será que uma epidemia de escala global revelou o potencial máximo da capacidade filantrópica da elite brasileira? Para responder à pergunta, tome-se como exemplo a doação de R$ 1 bilhão do Itaú. Em 2019, o banco teve lucro líquido de R$ 28,4 bilhões, o maior da história dos bancos do Brasil. A doação correspondeu, portanto, a 3,5% do lucro da instituição no ano passado. Seria o equivalente a uma pessoa com rendimento anual líquido de R$ 100 mil (R$ 8,3 mil por mês) assinar um cheque de R$ 3,5 mil a um fundo de combate à covid-19 – algo em torno de R$ 300 por mês, quantia não desprezível, mas longe de servir como exemplo inédito de solidariedade (quem continua pagando seus prestadores de serviços durante a quarentena, como diaristas e manicures, pode estar contribuindo proporcionalmente mais do que o maior banco do país).

Não se nega que a doação do Itaú seja expressiva e oportuna, mas ela não pode ser vista sem nenhuma crítica. Em meio ao estardalhaço midiático que se criou sobre a contribuição, pouco se falou sobre o critério utilizado pelo banco para chegar à cifra redondamente bilionária, além de se ter relevado a estratégia corporativa de anunciá-la em plena Páscoa (ainda que a oferenda seja inferior ao dízimo paroquial). Se tivesse sido aplicado o percentual do CEO do Twitter sobre o lucro do banco de 2019, a doação deveria ter sido não de um, mas de quase R$ 8 bilhões.

O Sars-CoV-2 parece ter alertado a todos, indistintamente, sobre a inevitabilidade da morte e as recompensas intrínsecas de ajudar o próximo. No entanto, enquanto pessoas humildes têm se oferecido para fazer compras a idosos e tentam sobreviver com os R$ 600 prometidos pelo governo, a elite ainda dá pouco de si. Se a pandemia despertou o espírito solidário das grandes corporações e das famílias mais abastadas, é chegada a hora de os brasileiros exigirem mais de seus bilionários.

*Paulo Sergio Coelho, bacharel em ética, política e economia pela Yale University (EUA) e em direito pelo USP, é advogado criminalista

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