O velho futuro

O velho futuro

Leonardo Martinez*

08 de junho de 2020 | 04h00

Leonardo Martinez. FOTO: ENY MIRANDA

Pode soar conceitual, mas o futuro nunca é novo: o futuro é o futuro. É normal essa confusão. Minha filha de 3 anos por alguns dias me perguntava todo dia de manhã: “Hoje é amanhã, papai?” É, filha. O futuro é o agora. E esse “agora” que temos hoje está bastante complicado – e o mundo corporativo, repleto de vícios históricos como todos nós, já está sentindo que o retorno não vai ser como era.

Nossa cultura de trabalho foi forjada com base no controle: desde o cartão de ponto, crachás, banco de horas, roletas eletrônicas, tudo indicava que para ter resultados era preciso manter as pessoas dentro das empresas. Bom, esses meses nos provaram que não é bem assim.

Claro que já vínhamos observando mudanças e evoluções nesse formato. O  wi-fi permitiu trabalhar mais livremente, criou um relaxamento nesse ambiente que era “minha mesa, minha vida”. Vieram os ambientes compartilhados, abertos, alta mobilidade e espaços para compartilhar, cocriar, colaborar e conviver. Era o hotdesking do Vale do Silício, que tornava o escritório mais aprazível e parecido com a nossa casa: sofás, lounges e cafés internos onde até ontem todos podiam trabalhar felizes jogados com seus laptops cheios de adesivos e se achando muito modernos (a geração Z chegou querendo escolher, e – vamos combinar – eu também prefiro esse modelo a uma baia de carpete ou ao eucatex dos anos 50, 60 e 70.

Aí pronto. Veio a Covid e ferrou com os “CO”s do colaborar, cocriar e principalmente do compartilhar no ambiente físico. E veio sem aviso. Hoje os escritórios devem estar lá, com cafés secos nas canecas, casacos abandonados nas cadeiras, tudo sob uma fina camada de poeira chamada passado. Uma cena de um passado distópico.

Hoje vemos que esse passado estava distópico mesmo (o termo é de origem grega, formado por “dys”, que significa “mau, ruim” e pelo radical “topos” que significa “lugar”, ou seja, no lugar errado). Trancar as pessoas num mesmo prédio não as torna produtivas, assim como aprendemos que dá para trabalhar de casa, sim, ou de qualquer lugar.

O home office pode claramente ser anywhere office (um cara que perdia uma hora por dia no trânsito, por exemplo, pode usar esse tempo para aprender um idioma). E certamente não estamos fazendo home office. Ninguém se programou pra isso. Todos estão se dividindo entre a louça eterna, o home schooling detestável e a maldita lavagem das compras. Quando isso passar, trabalhar de casa vai ficar muito mais produtivo.

Hoje o que temos são times estressados, muita desinformação e muitas, muitas ansiedades. Talvez, para alguns, o retorno seja quase uma fuga dessa quarentena de aumento de intensidades e frequências (a busca no Google por “divórcio online gratuito” aumentou 9.900% em abril no Brasil). Ou seja, vamos receber de volta um funcionário estressado, ansioso e desinformado e exigindo dele (e de nós mesmos) resultados em pouco tempo, afinal a crise vem aí. Já outros, nem querem mais voltar. Parte daquele controle vai virar “controle remoto”.

Temos a oportunidade única de transformar aquele passado torto num futuro mais coerente. Sai o “comunicado do chefe” e entra uma nova cultura de diálogo, porque todos vão ver e viver mudanças, emocionais e no ambiente físico, todos os dias, nos próximos meses. Essa mudança de cultura vai ser construída através de duas palavras: confiança e otimismo.

Confiança porque somos seres sociais, queremos de volta parte daquele tempo que passou. E otimismo pra sair de casa sabendo que o sacrifício de abandonar as práticas do passado está ajudando a construir um futuro melhor.

*Leonardo Martinez, sócio da V3A Comunicação

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