O venture capital está à toda. Será sempre a melhor opção para negócios inovadores?

O venture capital está à toda. Será sempre a melhor opção para negócios inovadores?

Renata Mendes*

27 de novembro de 2020 | 04h00

Renata Mendes. FOTO: DIVULGAÇÃO

Entre janeiro e outubro deste ano, as empresas brasileiras ligadas à inovação – startups e scale-ups – levantaram US$ 2,49 bilhões em investimentos, acima dos valores verificados no mesmo período de 2019. É motivo de comemoração para o ecossistema empreendedor, considerando as condições impostas à economia pela pandemia de coronavírus. Muitos negócios tiveram de entrar em modo de sobrevivência. Mas outros conseguiram manter o crescimento – e alguns, os alvos dos investidores de venture capital, aceleraram devido à demanda do mercado.

Capital, todos sabemos, será o combustível para a retomada econômica das empresas do Brasil no pós-crise. Crescer demanda dinheiro, seja para investir em um time de sucesso, para lançar um novo produto, alavancar as vendas ou para ganhar novos mercados. O venture capital, como se vê,  está marcando presença desde já nesse ambiente – e é muito bem-vindo pelos empreendedores. Mas será sempre a melhor opção para negócios inovadores levantarem recursos?

Existem muitas formas de financiar uma startup ou uma scale-up, e elas se dividem basicamente em dois grandes grupos: equity e dívida. Por equity, entendemos os casos em que investidores compram uma fatia do negócio. Se for uma empresa em estágio inicial, provando seu produto no mercado, falamos em investimento anjo ou seed. Para empresas que já estão escalando seu crescimento, falamos em growth capital. Em qualquer caso, no entanto, o segredo de uma captação de sucesso é o mesmo: assegurar que os interesses de todos – empreendedores e investidores – estejam tão alinhados quanto possível. Se alguma das partes for excessivamente beneficiada no investimento, a pressão por resultados se torna inversamente proporcional às chances do investimento dar certo.

O segundo grupo de alternativas de financiamento envolve empréstimos ou contração de dívidas , como linhas de crédito, venture debt ou ainda a emissão de debêntures. Por essa via, a vantagem para os empreendedores está em manter o negócio todo para si. A contrapartida, por sua vez, são os custos, expressos na taxa de juros envolvidas nessas operações.

As vantagens e os riscos

O grande interesse pelas alternativas envolvendo equity tem explicação. O mercado de crédito brasileiro ainda não é adaptado para financiar startups e scale-ups, especialmente por causa da avaliação de alto risco que os bancos fazem para modelos de negócios inovadores, ou menos tradicionais, além da exigência de garantias reais, incompatíveis com a realidade dessas empresas. Por isso, o equity se torna o caminho mais comum – e por vezes o único – para essas empresas escalarem seu crescimento.

Porém, ainda que o equity não possua custo na forma de juros a ser pago, há o custo de se vender uma parte do negócio em troca do investimento. É importante, portanto,  estar atento a situações que podem gerar incômodos e frustrações.

Um primeiro ponto é o cap table do negócio após o investimento – ou seja, a composição acionária da empresa entre os empreendedores originais e os novos sócios. Não se deve economizar energia nisso. É essencial entender qual é o intervalo de diluição estimado para cada nível de investimento. O importante é que os empreendedores não entreguem mais do que o necessário dos negócios que eles mesmos criaram.

O alinhamento entre empreendedores e investidores quanto ao futuro da empresa é outro ponto de destaque. Não é possível, obviamente, prever cada passo dos próximos anos de operações antes de um investimento acontecer. Mas grandes divergências são potenciais geradoras de atritos, que podem consumir tempo e dinheiro de ambos os lados.

Quando um investidor decide entrar em uma empresa, passa a desenvolver uma relação de sócio com os empreendedores. Por isso, a escolha de quem trazer para dentro do negócio é tão importante. Unir-se a um investidor e construir uma parceria baseada na confiança encurta o caminho até seu verdadeiro potencial. Encontrar pessoas que se admira e confia é essencial. Na via oposta, transmitir segurança para os investidores em momentos de tomada de decisões estratégicas e manter rotineiramente uma comunicação proativa também é.

Aos empreendedores, fica o recado: é necessário ter um entendimento profundo das diversas alternativas de capital e seus respectivos custos – financeiros ou não – antes de seguir para uma captação definitiva. Um ponto de partida para essa jornada pode ser o Mapa de Acesso a Capital da Endeavor, um guia com conceitos, instruções e boas práticas para acessar nove alternativas de financiamento para empresas de todos os portes. As oportunidades existem, e cabe aos fundadores e fundadoras escolherem a melhor delas.

*Renata Mendes, gerente de Políticas Públicas da Endeavor

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