O verde da esperança

O verde da esperança

José Renato Nalini*

01 de março de 2022 | 15h00

Exposição Amazônia, de Sebastião Salgado, chega, no Sesc Pompeia, em São Paulo. FOTO: TIAGO QUEIROZ/ESTADÃO

A Amazônia entrou na agenda planetária, assim que sua destruição foi acelerada nos últimos três anos. O mundo sabe de sua importância para mitigar os efeitos do aquecimento climático, fruto da insanidade e ganância dos humanos. Cientistas alertaram o governo, sem obter qualquer êxito. Seus apelos não conseguiram comover a sociedade, que se fora coesa, impediria a delinquência perpetrada contra esse patrimônio ainda ignorado pela maior parte da população.

Mas há instrumentos mais eficazes do que os postulados da ciência. A imagem é uma ferramenta eficiente de persuasão. E é isso o que Sebastião Salgado sabe fazer com o talento e sensibilidade que o convertem num dos brasileiros mais lúcidos, coerentes e importantes para a salvação de nosso maltratado bioma.

Ele não começou agora. Ele chegou a visitar a Amazônia mais de sessenta vezes em sete anos. Comoveu-se com o desmatamento, com os incêndios, com as grilagens, invasões, agressão desmesurada contra ribeirinhos, comunidades tradicionais e as etnias indígenas que resistiram ao genocídio iniciado no século XVI.

Salgado ama a Amazônia: “Tenho a esperança de que minhas fotografias traduzam essa generosidade da Amazônia”. Generosidade da natureza, doadora espontânea de oxigênio, de cor, de vida em abundância. Por isso é que a mostra das fotos é um depoimento amoroso: um poema ecológico e idílico.

Sebastião Salgado, o maior fotógrafo brasileiro e, com certeza, de toda a Terra, começou a visitar a Amazônia nos anos 1980 e intensificou suas viagens nos anos 2000, por conta do projeto “Gênesis”. A proposta era sedutora: retratar lugares ainda intocados do planeta.

Ele pode, portanto, comparar o que era a Amazônia até há vinte e dois anos e o que ela é hoje: “constatei uma grande ferida na Amazônia, ela estava machucada. Vi regiões que, naquela época que eu tinha trabalhado, eram florestas totalmente virgens, e elas já estavam bem, bem destruídas. Aí vi que era o momento de fazer um trabalho maior”.

O planeta recebeu, estarrecido, as fotos dos incêndios e da destruição da mata com o uso intensificado da motosserra e dos “correntões” puxados por dois tratores, que fazem o extermínio por atacado. Derrubam centenas de grandes árvores e levam consigo as pequenas, no plano predeterminado de produzir terra arrasada.

Essas imagens constituem o maior libelo contra a política antiambiental perpetrada no mais valioso bioma brasileiro. É como se as fotos bradassem “Eu acuso!”. Pedindo a punição dos dendroclastas e dos inimigos da natureza.

Ele confessa que, nos anos 1980, sua curiosidade eram os humanos que habitavam a região. Pensou “que era um ser humano que eu imaginava muito diferente de mim. Mas descobri imediatamente que eram exatamente como eu. Tudo o que era sério e essencial para mim, era sério e essencial para eles”.

Esquecem-se os que patrocinam o extermínio da última grande floresta tropical do globo que ali residem cerca de vinte e cinco milhões de brasileiros, muitos dos quais empenhados em preservar o habitat que lhes garante o sustento. Assustados, apavorados, irresignados com o plano de eliminação do verde. Decepcionados, pois isso é obra de brasileiros como eles! Como é que o Brasil chegou a tal retrocesso?

Sebastião Salgado lamenta o desmanche da Funai, do Ibama e de outras instituições consolidadas, idealizadas justamente para a proteção do patrimônio da biodiversidade e compatíveis com o tratamento constitucional conferido ao ambiente.

Como a era é a das teorias conspiratórias, além da desestruturação oficial, colabora para piorar o quadro o impacto da crise climática. Ele constatou secas nunca antes registradas.

Salgado e sua mulher, Lélia Wanick Salgado, são ecologistas de fato. Mantêm um projeto de reflorestamento em Minas Gerais que já recuperou áreas mortas e que é um êxito internacionalmente reconhecido.

Mas é com suas fotos, já exibidas no mundo civilizado e agora oferecidas ao público brasileiro que ele procura conscientizar os próprios brasileiros para que defendam o que é seu. A Amazônia não é do governo, não é da República, não é do Estado brasileiro. Ela é do povo, o único titular da soberania. Se o povo quiser, a tragédia pode terminar.

A exposição de fotos de Sebastião Salgado está no SESC Pompeia, rua Clélia, 93, na capital, podendo ser visitada aos domingos das 10 às 18 e das terças aos sábados das 10 às 21 horas, até 10 de julho. A entrada é gratuita!

As fotos são em branco e preto, também para que sintamos a importância do verde que, calcinado, se transforma em triste espetáculo de infinitos tons de cinza.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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